====== PORQUE "COM TODA MINHA MENTE?" ====== * Um dos critérios de ortodoxia em uma religião é a provisão de meios adequados para o cumprimento integral do mandamento de amar a Deus com todo o coração, alma, mente e força. * O mandamento de amar a Deus com todo o coração, alma, mente e força é apresentado como um critério para avaliar a ortodoxia de uma religião. * O coração é identificado como o órgão central da fé, cujas possibilidades superiores incluem a certeza, a intelecção e a gnose, funcionando como um centro de atração e radiação para a alma e o que está além. * Amar com todo o coração significa amor total, e a menção separada à mente e à alma no mandamento deve-se à perda do domínio do centro sobre elas após a Queda, fazendo com que seu amor a Deus atue como causa aparente no despertar do amor do coração, num processo de interação entre a iniciativa humana e a Graça Divina, que requer repetição contínua. * A perda do contato direto com o coração resultou em uma desintegração das faculdades inferiores, cujo ápice na era moderna é uma independência mental sem precedentes, caracterizada por uma atividade febril e uma superficialidade apressada nos julgamentos, fruto da falta de ancoragem em um centro. * O centro do coração, perdido, deixou de exercer a atração interior que contrabalançava as tendências centrífugas das faculdades inferiores. * A desintegração resultante, embora freada por intervenções Divinas, aproxima-se de seu extremo no fim do ciclo temporal. * A independência mental moderna, com sua agitação e superficialidade, é uma característica marcante dessa desintegração geral. * A independência mental contemporânea torna oportuna a discussão sobre o fenômeno da compreensão intelectual de verdades metafísicas sem o assentimento da alma ou do coração, cujo remédio é a reintegração das faculdades, precedida pela remoção de obstáculos no nível mais exterior, onde explicações mais completas podem transformar a atratividade de certas afirmações religiosas, como exemplificado pelas diferentes abordagens sobre a designação da Realidade Suprema através dos pronomes pessoais. * A obra de Frithjof Schuon é mencionada por abordar o fenômeno da compreensão mental de verdades metafísicas sem a crença da alma. * O único remédio para essa cisão é a reintegração das faculdades, para que a alma possa responder à luz da doutrina dirigida à mente. * No nível preliminar de remoção de obstáculos, explicações mais completas podem transformar a falta de atratividade de certas afirmações religiosas para a mente. * O exemplo do objetivo supremo da religião, às vezes chamado de Deificação ou Identidade Suprema, ilustra a necessidade de formulações que evitem o perigo de deificar o ego, como a preferência pelo pronome "Ele" no Sufismo. * O Xeque al-'Alawi é citado por apontar a limitação do pronome "Ele" por sua falta de inclusividade, enquanto Abū Saʿīd al-Kharrāz oferece uma solução ao conhecer Deus através de Sua União dos Opostos, como "O Primeiro e o Último, o Manifesto e o Oculto". * A consideração de "O Manifesto e o Oculto" como Objetividade e Subjetividade revela a união inseparável de "Ele" (Objetividade) e "Eu" (Subjetividade) no plano da Realidade Suprema, com "Tu" como o Arquétipo que permite a comunhão entre eles, um aspecto da Auto-Suficiência Divina (al-Ṣamad). * Para apaziguar e assegurar as faculdades mentais, a religião, em seus aspectos exteriores, vê-se obrigada a sacrificar certas meias-verdades que outrora serviram como motivos poderosos para amar a Deus com toda a alma e com toda a força, como a alegação de eficácia única de uma religião, que no passado era funcional devido ao isolamento das civilizações tradicionais, mas que na era moderna, com o rompimento dessas muralhas, torna-se uma fonte de turbulência mental. * As autoridades religiosas nem sempre defenderam os direitos da inteligência, precisando sacrificar meias-verdades para apaziguar a mente. * A alegação de uma religião à sua eficácia única é uma meia-verdade funcional no passado, pois cada civilização