====== LIBERDADE E IGUALDADE ====== * O mundo atual aparece como caos de opiniões e aspirações desordenadas, com um caos fluido no chamado “mundo livre” e um caos rígido na parte totalitária, em contraste com o mundo antigo entendido como ordem hierárquica de conceitos. * Ordem definida como hierarquia de conceitos em níveis próprios. * “Colisão” humanista rebaixa a hierarquia ao nível psíquico. * Aspirações ao outro mundo introduzem-se no plano terrestre de modo frustrado e pervertido. * A impossibilidade humana de não adorar conduz, quando a perspectiva se corta do plano espiritual, à idolatria de um “deus” inferior que recebe atributos do Absoluto. * Transferência do absoluto para algo relativo. * Proliferação de “palavras poderosas” como “liberdade”, “igualdade”, “instrução”, “ciência” e “civilização”. * Prostração infra-racional diante de palavras elevadas a ídolos. * As superstições de liberdade e igualdade funcionam como efeito e causa parcial do desordem, por serem revoltas contra a hierarquia e perversões de impulsos elevados do homem, mas tenderiam a dissipar-se com o restabelecimento do ordem antigo. * Revolta contra a hierarquia como traço comum. * Corruptio optimi pessima como princípio interpretativo. * Reaparecimento de aspirações terrestres legítimas após a queda das ídolos. * Reintegração transformada de liberdade e igualdade no topo da hierarquia. * O desejo de liberdade tem origem primária no desejo de Deus, pois a Liberdade Absoluta pertence à Divindade, e a libertação suprema é figurada no Hinduísmo como moksha e como união (yoga) com o Absoluto. * Moksha como afrouxamento dos laços da relatividade. * União com o Infinito e o Eterno como sentido da libertação. * Liberdade relativa como derivação inferior da libertação absoluta. * A afirmação do Cristo de que a conhecimento torna livre remete sobretudo à Gnose como união com Deus, conservando também aplicação secundária como acesso a um mundo superior que possibilita escapar deste mundo. * Conhecimento direto como união com o objeto conhecido. * Verdades espirituais como via de liberação relativa. * “Saída da caverna” como imagem do escape para o mundo superior. * Platão como referência à perspectiva antiga oriental e ocidental. * A imagem apresentada por Platão na boca de Sócrates descreve prisioneiros numa caverna, impedidos de mover a cabeça, vendo apenas sombras projetadas por marionetes entre um fogo e o muro. * Prisão desde a infância como condição do prisioneiro. * Correntes impedem a rotação da cabeça e fixam o olhar. * Fogo atrás dos prisioneiros e marionetes em movimento como fonte das sombras. * Sombras como única realidade percebida no início. * A libertação de um prisioneiro conduz primeiro à visão das marionetes, depois à fuga para o mundo exterior e, progressivamente, à contemplação de sombras, reflexos, coisas e finalmente do Sol. * Adaptação gradual da visão à luz. * Lua e Sol como estágios de iluminação. * Realidades exteriores como fonte das aparências internas. * A caverna simboliza este mundo e os prisioneiros simbolizam os mortais, cuja falta de objetividade impede ver claramente até mesmo as coisas terrenas, restando-lhes apenas sombras vagas, enquanto o mundo exterior simboliza o outro mundo das realidades espirituais. * Preguiça, estupidez e parti pris como causas de falta de objetividade. * “Espelho” e visão confusa como condição presente, em contraste com visão face a face. * Coisas deste mundo como símbolos de realidades espirituais. * Paralelo entre gradações de visão e a progressiva luminosidade do sorriso de Beatriz guiando Dante pelos Sete Céus. * A intensificação da percepção intelectual direta acompanha a ascensão na hierarquia dos estados espirituais e relativiza tanto o simples afrouxamento das correntes quanto as pequenas “liberdades” dos prisioneiros que nem desejam ser libertos. * Liberação como movimento por etapas no caminho. * Liberdade comum como conjunto de pequenas permissões internas à prisão. * Indiferença de muitos prisioneiros em relação à libertação. * O retorno do liberto ilumina o contraste entre interesses centrados nas sombras e a visão final, e a imagem conduz a reconhecer nos Mensageiros Divinos e fundadores de religiões os seres que retornam para instruir sobre as realidades do alto. * Mensageiros Divinos como instrutores do Sol, da Lua e das realidades em plenitude. * Alguns prisioneiros acolhem e desejam escapar. * Muitos se enfurecem e consideram Profetas loucos ou sonhadores. * A crença e a incredulidade distinguem dois prisioneiros, um consciente do cárcere e outro que o nega. * A origem da concepção igualitária no Absoluto relaciona-se à possibilidade suprema chamada pelo Cristianismo de “deificação” e expressa no Hinduísmo como “És Isso”, de modo que a necessidade de igualdade é nostalgia de adequação à Presença Divina. * Igualdade como aspiração a ser novamente adequado ao Divino. * Adequação como maior dos Mistérios. * Islame exprime o mistério pela palavra de que o coração do fiel contém