====== A ILUSÃO DA "VIDA ORDINÁRIA" ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * A atitude materialista, seja como materialismo explícito e formal ou como materialismo prático, produz modificação profunda na constituição psicofisiológica do ser humano, tornando-o impermeável a influências que não sejam sensíveis e restringindo tanto sua compreensão quanto seu campo de percepção. * As faculdades de compreensão tornam-se cada vez mais limitadas. * O campo perceptivo restringe-se ao que cai sob os sentidos. * O ponto de vista profano é reforçado pela própria limitação que o originou. * A incapacidade de conceber ou perceber o suprassensível parece justificar sua negação. * A noção de vida ordinária ou vida corrente exprime exclusão de todo caráter sagrado, ritual ou simbólico, relegando o supra-humano ao domínio do extraordinário e invertendo a ordem normal própria das civilizações tradicionais. * Nada além do puramente humano é admitido como atuante. * O que ultrapassa essa concepção é considerado excepcional ou estranho. * O ponto de vista profano substitui a normalidade tradicional. * A expressão vida real é empregada ironicamente para designar o domínio mais ilusório. * A realidade sensível é a mais baixa na ordem da existência manifestada. * A separação das coisas de qualquer princípio superior retira-lhes sua verdadeira realidade. * Não existe domínio profano em si, mas apenas ponto de vista profano progressivamente invasivo. * O termo real torna-se sinônimo de sensível, revelando redução instintiva ao corporal. * A filosofia moderna acompanhou essa degenerescência ao exaltar o bom senso e evoluir do racionalismo humanista ao materialismo e ao positivismo, cujos resultados práticos coincidem na negação ou desconsideração do suprassensível. * O bom senso cartesiano caracteriza o domínio da vida ordinária. * O racionalismo reduz todas as coisas ao ponto de vista exclusivamente humano. * O materialismo nega explicitamente o que ultrapassa o sensível. * O positivismo declara o suprassensível inacessível ou incognoscível. * A consequência efetiva é idêntica nos dois casos. * O materialismo ou positivismo prático, independente de formulação teórica, é mais grave por sua difusão inconsciente e por impregnar profundamente a natureza individual, enquanto a filosofia desempenha sobretudo papel representativo das tendências da época. * A maioria adere a atitudes materialistas sem reflexão filosófica. * O estado mental torna-se mais irreversível quanto menos consciente. * Indivíduos que se julgam religiosos acomodam-se ao materialismo prático. * A filosofia só obtém êxito quando corresponde às tendências predominantes. * O que é mais visível na manifestação costuma ser consequência e não causa profunda. * O mecanicismo e o materialismo difundiram-se amplamente ao transitar do domínio filosófico para o científico, cuja autoridade prática e utilitária exerce influência superior sobre a mentalidade comum. * A ciência goza de crença implícita em sua verdade, apesar de seu caráter hipotético. * A filosofia deixa o público relativamente indiferente. * A existência de aplicações práticas reforça a autoridade científica. * A mentalidade pragmática integra a concepção de vida ordinária. * A utilidade substitui a noção de verdade na decadência intelectual moderna. * O valor atribuído às coisas mede-se por sua eficácia sensível. * A ciência, solidária da indústria, torna-se fator central da vida ordinária. * O sucesso passa a funcionar como critério de verdade para o espírito utilitarista. * As aplicações práticas não dependem da veracidade das hipóteses científicas. * Todas essas posições constituem aspectos de uma única tendência estruturante do espírito moderno, incapaz de perceber o plano profundo de desvio em que se insere o materialismo e surpreendido pela existência de homens cuja normalidade transcende a vida ordinária sensível. * O desenvolvimento dessas tendências não é espontâneo. * O materialismo ocupa lugar específico no plano geral da perdição moderna. * Os materialistas não concebem a possibilidade desse plano por estarem presos a preconceitos. * Para certos homens, a vida ordinária sensível seria algo extraordinário. * Tais homens representam a verdadeira normalidade. * O materialismo implica atrofia de faculdades superiores. * A percepção do mundo sensível como sistema fechado depende dessa atrofia. * A segurança aparente da vida ordinária constitui equilíbrio instável sujeito a interferências inesperadas.