tradicional vivia em isolamento das demais, e noções de religiões defuntas ou pseudorreligiões não comprometiam mentalmente os fiéis. * Na era presente, com o rompimento das muralhas de isolamento, as mentes são inevitavelmente perturbadas por pensamentos que não as assediavam antes, tornando difícil dedicar a mente à adoração a Deus quando as alegações religiosas parecem contradizer a natureza de Deus ensinada pela própria religião. * A persistência do exclusivismo religioso na era moderna, em contraste com o passado quando era compatível com a serenidade mental devido à interioridade gerada pelas muralhas isoladoras, conduz a um dilema mental que só pode ser resolvido por uma perspectiva espiritual mais universal, que se move "contra a corrente" em direção ao Espírito, ao passo que o agnosticismo representa a descida fácil a partir de dúvidas baseadas no racionalismo. * Embora a situação global de contato entre religiões seja nova, a existência passada de minorias em fronteiras não impedia a maioria, incluindo intelectuais, de viver em paz com o exclusivismo, graças à interioridade gerada pelas muralhas isoladoras de uma civilização teocrática. * A destruição dessas muralhas exige que os representantes da religião utilizem argumentos de ordem superior, intelectual em vez de sentimental, aproveitando o positivo da experiência acumulada. * A tentativa de manter a perspectiva religiosa exclusiva dos ancestrais no mundo moderno leva a um dilema mental inevitável. * Um exemplo de dilema mental é a explicação puramente psicológica de um rabino sobre as alegações messiânicas de Jesus, que, ao tentar demolir o cristianismo, acaba por atingir o coração do judaísmo, ao sugerir um Deus que permitiria um engano tão colossal e duradouro, minando a base para o amor a Deus com toda a mente. * O rabino explica as alegações messiânicas de Jesus como resultado de um anseio coletivo da época, apreciando suas qualidades humanas e desculpando suas pretensões. * Esse tipo de argumento psicológico abre caminho para que o mesmo raciocínio seja usado para demolir o judaísmo. * A análise ignora os dois milênios de história e o impacto do cristianismo em continentes, levantando a questão sobre o Deus que permitiria tamanho engano. * Um Deus que permitisse tal engano em escala colossal não seria digno de adoração, mesmo para o povo escolhido que dele foi protegido. * Nessa base, a crença só pode ser mantida pela recusa em seguir linhas de pensamento que exigem ser seguidas, o que não é amar a Deus com toda a mente e resulta numa fé precária e incapaz de fortificar outros contra o agnosticismo. * Uma solução para o dilema do judeu, que não seja a escolha entre judaísmo e cristianismo, é reservar o julgamento sobre Jesus ou aceitar sua primeira vinda como antegozo do advento messiânico final, permanecendo fiel às certezas da Torá e dos Salmos, o que representa um movimento em direção à perspectiva da religião perene. * O rabino erroneamente se vê diante de uma escolha exclusiva entre judaísmo e cristianismo. * Uma solução alternativa, encontrada individualmente por alguns judeus ortodoxos, é reservar julgamento sobre Jesus ou aceitar sua vinda como antegozo do advento final, permanecendo fiel à religião de Moisés. * O fato de a missão messiânica não ter sido totalmente cumprida justifica a fidelidade ao judaísmo. * Para o judeu, é relativamente fácil ir ao encontro da perspectiva da religião perene reservando julgamento sobre outras religiões, confiando-as à Providência. * O cristão, por sentir-se o instrumento escolhido da Providência, enfrenta um dilema mais agudo ao contactar com o Islão, incapaz de persistir em chamar Maomé de falso profeta, mas sem ousar abandonar a alegação de que a Paixão de Jesus é o único meio de redenção, o que leva a perspectivas como a de um autor que vê no chamado do almuadem um dever de restaurar aos muçulmanos o Cristo que eles perderam, ignorando que o Islão é um edifício completo e perfeito. * O cristão que contacta com o Islão fica profundamente impressionado com