====== PASSADO À LUZ DO PRESENTE ====== * A interrogação acerca de uma eventual mudança de atitude dos povos antigos em relação a seus primeiros antepassados, caso possuíssem os conhecimentos científicos modernos, introduz o problema da compatibilidade entre religião e ciência. * A atitude dos antepassados encontrava-se amplamente fundamentada na religião. * A questão sugere possível tensão entre saber tradicional e saber científico. * A análise das chamadas “pedras de tropeço” deve ser conduzida à luz autêntica da religião e da ciência, distinguindo-as de suas deformações. * A oposição aparente pode derivar de interpretações desviadas. * A investigação requer discernimento entre letra e espírito. * A cronologia da Criação segundo a interpretação literal do Antigo Testamento não pode ser afirmada como exigência necessária da religião. * A expressão “mil anos são para Ti como um dia” relativiza a noção humana de tempo. * Os “dias” sagrados podem designar períodos divinos incomparavelmente superiores ao dia humano. * A leitura literal da datação aproximada de 4000 a.C. revela-se problemática. * A ciência não pode admitir que a Terra tenha sido criada há cerca de seis mil anos, pois múltiplas evidências demonstram a anterioridade da Terra e do homem. * Provas arqueológicas e geológicas apontam para uma antiguidade muito maior. * A refutação científica incide sobre a cronologia literal. * A refutação científica da letra das Escrituras não implica refutação de seu espírito, pois razões espirituais e qualitativas do tempo relativizam a cronologia literal sem diminuir a espiritualidade medieval. * Os homens do Médio Age possuíam percepção mais qualitativa do tempo. * A incongruência espiritual de uma criação rapidamente seguida por um dilúvio total suscita reflexão. * A responsabilidade humana era enfatizada mais que a divina. * A perspectiva moderna tende a considerar também responsabilidades divinas. * A posição adotada depende do grau de desapego espiritual. * A sensibilidade contemporânea acerca do que convém à Glória de Deus harmoniza-se mais com a perspectiva antiga dos ciclos do que com a cronologia medieval estrita. * A tradição dos quatro idades — Ouro, Prata, Bronze e Ferro — encontra-se entre Gregos e Romanos. * A mesma doutrina aparece entre Hindus e Índios da América do Norte. * No Hinduísmo, a Idade de Ouro é a mais longa e qualitativamente superior. * A Idade de Ferro corresponde ao período mais curto e sombrio, já com mais de seis mil anos. * As designações arqueológicas modernas de “Idade do Bronze” e “Idade do Ferro” não coincidem com os ciclos tradicionais. * A tradição universal dos quatro idades não contradiz o Livro da Gênese, mas favorece interpretação alegórica dos nomes e acontecimentos. * Certos nomes podem designar períodos inteiros. * Adam pode significar tanto o primeiro homem quanto a humanidade primordial. * A duração da humanidade primitiva estende-se por milênios. * A religião requer a afirmação de um estado primordial de excelência do homem seguido de queda, ainda que em sentido alegórico. * A alegoria expressa verdade e não seu contrário. * Judaísmo, Cristianismo e Islã ensinam a perfeição primordial e a queda. * As religiões convergem na doutrina da involução e não da evolução. * A adesão científica à teoria da evolução revela controvérsias internas e elementos de crença que ultrapassam a demonstração empírica. * Paul Lemoine qualificou a teoria da evolução como impossível. * Louis Bounoure citou Yves Delage reconhecendo ausência de observação direta da transformação de espécies. * Jean Piveteau admitiu que nenhuma teoria explicativa satisfaz plenamente os fatos. * Douglas Dewar sublinhou o mistério persistente das origens humanas. * Divergências conjecturais entre evolucionistas revelam ausência de consenso. * O sucesso da teoria de Darwin relacionou-se à convicção moderna do progresso e da superioridade do homem europeu do século XIX. * A ideia de progresso preparou terreno para a hipótese do ancestral infra-humano. * Minorias científicas contestaram a base empírica da teoria. * Crescente número de estudiosos passou a reexaminar criticamente o evolucionismo. * O conhecimento científico do passado pré-histórico pouco alteraria a visão tradicional