====== RITMO DO TEMPO ====== * A crença dos antigos na perfeição humana primordial como um ápice súbito e divino, seguido de uma queda inevitável, fundamentava-se na observação de que essa intervenção divina inicial se repetia em eventos menores ao longo da história. * O Antigo Testamento é interpretado como o registro de uma tendência descendente contínua nos ancestrais, marcada por períodos como o intervalo entre a Queda e o Dilúvio e entre o Dilúvio e a Torre de Babel. * Essa tendência de declínio sofre interrupções ocasionais por restabelecimentos divinos de uma perfeição relativa, mas a inclinação fatal se reafirma tão logo cessa o influxo divino, assemelhando-se a uma lei da gravidade. * A posse de uma visão histórica mais completa deveria facilitar a compreensão do ritmo histórico, pois a totalidade da história confirma o padrão do Antigo Testamento, com eventos capitais dos últimos três milênios, como as missões de Buda, Cristo e Maomé, constituindo intervenções súbitas que se opõem à tendência geral dos eventos. * Essas intervenções divinas atingem um pequeno núcleo de pessoas, elevando-as a um pico espiritual para servir de ideal e luz condutora para as gerações futuras. * A análise desses eventos históricos conhecidos permite inferir que a primeira espiritualidade e a primeira humanidade também surgiram no mundo como algo da natureza de um súbito e pacífico golpe de trovão. * O ritmo de uma súbita elevação seguida de uma queda gradual pode ser descrito em termos de estações, onde o início do declínio depende de fatores diversos, incluindo a posição de ciclos menores dentro de ciclos maiores, sendo necessário examinar a história em profundidade para perceber que, embora a espiritualidade esteja além do tempo, seus efeitos indiretos seguem o ritmo temporal de crescimento e decréscimo. * Segundo interpretações dos Puranas hindus, a duração do grande ciclo da humanidade, a Idade de Ouro, varia entre vinte e cinco mil e mais de um milhão e meio de anos, afetando a duração dos ciclos menores das diferentes religiões. * Um grande santo pode realizar um reerguimento súbito dentro do outono de um ciclo maior, comparável em menor grau ao fundador da religião, demonstrando que a inspiração faz as atividades humanas conformarem-se mais ao ritmo superior. * Exemplos como a expansão do Budismo, Cristianismo e Islamismo e a persistência do estilo decadente greco-romano na Cristandade por séculos antes do surgimento de um estilo autenticamente cristão ilustram a complexidade do ritmo, onde a substituição, embora preparada, foi muitas vezes mais ou menos súbita. * A arquitetura sacra dos judeus, com a construção súbita do Templo por Salomão segundo planos revelados a David, exemplifica como o zênite artístico pode ser alcançado por revelação direta ou inspiração, de forma similar ao que se observa no primeiro artefato artístico conhecido. * A construção do Templo exigiu o concurso de construtores estrangeiros, evidenciando o caráter excepcional e súbito daquele ápice. * O primeiro artefato artístico conhecido apresenta um grau de maturidade tão elevado que embaraça os que defendem uma evolução gradual, corroborando a tese da aparição súbita de obras de arte com estilo evoluído. * A existência de dois ritmos históricos, o superficial de crescimento e decréscimo graduais e o da súbita elevação seguida de declínio progressivo, era reconhecida pelos antepassados, como demonstram as atitudes dos cristãos em relação aos primeiros Padres e Apóstolos. * Os cristãos sempre dispensaram um respeito particular aos primeiros Padres e, acima de tudo, aos Apóstolos, reconhecendo seu lugar especial na história. * A palavra do profeta Maomé, que considera as melhores gerações como as primeiras, seguidas pelas imediatamente posteriores, reflete a mesma consciência de um declínio gradual a partir de um ápice inicial. * A concepção de um declínio progressivo a partir de um ideal não é exceção, mas sim a regra nas civilizações pré-modernas, onde um sentimento geral de imperfeição e de queda distanciava os homens de um ideal preservado por uma cadeia ininterrupta de santos. * Os bantustas dividem o período pós-morte de Buda em três fases decrescentes de compreensão: a do "verdadeiro Budismo", a do "Budismo copiado" e a atual era de "degenerescência". * O ideal de perfeição, cuja maior floração ocorreu entre os primeiros representantes de cada religião, aponta para um pico ainda mais alto e primordial, o da perfeição do Homem Primordial, situado para além dos pântanos da decadência intermediária. * A tradição judaica e o pensamento do sábio taoista Chuang Tzu, apesar das diferenças de expressão, convergem para a mesma verdade sobre a perfeição primordial e seu declínio, representada pela superioridade do conhecimento unitivo de Adão e pela perda gradual da "Grande Via" pelos antigos. * Adão, antes da aquisição da "ciência do bem e do mal", superava os anjos em seu conhecimento