sua força e plenitude. * Incapaz de persistir em considerar Maomé um falso profeta, mas sem ousar abrir mão da unicidade da redenção pela Paixão, o cristão enfrenta um dilema. * O autor de "The Call of the Minaret" vê o chamado do almuadem como um dever de apresentar aos muçulmanos o Cristo da fé histórica, um problema e um fardo. * A tentativa de introduzir Jesus na estrutura interna do Islão é impossível, pois a Providência não esperou catorze séculos por um missionário para lançar a pedra fundamental. * A exasperação do autor transparece ao chamar o Islão de "supremo deslocador da fé de Cristo", mas sua falta de uma perspectiva transcendente impede o amor a Deus com toda a mente. * Uma saída para o dilema cristão é oferecida pela perspectiva de Santo Justino Mártir, que situa a unicidade de Cristo como Redentor no nível do Logos, tornando o ato da Redenção, por transcender tempo e espaço, não limitável a um evento histórico e operante em outras modalidades além da Paixão, uma posição que um bispo anglicano corrobora ao citá-lo, mas cuja consequência inevitável é o reconhecimento de outras modalidades de redenção, como as encarnações divinas no hinduísmo. * O Bispo de Guildford cita Santo Justino Mártir, para quem Cristo é o Intelecto (logos) do qual toda a raça humana participa, tornando cristãos aqueles que viveram segundo o Intelecto, como Sócrates e Heráclito. * Ao recordar essa posição como legítima, o Bispo concorda implicitamente com seu corolário: o ato da Redenção opera em outras modalidades além da Paixão. * A alegação de que a Misericórdia Divina Infinita se limitaria a um único ato eficaz é metaforicamente inaceitável e factualmente contrariada por escrituras como o Bhagavad Gita, que testemunha outras Encarnações Divinas redentoras, como Krishna e o Buda. * A exortação de Frithjof Schuon à validade de outras religiões, como o hinduísmo e o islão, fundamenta-se na desproporção entre as demandas dogmáticas absolutas do exoterismo e suas garantias dialéticas relativas, que seriam insuficientes para justificar o abandono de tradições milenares produtoras de sabedoria e santidade, contrariando as Leis da Misericórdia Divina que regem a Possibilidade Universal. * Schuon observa que o exoterismo se caracteriza por uma desproporção entre suas demandas absolutas e suas garantias dialéticas relativas, baseadas num ponto de vista humano. * Os argumentos para persuadir um brâmane a abandonar sua tradição milenar são logicamente inconclusivos e desproporcionais à magnitude da demanda. * Se Deus quisesse submeter o mundo a uma única religião, Seus argumentos não seriam tão fracos, e os dos "infiéis" não seriam tão poderosos. * A afirmação sobre o Islão sustenta que Deus não poderia ter permitido que uma religião mera invenção humana conquistasse e mantivesse uma parte da humanidade por mais de mil anos, pois isso trairia a amor, fé e esperança de inúmeras almas sinceras e seria contrário às Leis da Misericórdia Divina e da Possibilidade Universal. * Se Cristo fosse a única manifestação do Verbo, seu efeito teria sido a redução instantânea da terra a cinzas. * O Islão, devido à sua posição de religião final do ciclo, pode permitir-se ser generoso para com outras religiões, como evidenciado pela tolerância obrigatória para com o judaísmo e o cristianismo, mas seu exoterismo também tende a fazer alegações absolutas de exclusividade que, fora das muralhas da civilização islâmica e diante de um conhecimento global, exigem uma interpretação mais universal dos versículos corânicos para que um intelectual possa amar a Deus com toda a mente. * O Islão, como suma das religiões anteriores, tem a função de mencioná-las com justiça, como no Alcorão (XL, 78) e (V, 69), e obrigação de proteger seus locais de culto. * As alegações absolutas dos teólogos muçulmanos são, na prática, relativizadas pela tolerância obrigatória para com judeus e cristãos. * Dentro das muralhas da civilização islâmica, um intelectual pode não ser confrontado com as implicações totais desse exclusivismo, mas fora