====== SELO DE SALOMÃO ====== * A declaração corânica de que Deus está prestes a estabelecer na terra um vice-regente introduz a ideia do homem como representante divino no mundo. * Referência explícita ao Qur’ān II: 30. * Vice-regência vinculada ao estatuto singular do homem na ordem terrena. * Nem tudo o que reflete realidades superiores pode ser chamado de símbolo verdadeiro, pois só as reflexões mais diretas merecem esse nome, sendo elas de dois tipos conforme a origem de seus protótipos. * Protótipos presentes no mundo desde o início sem intervenção do homem caído. * Protótipos revelados diretamente em momento posterior. * Simbolismo verdadeiro definido por grau de imediatidade da reflexão. * O símbolo verdadeiro é figurado no triângulo inferior do Selo de Salomão como reflexão direta e ao mesmo tempo invertida do triângulo superior, e essa inversão manifesta-se na relação entre este mundo e o outro e no fato de o homem, vice-regente de Deus, surgir por último na ordem da criação. * Triângulo superior ligado ao Criador de quem tudo emana. * Triângulo inferior ligado ao homem como resultado final para o qual a criação tende. * Inversão indicada como marca estrutural do mundo em relação ao próximo. * Lei geral de inversão relacionada ao simbolismo dos pares. * Nos pares complementares, os termos podem estar em níveis distintos e, quando um termo é inferior ao outro, o termo feminino simboliza o masculino, de modo que símbolo e simbolizado formam sempre um par em que o símbolo é o termo feminino caracterizado por passividade e negatividade diante da atividade e positividade. * Exemplo dos dois mares como Espírito e alma ou Céu e terra. * Alma como reflexão do Espírito e terra como reflexão do Céu. * Simbolizado como termo masculino e símbolo como termo feminino. * Passividade e negatividade como constitutivos da inversão simbólica. * A inversão pode ser entendida como lei de harmonia do universo por produzir equilíbrio complementar entre mundo superior e mundo inferior, e também como lei de base do universo por existir este apenas como reflexão negativa diante do Positivo absoluto, chegando sua prevalência a explicar a inversão do reflexo na água no nível mais baixo. * Harmonia fundada em balanço e acordo mútuo entre níveis. * Universo existente como reflexão inteiramente negativa perante o Positivo absoluto. * Hierarquia de existência marcada universalmente pela inversão. * Reflexo invertido na água como efeito extremo dessa lei. * O exemplo terreno mais elevado do símbolo verdadeiro é o homem verdadeiro, mas antes de abordar sua natureza pelo triângulo inferior do Selo de Salomão é necessário explicitar outro aspecto da inversão considerando o Selo em seu sentido mais alto como símbolo da Majestade e da Beleza divinas. * Homem verdadeiro identificado como ápice do simbolismo terreno. * Selo de Salomão retomado como símbolo de Majestade e Beleza. * Preparação conceitual para interpretação do triângulo inferior. * Entre as Qualidades de Majestade representadas pelo triângulo superior estão as ligadas ao poder irresistível da Verdade e à Unidade enquanto atividade que extingue tudo o que não é Ela, conforme o Qur’ān XL: 16 ao identificar o Rei como Deus, o Um, o Irresistível. * Majestade associada ao poder avassalador da Verdade. * Unidade considerada em seu aspecto ativo. * Extinção de tudo o mais como efeito da Majestade. * Referência ao Qur’ān XL: 16. * A esplendorosa Majestade torna impossível que algo se mantenha ao lado de Deus e funda sua realeza, sendo o triângulo superior e a vertical da Cruz figuras de fogo cuja capacidade de queimar depende da Unicidade consumidora simbolizada pela contração rumo ao ápice. * Incomparabilidade como razão da realeza divina. * Triângulo superior como língua de chama. * Vertical da Cruz associada à exaltação da Majestade. * Fogo como manifestação da Unicidade que consome tudo. * No triângulo inferior predomina a expansão rumo à base horizontal que manifesta a amplitude da Beleza divina, cujo aspecto de Riqueza aparece como Generosidade no Nome Senhor da Majestade e da Generosidade, de modo que à Unicidade da Majestade corresponde a pluralidade e variedade das Qualidades da Beleza, refletindo-se isso em todos os pares e exigindo que o símbolo, além de passivo e negativo, possua pluralidade e amplitude. * Horizontal associado à Amplitude da Beleza. * Riqueza identificada como Generosidade. * Majestade ligada à Unicidade e Beleza ligada à variedade. * Símbolo como termo feminino também portador de multiplicidade e expansão. * Multiplicidade diante da unidade como forma de inversão. * A inversão como multiplicidade diante da unidade é ilustrada pelo dito sufi do espelho e do pavão, em que a luz concentrada simboliza o segredo da Unicidade da Majestade e o pavão simboliza o desdobramento pleno das riquezas e variedade da Beleza divina. * Dito sufi: luz diante do espelho refletida como pavão de cauda aberta. * Brancura concentrada como figura da Unicidade da Majestade. * Pavão como figura do pleno desdobramento da Beleza. * Complementaridade entre concentração sintética e expansão analítica. * O símbolo verdadeiro, imitando a Beleza divina, desdobra separadamente aspectos contidos na unidade sintética do simbolizado, e isso se exemplifica no homem verdadeiro cuja alma, diante da luz do Intelecto, amplia-se para refletir realidades ocultas no Olho do Coração, aparecendo como virtudes que simbolizam Nomes e Qualidades divinas, e também no mundo exterior cuja variedade evidencia o homem como microcosmo correspondente ao macrocosmo. * Intelecto como luz diante da qual a alma se amplia. * Olho do Coração como síntese das realidades. * Virtudes como ornamentos da alma verdadeira. * Virtudes comparadas aos olhos na cauda do pavão. * Criaturas como qualidades na alma, cada uma simbolizando