====== AS ETAPAS DA AÇÃO ANTITRADICIONAL ====== //[[guenon:rqst:start|REINO DA QUANTIDADE E SINAL DOS TEMPOS]]// * A ação antitradicional não é espontânea nem fortuita, pois toda ação efetiva exige agentes. * A concordância com a fase cíclica explica a possibilidade e o êxito, mas não explica os meios empregados. * Sendo uma ação no domínio humano, implica necessariamente agentes humanos. * Se as influências espirituais atuam por intermediários humanos nas tradições, com mais razão as influências psíquicas inferiores exigem tais intermediários. * O caráter de “contrafação” desse domínio reforça a necessidade de agentes. * A oposição decisiva recai sobre a iniciação, pois ela encarna o espírito da tradição e a realização supra-humana. * O objetivo do processo é arrastar o homem ao “infra-humano”. * O termo adequado para designar o conjunto de agentes é “contra-iniciação”. * A “contra-iniciação” não é um rótulo arbitrário, mas expressão de realidades precisas. * Há graus na contra-iniciação, assim como há graus na iniciação. * O mundo moderno manifesta um caráter crescente de artificialidade, desnaturação e falsificação. * A crítica antimoderna frequentemente percebe o artificial, mas não o princípio subjacente. * Se tudo se torna artificial, a mentalidade correspondente também é “fabricada”, não espontânea. * A incapacidade de perceber isso mostra a força das “sugestões” constitutivas do mundo moderno. * Mesmo os antimodernos permanecem presos a tais sugestões e desperdiçam esforços. * A ação antitradicional visou simultaneamente mudar a mentalidade e destruir instituições tradicionais no Ocidente. * O Ocidente foi o primeiro campo direto de atuação. * A expansão mundial viria por meio de ocidentais preparados como instrumentos. * Mudada a mentalidade, instituições tradicionais tornam-se incongruentes e fáceis de destruir. * O trabalho fundamental é a desvio da mentalidade, do qual o restante depende. * O desvio da mentalidade exigiu etapas sucessivas, não podendo ocorrer de um golpe. * A rapidez do esquecimento ocidental do caráter tradicional do próprio passado é anormal. * A incompreensão dos séculos XVII e XVIII diante do medievo indica ruptura brusca e não espontânea. * A transformação exigiu uma “fabricação” metódica. * Primeira etapa: redução do indivíduo a si mesmo pela obra do racionalismo. * O racionalismo nega faculdades de ordem transcendente. * Sua ação antecede sua formulação explícita e já aparece no Protestantismo. * O humanismo da Renascença foi precursor direto do racionalismo. * “Humanismo” implica reduzir tudo ao humano e excluir o supraindividual. * Segunda etapa: orientação total da atenção para o exterior e o sensível, confinando ao corporal. * Esse confinamento é o ponto de partida da ciência moderna. * A ciência moderna é dirigida a tornar essa limitação cada vez mais efetiva. * A constituição teórica procede gradualmente. * O mecanicismo prepara a via ao materialismo. * Terceira etapa: materialismo e elaboração da noção de matéria conduzem ao “reino da quantidade”. * O materialismo reduz o horizonte mental ao corporal tomado como única realidade. * O corporal é depurado do que não pareça estritamente “material”. * A ciência profana, mecanicista desde Descartes, torna-se materialista a partir da segunda metade do século XVIII. * As teorias tornam-se cada vez mais quantitativas. * O materialismo difunde-se como “materialismo prático”, um instinto social. * As aplicações industriais reforçam o apego às realizações materiais. * O homem mecaniza o mundo e se mecaniza, tornando-se “unidade numérica” na massa indistinta. * A quantidade triunfa sobre a qualidade. * Paralelamente, inicia-se um segundo trabalho, aparentemente contrário, voltado à dissolução. * Esse trabalho começa desde o aparecimento do materialismo. * Não contraria a quantificação; prepara o momento em que ela mesma tende à dissolução. * Quando a solidificação atinge seu máximo, a redução do contínuo ao descontínuo torna-se tendência dissolvente. * O trabalho dissolvente, antes oculto e restrito, passa a manifestar-se publicamente. * A ciência quantitativa torna-se menos materialista e abandona a própria noção de matéria. * O estado atual é o da sobrevivência do materialismo, sobretudo como materialismo prático. * O materialismo deixa de ser o agente principal da ação antitradicional. * A fase decisiva atual consiste em reabrir o mundo por baixo, sem restituir comunicação com o superior. * O fechamento máximo do corporal foi obra da fase materialista. * O passo seguinte é abrir “fissuras” por onde entram forças dissolventes do sutil inferior. * Trata-se do “desencadeamento” dessas forças para conduzir à dissolução final. * Há duas fases distintas: solidificação/quantificação e dissolução. * Embora parcialmente simultâneas, elas se sucedem logicamente no “plano” da desvio moderna. * A primeira fase, uma vez constituído o materialismo, desenrola-se por implicação interna. * A segunda foi preparada desde então e apenas começa a produzir efeitos visíveis. * Esta segunda fase passa agora ao primeiro plano. * O agente diretivo é designado com maior precisão como “contra-iniciação”.