====== MITOLOGIA CIENTÍFICA E VULGARIZAÇÃO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * A persistência de teorias abandonadas pelos próprios sábios deixa sobrevivências na mentalidade comum, pois a ciência profana constrói hipóteses empíricas frágeis e mutáveis que não podem ser garantidas pelos fatos e acabam adquirindo caráter convencional e irreal. * A ciência profana, ao ultrapassar a simples observação, ergue teorias puramente hipotéticas. * Fatos admitem explicações diversas e não asseguram a verdade de teoria alguma. * As hipóteses são mais guiadas por ideias preconcebidas e tendências modernas do que pela experiência. * A rapidez com que hipóteses são substituídas evidencia sua falta de solidez. * Os próprios sábios tendem a tratá-las como convenções e modos de falar. * Esse caráter irreal anuncia avanço em direção à dissolução final. * O mecanicismo cartesiano já fora entendido por Leibniz como representação das aparências sem valor explicativo. * O perigo principal das teorias ilusórias reside no efeito dogmático que produzem no grande público por se apresentarem como científicas, sobrevivendo na instrução elementar e na divulgação em forma simplificada, afirmativa e antitradicional. * O público aceita hipóteses como dogmas e as mantém mesmo após seu abandono pelos sábios. * A instrução elementar e a divulgação preservam essas hipóteses por longos períodos. * A apresentação é simplificada e afirmativa, ocultando seu caráter hipotético. * Essas doutrinas pretendem substituir dogmas religiosos em espírito antitradicional. * Teorias evolucionistas exemplificam esse papel de substituição. * Divulgadores atacam ideias tradicionais e operam na subversão intelectual. * Forma-se uma mitologia cientificista em sentido depreciativo. * A mitologia cientificista manifesta-se exemplarmente na imaginação pública sobre átomos e subelementos, tomados como entidades tangíveis apesar de serem, para os físicos, imagens de linguagem e apesar de o termo átomo contradizer a própria divisibilidade postulada. * A física recente multiplica componentes e dissolve o sentido literal de indivisível. * Persistência do nome átomo ocorre apesar da incoerência lógica. * O público acredita em entidades observáveis e tocáveis mediante sentidos ou instrumentos mais potentes. * Essa crença convive com zombaria das concepções antigas incompreendidas. * A deformação popular atual é mais material e mais generalizada, reforçada pela instrução obrigatória profana e rudimentar. * A sobrevivência de hipóteses leva à superposição confusa de elementos teóricos distintos e à aceitação de contradições, e suas transposições para outros domínios produzem fantasmagorias do neo-espiritualismo por materialização do suprassensível. * Representações heterogêneas combinam-se em imagens vulgares contraditórias. * Tendências à solidificação e à dissolução atuam simultaneamente rumo à catástrofe final. * Neo-espiritualismos transportam conceitos sensíveis para o suprassensível. * O suprassensível é concebido sob tipo de coisas sensíveis, sob influência materialista. * Ocultismo e teosofia buscam aproximação com teorias científicas modernas. * A semelhança entre escola ocultista e teoria científica permite datar a escola por suas referências. * A entrada do manejo de influências psíquicas no domínio profano, desde o século XVIII, acompanha o materialismo e inaugura fase dissolvente, na qual concepções de fluidos corporificam o sutil por meio do magnetismo animal e influenciam escolas posteriores. * Concepções de fluidos representavam forças físicas na época. * O magnetismo animal transporta o fluido do corpóreo ao sutil, corporificando o que é sutil. * Magnetizadores precedem o neo-espiritualismo e influenciam espiritismo e ocultismos. * Fenômenos do magnetismo são elementares, mas sua influência cultural é ampla. * O magnetismo desviou organizações iniciáticas de trabalhos sérios e parece ter sido lançado no momento oportuno. * A mitologia atual substitui fluidos por ondas e radiações, como na radiestesia, mantendo a mesma materialização ao tratar influências psíquicas e até o pensamento como propagação corpórea imaginada. * A linguagem de fluidos persistiu no século XIX e além, inclusive em expressões rotineiras. * O espiritismo herda o modelo fluidista por vínculo estreito com o magnetismo. * A existência de sujeitos magnéticos prepara a figura dos médiuns espíritas. * Magnetizadores e espíritas continuam a crer em fluidos apesar de proclamarem o progresso. * Radiestesia interpreta influências sutis como ondas e radiações no espaço. * A materialização torna-se mais insidiosa sob formas menos grosseiras. * A mentalidade moderna permanece incapaz de conceber além da imaginação sensível. * As visões de clarividentes refletem imagens mentais moldadas por teorias adotadas, e o delírio da quarta dimensão exemplifica perigo da divulgação ao tomar construção algébrica por realidade física e aplicá-la literalmente a fenômenos. * Clarividentes veem fluidos, radiações, átomos e elétrons conforme crenças de escola. * A hipergeometria é construção algébrica expressa em termos geométricos. * Psiquistas usaram a quarta dimensão para explicar atravessamentos aparentes de sólidos. * A passagem pela quarta dimensão foi tomada como fato e não como imagem aceitável de interferências entre domínios. * Ocultismos recentes edificam teorias sobre a quarta dimensão sob influência da física nova. * Ocultismo e ciência moderna convergem à medida que a desintegração avança. * A discussão serve de transição para considerações sobre a solidificação do mundo.