uma Qualidade divina. * Alma humana simbolizando a Essência que contém todas as Qualidades. * O Qur’ān e o Antigo Testamento testemunham a vice-regência do homem por ele refletir a Verdade total de modo mais amplo que as demais criaturas, que apenas em sentido limitado podem ser vistas como pequenos mundos simbolizando o todo. * Qur’ān reafirma o homem como vice-regente de Deus na terra. * Antigo Testamento: Deus criou o homem à Sua imagem. * Outras criaturas simbolizam o todo de modo mais restrito e separado. * Singularidade do homem vinculada à amplitude microcósmica. * As demais características do símbolo verdadeiro, além da pluralidade expansiva, são especialmente marcadas no homem verdadeiro por ele possuir conhecimento direto das realidades superiores, o que torna sua alma extremamente plástica e passiva na busca de refletir plenamente essas realidades, e essa perfeição feminina é figurada pela base voltada para cima do triângulo inferior. * Conhecimento direto das realidades superiores como exclusividade humana. * Plasticidade e passividade como disposição de recepção. * Reflexo pleno e puro como objetivo da alma. * Base voltada para cima como figura dessa passividade e amplitude. * O Selo de Salomão figura não apenas a passividade do símbolo diante da atividade do simbolizado, mas também os dois aspectos internos do símbolo em correspondência com os dois aspectos da realidade superior, de modo que o ápice do triângulo superior representa a Unicidade da Majestade e sua base a Amplitude da Beleza, enquanto no triângulo inferior a base representa a amplitude passiva da alma e o ápice voltado para baixo representa a atividade majestosa do homem voltada ao seu reino, a terra, compondo uma imagem da natureza humana perfeita. * Triângulo superior tomado como figura da Divindade. * Ápice superior como Unicidade da Majestade e base superior como Amplitude da Beleza. * Base inferior como amplitude passiva voltada ao Céu. * Ápice inferior como atividade régia voltada à terra. * Triângulo inferior como imagem do homem perfeito. * A perfeição ativa do homem verdadeiro como rei da terra deriva de sua perfeição passiva, pois a amplitude da alma reflete possibilidades de ação e inspira o ato único adequado às circunstâncias, ao passo que o homem caído, sem refletir arquétipos transcendentes, depende do passado e produz ações uniformes marcadas pelo hábito, enquanto o homem verdadeiro opera pela memória vertical do dhikr e gera ações como novas criações sem traços do passado, de modo que a Unicidade da Majestade projeta sua sombra na unicidade do ato humano segundo a lei da inversão. * Inspiração como escolha do ato perfeitamente ajustado. * Alma do homem caído sem reflexão direta de arquétipos. * Dependência de experiência passada e uniformidade de hábitos. * Pouca necessidade de memória horizontal no homem verdadeiro. * dhikr como memória vertical ligada à fonte espiritual. * Ação como nova criação feita para circunstâncias particulares. * Inversão: arquétipo como causa de passividade e contenção de possibilidades, ação humana como resultado de passividade e contida entre possibilidades. * Tomando o triângulo superior como Divindade no aspecto de Providência, seu ápice representa o Livre Querer divino expresso no Nome al-qādir e sua base representa o aspecto passivo da Providência como a Mãe do Livro, o Livro Eterno no qual tudo está escrito e que pode ser chamado Livro do Destino, diante do qual o homem verdadeiro é passivo segundo o islām em sentido supremo como aceitação perfeita do Destino própria da santidade, enquanto o ápice inferior representa sua liberdade relativa de ação que, por inversão, resulta dessa passividade. * Providência interpretada como estrutura de vontade e destino. * al-qādir como expressão do Livre Querer divino. * ummu ’l-kitab como Livro Eterno e matriz do destino. * islām como submissão plenamente realizada e não apenas legal. * Aceitação perfeita do Destino como marca de santidade. * Liberdade relativa como fruto da passividade diante do Destino. * A extrema passividade do homem verdadeiro diante do Céu torna-o mais livre que outras criaturas, e como essa passividade brota do conhecimento espiritual e da visão das Qualidades divinas, as palavras de Jesus sobre a liberdade pela conhecimento ganham interpretação ligada à percepção da Beleza transcendente da Necessidade divina e à gratidão por tudo ser como deve ser, inclusive o próprio destino, culminando no louvor a Deus, Senhor dos mundos. * Conhecimento espiritual como fonte de passividade e liberdade. * Visão das Qualidades divinas como fundamento da aceitação. * Jesus citado: obter conhecimento para ser livre. * Necessidade divina percebida como Beleza transcendente. * Harmonia do universo como sombra dessa Necessidade. * Ação de graças e louvor a Deus como expressão de liberdade relativa. * A liberdade relativa do homem verdadeiro, como desejo pleno de fazer o que deve ser feito, conduz sua atividade à máxima eficácia e é simbolizada tanto pelo triângulo inferior do Selo de Salomão quanto pelo elemento água, cujo fluxo penetrante preenche cada fissura como o homem preenche cada momento mantendo o olhar voltado ao Céu, sendo essa simbologia confirmada no Tao-Te-Ching ao comparar o bem supremo à água e ao afirmar sua força vencedora na suavidade, pois a água reflete no mundo material a virtude do islām cuja extrema passividade é a forma mais penetrantemente ativa no plano terreno. * Água como figura do triângulo invertido. * Fluxo que preenche a rocha como imagem de eficácia. * Superfície calma voltada ao céu como imagem de serenidade. * Tao-Te-Ching mencionado como escritura chinesa venerada. * “The highest good is like water” e a superioridade do fraco e maleável. * Islã como virtude cuja passividade extrema produz ação penetrante.