de Deus. * Chuang Tzu descreve a perfeição da "Grande Via" no conhecimento dos antigos, que não distinguiam coisas, e sua progressiva destruição com o advento dos julgamentos e distinções. * A antiga canção lituana, através da alegoria do casamento da Lua com o Sol e posterior cisão da Lua, expressa a doutrina universal da dupla natureza do Homem Primordial e a separação subsequente entre o intelecto divino e o mental humano. * O Sol, símbolo universal do Espírito e da luz solar, representa o conhecimento direto das verdades espirituais, enquanto a Lua simboliza o mental humano e seu conhecimento indireto e reflexo. * O "casamento da Lua com o Sol" representa o Homem Primordial com suas naturezas humana e divina unidas, onde a alma reflete as Qualidades Divinas. * O "corte da Lua em dois" por Deus, devido ao seu "desgarramento" e paixão pela Estrela da Manhã, significa a separação entre o Coração (Intelecto) e o mental (razão), resultando na perda do conhecimento unitivo e na sujeição ao dualismo da ciência do bem e do mal. * A criação implica uma separação de Deus que instaura uma tendência extrovertente e separativa em todas as criaturas, mas apenas no homem essa tendência não é inicialmente compensada, e a independência do mental, simbolizada pelo desgarramento da Lua, possibilitou o surgimento de impulsos e ações puramente profanos. * A privação de liberdade nas criaturas não humanas limita sua capacidade de refletir o Livre Arbítrio divino e, consequentemente, sua capacidade de degenerar. * No "primeiro primavera", a tendência extrovertente da criação era perfeitamente compensada no homem pelo magnetismo interiorizante de sua natureza superior, cujo ponto de junção é o Coração, trono do Intelecto. * Narrativas como o desgarramento da Lua, a abertura da caixa de Pandora e o ato de Eva ao comer o fruto proibido ilustram o mesmo princípio: a busca por uma luz menor em detrimento da grande luz, esquecendo-se de atribuir as qualidades das coisas ao Criador. * O estado edênico, por estar acima do tempo e não comportar religião, distingue-se da Era de Ouro, que se inicia após a Queda e constitui a era da religião por excelência, onde os homens cumpriam perfeitamente seus deveres religiosos. * O Hinduísmo denomina essa era de Krita Yuga, associando-a a uma duração de vida humana de mil anos, dado corroborado pelo Judaísmo. * O Judaísmo e outras religiões mais recentes não enfatizam a excelência da Era de Ouro por ela já conter os germes da ruína que culminariam na Idade de Ferro. * A Era de Ouro, nas primeiras religiões, representa o supremo ideal possível em condições terrestres após a Queda, e a figura de Adão após a Queda, nos comentários judaicos, personifica essa era como um grande visionário e profeta, cuja era foi marcada pela incorruptibilidade e pela imagem divina nos homens. * Adão é exaltado como o único homem que cometeu um único pecado e como o grande vidente que inaugurou a religião na terra, sendo sepultado por Arcanjos. * Na época de Adão e Seth, os corpos não apodreciam e os homens nasciam à "imagem de Deus", ao contrário do período posterior, marcado pela esterilidade das montanhas. * A visão hindu do ciclo dos quatro yugas inclui oito reerguimentos súbitos por intermédio de Avatares, que também inauguram e encerram o ciclo, totalizando dez descidas divinas, sendo o nono Buda e o décimo, Kalki, ainda por vir para inaugurar uma nova Era de Ouro. * Buda, o nono Avatara, é denominado Mleccha Avatara (a Descida Estrangeira) por sua missão situar-se fora das fronteiras do Hinduísmo. * A representação de Kalki, o décimo Avatara, montado num cavalo branco e com a espada na mão, evoca descrições do Apocalipse, indicando sua função de pôr fim à Idade Sombria e iniciar um novo ciclo. * A expectativa comum a todas as religiões por um evento escatológico futuro não se confunde com a crença moderna no progresso, pois, ao contrário desta, a visão tradicional sustenta que a segunda vinda do Cristo será precedida, não por um mundo aperfeiçoado, mas por sinais de extrema degradação e tribulação coletiva. * A primeira vinda de Cristo é entendida como um puro efeito da Graça, não como uma conquista do progresso humano. * Os sinais da iminência da segunda vinda, segundo os ensinamentos tradicionais, incluem guerras, fomes, terremotos, discórdias familiares e o reinado do Anticristo, culminando na "grande tribulação". * A descrição desses eventos indica que a humanidade, em seu conjunto, caminha para um declínio gradual, interrompido por reerguimentos, até o advento do verdadeiro Cristo, súbito como um relâmpago. * A questão sobre se as descobertas modernas teriam alterado a crença dos antigos na excelência de seus antepassados já foi respondida implicitamente, e a indagação sobre o que eles esperariam do futuro também encontra resposta na confirmação de suas sombrias previsões pelo mundo moderno, tema a ser mais explorado nos capítulos seguintes.