o que Céu e Terra não contêm. * Os maiores santos são iguais pela igualdade de sua vacuidade receptiva à Plenitude do Infinito, e tal igualdade possui também aspecto celeste ilustrado pelo poema medieval inglês A Pérola. * A Pérola narra visão da filha no Paraíso. * A filha se diz Rainha dos Céus. * Santa Virgem Maria permanece Rainha dos Céus, permitindo reinado compartilhado por sua benevolência. * A igualdade social universal aparece como possibilidade humana e como norma do Idade de Ouro, mas na ausência dela torna-se preferível preservar relativa excelência em vez de uma mediocridade igualitária. * Idade de Ouro definida como condição “acima das castas”. * Preferência por salvaguardar excelência remanescente. * Evitação de nivelamento por baixo como risco final. * O sistema de castas surge como meio de conservar excelência e beneficiar o conjunto da sociedade, tendo sido aplicado com rigor pelos Hindus que conservaram intacta uma religião extremamente antiga enquanto equivalentes grego, romano e germânico já degeneravam. * Castas como salvaguarda de resíduos de excelência. * Hindus como caso de rigor metódico. * Conservação da religião antiga em sua intelectualidade. * Degeneração precoce de equivalentes europeus antigos. * A normalização das castas inferiores ao fim do ciclo temporal acompanha a preocupação antiga de frear a multiplicação de tipos humanos inferiores e resistir ao movimento descendente inevitável por métodos diversos. * Conservação como objetivo coletivo do mundo antigo. * Degenerescência reconhecida como inevitável. * Métodos variados de resistência conforme povos e contextos. * Um modo mais antigo de conservação consiste em manter à distância causas externas da decadência, como a sedentarização, e conservar contato estreito com a natureza virgem, desde que ritualizado e iluminado por contato verdadeiramente intelectual. * Peles-vermelhas como exemplo de afastamento de causas externas. * Contato físico e psíquico com a natureza como condição insuficiente sem dimensão intelectual. * Ritualização como forma de ordenar a relação com a natureza. * A perspectiva atribuída aos Índios entende os objetos como sombras de Realidade e afirma a sacralidade universal (Wakan), sustentando que o mundo está mergulhado em Deus sem identificar Deus com o mundo. * Contemplação das essências angélicas e Qualidades Divinas através da natureza. * Todo objeto criado como sagrado por ser sombra de Realidade. * Rejeição do panteísmo entendido como “Deus no mundo”. * Afirmação de que o mundo permanece misteriosamente em Deus. * Terra intacta, virgem e sagrada como condição de refletir o Eterno. * Essa maneira de viver possibilita dispensar o sistema de castas e manter ordem social como prolongamento virtual da igualdade primordial, sem “proletariado” nem “bourgeoisie” entre os Índios americanos quando não corrompidos pelos Caras Pálidas. * Ordem social aristocrática como traço coletivo. * Produção de minoria que lembra sacerdotes-reis da alta antiguidade. * Corrupção externa como fator de perda de fidelidade a si mesmos. * O nomadismo sem contato intelectual oferece apenas proteção parcial, e o termo “primitivo” é usado com pouco discernimento ao confundir preservação natural com primordialidade. * Vias de declínio podem divergir amplamente ao longo do tempo. * Peles-vermelhas da Idade de Ferro podem ver-se degenerados ante idades mais primordiais. * Muitos “selvagens” ditos “primitivos” são descritos como extremamente degenerados. * Proximidade à natureza não implica primitividade essencial. * Platão considerava que a encarnação da perspectiva intelectual por autoridade espiritual fortemente constituída é a melhor garantia contra a decadência, visão compartilhada com Índios americanos, hindus e teocracias sedentárias sem castas. * Autoridade espiritual como garantia prática. * Neutralização de discordâncias entre casta e classe como preocupação tardia. * “Acidentes” sociais como fator de desajuste entre qualificação natural e posição. * A Cristandade preservou a ordem social existente por corresponder parcialmente às castas e instituiu acima uma casta superior aberta a todas as classes, protegida por sacrifícios, enquanto o Islame impôs a pertença superior a todas as classes e enfatizou os “graus”. * Casta superior cristã aberta a todas as classes. * Sacrifícios como barreira contra intrusos. * Islame como apelo ao sacerdote-rei na natureza humana. * Igualdade virtual do sacerdócio eclipsa distinções mundanas. * Hierarquia espiritual organiza os graus dentro da igualdade. * O Estado ideal de Platão, chamado “aristocracia”, exige verdadeiros filósofos como soberanos, equivalentes a santos por terem escapado da caverna e contemplado o “Soleil”, configurando uma teocracia. * Soberania imposta mesmo contra a vontade dos filósofos. * Visão direta do Sol como critério do verdadeiro filósofo. * Capacidade de ir e vir entre a caverna e o mundo do alto. * Pontífice e Pontifex como “construtor de ponte” entre planos. * A insuficiência