====== RUMO À DISSOLUÇÃO ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * A marcha do fim do ciclo exige distinguir duas tendências simultâneas e apenas aparentemente contraditórias: solidificação e dissolução. * A solidificação já dominou e estruturou a época materialista. * A dissolução corresponde necessariamente ao termo de toda manifestação cíclica. * A dissolução parece tornar-se predominante já no presente. * A passagem de predominância indica que o máximo de “solidez” efetiva foi ultrapassado. * O materialismo, forma mais grosseira da solidificação, perde terreno nas teorias científicas e filosóficas, embora persista na mentalidade comum. * A noção de matéria começa a dissolver-se nas teorias recentes. * A segurança típica da vida ordinária enfraquece com a aceleração dos acontecimentos. * A instabilidade torna-se impressão dominante em todos os domínios. * A solidez implica estabilidade, e a instabilidade generalizada aponta para a dissolução. * A aceleração do tempo intensifica a dissolução sem alterar a direção descendente do ciclo. * A rapidez crescente das mudanças conduz espontaneamente a estados mais instáveis. * As teorias físicas tornam-se mais quantitativas e mais matemáticas. * Quanto mais “convencionais” e quantitativas, mais se afastam do sensível que pretendem explicar. * A quantidade pura situa-se abaixo da realidade sensível, não acima dela. * O sólido, mesmo no máximo de densidade, não se confunde com quantidade pura, pois conserva elementos qualitativos e implica espacialidade. * A corporeidade supõe espaço, ainda que comprimido. * O espaço não é assimilável à quantidade pura. * Mesmo reduzindo corpo a extensão, permanece a quantidade contínua. * A quantidade discreta, o número, é o modo mais próximo da quantidade pura. * A passagem ao discreto rompe a condição própria do sólido e do corporal. * A redução total ao quantitativo tem um limiar em que deixa de produzir solidificação e passa a produzir dissolução. * Reduzir o contínuo ao discreto conduz à impossibilidade de subsistência dos corpos como tais. * O mundo corporal resolve-se numa poeira “atômica” sem consistência. * Essa forma de dissolução pode ser figurada como pulverização. * A pulverização ainda deixa resíduos, mesmo impalpáveis. * A dissolução plena do ciclo exige desaparecimento completo do manifestado enquanto tal. * Por isso, além de pulverização, a dissolução pode ser concebida como volatilização. * Na consumação do ciclo, os resultados dividem-se em dois destinos complementares: fixação superior e rejeição inferior. * Os resultados positivos são cristalizados e depois sublimados. * A cristalização prepara a transmutação em germes do ciclo futuro. * O que não pode ser utilizado é precipitado como caput mortuum. * Esse resíduo cai nos prolongamentos mais inferiores do estado individual. * Trata-se de uma zona sutil infra-corporal. * Em ambos os casos, há passagem para modalidades extra-corporais. * Assim, a manifestação corporal do ciclo evapora-se integralmente como tal. * O duplo par hermético se impõe: coagulação e solução em ambos os lados. * No lado benéfico: cristalização e sublimação. * No lado maléfico: precipitação e retorno à indistinção caótica. * A dissolução não se efetiva apenas pela continuação automática do reino da quantidade; requer intervenção mais diretamente eficaz de influências sutis. * A intensificação quantitativa descreve uma visão teórica parcial e unilateral. * Para desfazer os “nós” produzidos pela solidificação é preciso ação extrínseca a esse domínio restrito. * Esses nós evocam coagulações de ordem mágica. * A ação decisiva provém de influências sutis já atuantes há muito no mundo moderno. * Magnetismo e espiritismo ilustram a coexistência precoce desse fator com o materialismo. * A diminuição do materialismo não constitui melhora, mas passagem de fase. * As fissuras que se abrem no sistema fechado só podem abrir-se “por baixo”, trazendo interferências do psiquismo cósmico inferior. * O que interfere no sensível provém do inferior sutil, não do superior. * Essas influências inferiores são as verdadeiramente aptas a operar a dissolução. * Favorecer tais interferências corresponde a etapa mais avançada da perdição. * O materialismo foi um estágio menos avançado, embora parecesse dominante. * Alguns tradicionalistas celebram erroneamente a saída parcial do materialismo e a abertura às influências sutis, sem julgar sua qualidade. * Imaginam conciliação futura entre ciência profana e ciência tradicional. * Tal conciliação é impossível por razões de princípio. * Confundem ciência tradicional com deformações modernas e pseudo-tradicionais. * Depositam esperanças na metapsíquica como remédio ao mundo moderno. * Atribuem os males exclusivamente ao materialismo, erro que encobre a fase seguinte. * O plano da perdição exige ir além da negação materialista: liberar forças inferiores para consumar a dissolução. * O materialismo interditou o acesso às possibilidades superiores. * A negação pura torna-se insuficiente para completar a obra de dissolução. * O desencadeamento de forças inferiores é o instrumento final do desordenamento. * Trata-se de desenvolvimento lógico, porém de lógica “diabólica”. * O materialismo oferece imunidade limitada, pois sua espessura bloqueia influências sutis indistintamente, produzindo sensação de segurança. * A segurança do materialista provém do fechamento na “concha”. * A concha é composta por teorias convencionais e hábitos mentais. * O endurecimento repercute na constituição psico-fisiológica. * Abrir a concha por baixo permite entrada imediata de influências destrutivas. * A preparação materialista removeu qualquer proteção superior. * A fase materialista foi sobretudo preparação teórica. * A fase do psiquismo inferior constitui pseudo-realização invertida. * A segurança da vida ordinária revela-se ilusão já ameaçada. * Substituir essa ilusão por outra é pior se conduz a espiritualidade ao revés. * Os movimentos neo-espiritualistas são precursores ainda fracos dessa subversão.