dos antigos quanto aos aspectos materiais da vida humana primitiva. * Antigos concebiam os primeiros homens vivendo em simplicidade natural. * A diferença principal reside na interpretação valorativa dos mesmos fatos. * A mudança moderna atinge sobretudo o sentido dos valores. * A vida em cavernas e florestas não implicava juízo depreciativo nas tradições antigas, como ilustrado por Shakespeare e pelo ideal eremítico medieval e oriental. * O Duque na floresta de Arden celebra o mundo natural. * A presença contínua de eremitas venerados no Ocidente atesta esse valor. * Entre Hindus, a retirada final à natureza permanece ideal espiritual. * A agricultura, após certo desenvolvimento, pode ser vista como etapa decisiva na degenerescência humana, simbolizada por Caim no relato da Gênese. * Caim representa a fixação territorial e fundação de cidades. * A vida pastoral associa-se à inocência. * Tacite relata a aversão germânica às casas. * Povos nômades, como certos Índios, preservam ideal de liberdade não fixada. * A recusa da fixação e da escrita entre povos como os Índios da América do Norte e os Druides revela fundamento espiritual positivo. * A escrita pode “fixar” e “cristalizar” o fluxo espiritual. * César menciona a relutância druídica em escrever doutrinas sagradas. * A tradição oral demonstra capacidade extraordinária de preservação. * A literatura oral, segundo A.K. Coomaraswamy, precede e frequentemente independe da escrita, e a alfabetização pode precipitar sua decadência. * Grandes textos como Bíblia, Vedas e Eddas existiram oralmente. * A alfabetização pode destruir rapidamente tradições orais. * Observações sobre gaélico e Novas Hébridas confirmam precisão e beleza da oralidade. * Árabes pré-islâmicos valorizavam pureza linguística beduína. * A civilização e a escrita tendem a enfraquecer a vigilância linguística e a vitalidade da língua falada. * A duplicidade entre língua escrita e oral favorece degenerescência. * A nova tradução inglesa da Bíblia testemunha empobrecimento. * A fala exerce influência direta sobre a alma. * A escrita possui utilidade, especialmente na preservação de heranças espirituais, mas não confere superioridade intrínseca. * Arquivos escritos preservaram herança judaica. * Artes caligráficas sugerem inspiração sagrada da escrita. * A imprensa, mais que a escrita, multiplicou livros inúteis. * A escrita tornou-se necessária após certo grau de degeneração. * A tradição judaica e islâmica ensina que Adam recebeu linguagem verdadeira por Revelação Divina, ideia não refutada pela filologia. * Cada língua conhecida deriva de forma mais antiga e mais potente. * Línguas antigas exibem maior complexidade e sutileza. * O tempo simplifica formas, sons e sintaxe. * A vitalidade orgânica das línguas antigas manifesta-se na capacidade interna de formação de palavras, ao passo que línguas modernas dependem de criações artificiais. * Línguas antigas podem ser consideradas vivas mesmo quando não faladas. * Modernas podem ser chamadas “mortas” sob certo aspecto estrutural. * A distinção entre complexidade ordenada e complicação desordenada aplica-se tanto à alma humana quanto às línguas sintéticas antigas. * Simplicidade verdadeira implica integração interior. * Línguas sintéticas modulam partes do discurso como elementos da alma. * A unidade concentrada da frase reflete unidade espiritual. * A língua árabe constitui exemplo notável de conservação linguística devido à centralidade do Alcorão e à memorização rigorosa. * Árabes pré-islâmicos eram majoritariamente iletrados. * O Alcorão fixou modelo linguístico arcaico. * Ciência da recitação preservou pronúncia exata. * Dialetos convivem com retorno frequente ao árabe clássico. * Situação análoga verifica-se no sânscrito. * Antigos possuíam órgãos auditivos e articulatórios mais delicados. * A filologia revela tendência histórica descendente paralela à tendência cosmológica reconhecida por cientistas como Dewar, convergindo parcialmente com a visão religiosa. * Física, química e astronomia reconhecem necessidade de “remontar” o universo. * Religião afirma possibilidade de resistência individual à tendência descendente. * Alguns podem nadar contra a corrente. * Uma elite pode remontar à fonte já nesta vida.