delas, a situação é diferente. * Um intelectual muçulmano no mundo moderno só encontrará paz de espírito ao reconhecer que as alegações resultantes do Islão ser a mais recente intervenção Divina são relativas, não absolutas, exigindo uma interpretação mais profunda e universal dos versículos em que o exclusivismo se baseia. * O versículo sobre fazer prevalecer a religião da Verdade sobre toda a religião (Alcorão IX, 33) admite uma interpretação mais restrita, referindo-se a uma região do mundo, e uma interpretação mais ampla, na qual "religião da Verdade" e "Islão" são tomados em sentido universal, incluindo todas as religiões verdadeiras, cuja prevalência sobre toda a religião é um fato, enquanto a forma particular do Islão só prevaleceu em uma parte limitada do mundo por desígnio da Providência. * A interpretação mais imediata do versículo (IX, 33) restringe seu alcance à região do mundo do profeta Maomé e aos idólatras árabes. * Diante do conhecimento global moderno, um muçulmano inteligente perceberá que a mensagem corânica não prevaleceu sobre toda religião, e que a Providência é responsável por essa "falta". * Para evitar que essa constatação abale sua fé, é necessário compreender o sentido mais amplo do versículo. * Se "toda religião" for interpretado em sentido absoluto, "religião da Verdade" deve receber sua aplicação mais ampla, incluindo todas as religiões verdadeiras enviadas anteriormente. * O termo "Islão" pode ser tomado em seu sentido universal de "submissão a Deus", aplicando-se às religiões de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus, e neste sentido, o Islão universal foi feito para prevalecer sobre toda religião. * No sentido estrito, a forma corânica do Islão só prevaleceu sobre toda religião em uma parte limitada do mundo, pois a Providência permitiu que outras modalidades da religião da Verdade permanecessem como barreiras à mensagem corânica em mais da metade do globo. * A afirmação de que Maomé foi enviado para toda a humanidade (Alcorão XXXIV, 28) deve ser entendida no sentido de que o Islão é uma religião mundial, acessível a todos em princípio, mas não como uma negação de que outras religiões, como o budismo e o cristianismo, também o sejam, pois a vontade de Deus, conhecida por Seus resultados, mostra setores geográficos onde cada uma dessas religiões foi favorecida, formando barreiras intransponíveis umas às outras. * O versículo (XXXIV, 28) informa que o Islão, diferentemente do judaísmo ou hinduísmo, é uma religião mundial, aberta a todos em princípio. * Não nega que o budismo e o cristianismo também sejam religiões mundiais. * A vontade de Deus é conhecida por Seus resultados: há setores onde a Providência favoreceu o budismo, outros onde favoreceu o cristianismo e um terceiro onde favoreceu o Islão. * A existência desses setores com barreiras impenetráveis à expansão do Islão (e das outras religiões) demonstra que a vontade de Deus não era que o Islão em sentido estrito se espalhasse por todo o mundo. * O exemplo da conversão da Inglaterra ao cristianismo na mesma época da revelação do Alcorão ilustra como a Providência estabeleceu ali uma resistência firme à mensagem corânica. * O versículo final do Alcorão (V, 48) constitui uma mensagem duradoura para toda a humanidade, ao afirmar que Deus estabeleceu para cada comunidade uma lei e um caminho diferentes, testando-os no que lhes foi dado, e conclamando-os a competir nas boas obras, com o retorno final a Deus, que os informará sobre aquilo em que divergiam. * O versículo (V, 48) é considerado por muitos como uma das últimas revelações, marcando um momento cíclico de extrema significância. * Ele se dirige aos adeptos de todas as diferentes ortodoxias na terra. * A mensagem é particularmente relevante para a era moderna e para a situação mental do homem nestes últimos dias. * Deus poderia ter feito de todos um só povo, mas não o fez para testá-los no que lhes foi dado, ordenando que competissem nas boas obras, pois a Ele todos retornarão e Ele os informará sobre suas diferenças.