pessoal do potentado espiritual não invalida a preciosidade da função, pois a existência do Pontífice afirma a supremacia do espiritual sobre o temporal e orienta coletivamente para a “saída da caverna”. * Cargos podem exceder a medida dos que os ocupam. * “Solução” moderna reduz o cargo ao tamanho do ocupante. * Maneira antiga privilegia paciência e esperança por homem melhor. * Função vale independentemente do portador por afirmar orientação espiritual. * A hierarquia interior dos santos pode substituir ou compensar a hierarquia exterior, e no Medievo a Cristandade ocidental e oriental, bem como teocracias orientais, exibiram continuidade de grandes santos cuja palavra tinha força de lei. * Santos como pontífices em si mesmos, sem depender de função. * Cadeia ininterrupta de grandes santos no Ocidente medieval. * Influência análoga na Igreja oriental e em teocracias não cristãs. * Ordem teocrática fornece autenticidade do sentido geral dos valores. * A civilização teocrática existe para favorecer o movimento “contra a corrente”, resistir à deriva “decadente” e instaurar um impulso centrípeto que neutraliza tendências centrífugas da criação, tendo nos santos sua imagem exemplar e prolongamentos nas confrarias místicas. * Quadro social como suporte à função religiosa. * Santos como encarnação do centrípeto e do contra-corrente. * Ordens místicas como extensões da vida do santo fundador. * Na Cristandade medieval, uma rede de mosteiros e conventos cobria Europa e Ásia Menor e imprimia ritmo espiritual pelo ciclo anual cristão, gerando turbilhão espiritual que arrastava a coletividade. * Presença de centros próximos a cada village. * Vivência intensa de Advento, Natal, Epifania, Quaresma, Paixão, Ressurreição, Ascensão, Pentecostes, Assunção, São Miguel e Todos os Anjos, Todos os Santos e Festa dos Mortos. * Sucessão de festas patronais como ligação mensal. * Turbilhão espiritual como efeito social. * Cada centro oferecia instrução religiosa elementar e caridade, e permitia acesso ao ensino mais alto a quem tivesse aptidão enraizada, o que contraria a ideia de “opressão” quando definida por critérios profanos de elevação. * Possibilidade de ascensão espiritual mesmo ao filho do mais pobre camponês. * Elevação digna entendida como aproximação do Espírito. * Títulos e riquezas não configuram tragédia segundo perspectiva monástica. * Mesmo o sistema de castas mais rígido deve admitir via ascendente aberta a todos fora das restrições sociais, como no caso dos sannyâsîs no Hinduísmo e do clero cristão onde a origem social perde relevância. * Super-casta de monges errantes como realização de igualdade. * Clero cristão como analogia de superação de títulos nobiliárquicos. * Possibilidade de um camponês tornar-se papa e coroar o imperador. * Injustiças e opressões individuais e a distância entre teoria e prática são atribuídas à decrepitude coletiva humana na extrema senilidade, não à teocracia, que teria evitado males piores e preservado esperança de restauração do bem. * Degenerescência coletiva como causa de falhas. * Teocracia como freio que impede agravamento. * Esperança recorrente de retorno do bem como disposição social. * O Age de Fer como “idade da escolha entre dois males” contrasta com o Medievo como “idade da escolha do menor mal”, e papas e califas maus são tidos como menos devastadores que figuras laicas como Henrique VIII e Ataturk. * Comparação entre regimes sagrados e inauguradores do desespero laico. * Critério de devastação associado à laicização radical. * A Europa medieval é figurada como doente consciente do desfecho fatal, sofrendo mas com constituição ainda sólida, em contraste com corpo terminal entorpecido por medicamentos que delira melhora enquanto se decompõe. * Dor e gemidos como expressão da doença. * Coração forte e circulação ainda ativa como sinais de vigor. * Momentos de trégua como memória de juventude e saúde. * Estado terminal como atrofia periférica e autoilusão de melhora. * A possibilidade individual de escapar positivamente do movimento geral apoia-se na necessidade metafísica de que um “melhor” possa sair do mal, de modo que a vaidade do mundo torna-se hoje mais audível pela própria decrepitude do mundo. * “Toda nuvem tem um lado positivo” como princípio. * Onipresença Divina como fundamento da possibilidade de bem emergente. * Mundo antes silencioso e homens proclamando a vaidade, agora inversão em que o mundo “grita” sua vaidade. * Falsos deuses ligados às mãos dos homens caem em pó. * A distinção entre perder a fé neste mundo e crer no outro é recusada como simplista, pois permanece herança de ancestrais para quem a porta entre os dois mundos estava aberta, e cessar de “raspar o chão” pode reativar a tentativa de voo. * Descendência de homens cuja fronteira entre mundos era porta aberta. * Herança psíquica recebida independentemente de consciência. * Imagem do pássaro que não voa enquanto insiste em raspar o solo. * Possibilidade de ensaio de elevação quando cessa a fixação ao chão.