====== SIMBOLISMO DOS PARES ====== * O versículo corânico que glorifica Aquele que criou todos os pares, no que a terra produz, nos próprios seres e no que ainda é desconhecido, coloca a dualidade como característica universal da criação. * Referência explícita ao Qur’ān XXXVI: 36. * Pares abrangendo natureza, humanidade e realidades desconhecidas. * A criação é manifestação, pelo Criador, de atributos antes não manifestos segundo o dito do Tesouro Oculto que amou ser conhecido, e a prioridade da Unidade divina não exige longa exposição porque se reflete na unidade interna de cada coisa e na unicidade impressa em cada manifestação, de modo que toda dualidade já implica complementaridade como condição e antecipação de união. * Criação vinculada ao “Tesouro Oculto” e ao amor de ser conhecido. * Unidade refletida na coesão interna de cada ente. * Unicidade como marca do aspecto exclusivo de Unidade e Unicidade. * Impossibilidade de identidade absoluta entre duas coisas, mesmo muito semelhantes. * Complementaridade inerente à noção de par e orientada para união. * A polaridade aludida no versículo inicial tem raiz no Nome divino Possuidor de Majestade e Generosidade, que oculta na Unidade do Criador uma polaridade de complementares e fundamenta a distinção islâmica entre Nomes Majestosos e Nomes Belos, paralela às noções taoistas de Perfeição Passiva e Perfeição Ativa e aos termos hindus Purusha e Prakriti, dos quais procede a manifestação como nascimento no seio de Prakriti sob influência de Purusha, tendo a água como símbolo maior de Prakriti. * Nome divino: Dhū l-Jalāli wa l-Ikrām. * Doutrina islâmica: Nomes Majestosos e Nomes Belos. * Taoismo: Perfeição Passiva (K’un) e Perfeição Ativa (Ch’ien). * Hinduísmo: Purusha e Prakriti como par arquetípico. * Manifestação como “nascimento” a partir de Prakriti sob Purusha. * Água como símbolo principal de Prakriti. * A mesma polaridade simbólica aparece em nível inferior no Gênesis quando o Espírito de Deus paira sobre as águas e a divisão das águas produz o par Céu e terra e seu análogo pessoal Espírito e alma, e a figura universal dessa polaridade vertical é o Selo de Salomão, que exprime relações como Criador-criação e Deus-homem por analogia direta e inversa, simboliza a interpenetração dos polos e serve também à expressão das duas naturezas de Cristo, além de figurar atividade e passividade como masculino e feminino pela contração dinâmica de um triângulo e a expansão estática do outro, representando a união das Perfeições Ativa e Passiva e do Nome Possuidor de Majestade e Generosidade. * Referência ao Gênesis 1:2. * Par Céu-terra e par Espírito-alma. * Selo de Salomão como figura de polaridade “vertical”. * Uso frequente para Criador-criação e Deus-homem. * Beleza simétrica ligada à potência simbólica. * Analogia direta: homem feito à imagem de Deus. * Analogia inversa: o primeiro refletido na terra pelo último na ordem da criação. * Comparação com montanha refletida invertida no fundo de um poço. * Interpenetração misteriosa entre polos superior e inferior. * Duas naturezas de Cristo: divina e humana. * Atividade e passividade figuradas como masculino e feminino. * União das Perfeições Ativa e Passiva e do Nome divino correlato. * Entre os pares criados, destacam-se as polarizações das diferentes pessoas do Espírito, cada uma com aspecto masculino e feminino, e segundo o hinduísmo Buddhi como Espírito e Intelecto é ápice e síntese da manifestação enquanto descendência manifestada de Purusha e Prakriti, correspondendo ao Logos criado e desdobrando-se em Brahmā, Vishnu e Shiva com suas Shaktīs Sarasvatī, Lakshmī e Parvati, além da apoteose de Sita e Radha como consortes de Rama e Krishna, invocadas em nomes duplos que lembram, por analogia, o par Jesu–Maria. * Buddhi como cume e síntese de toda manifestação. * Buddhi como descendência manifestada de Purusha e Prakriti. * Correspondência com o Logos em aspecto criado. * Três pessoas: Brahmā, Vishnu, Shiva. * Shaktī como vontade produtiva e consorte feminina. * Consortes: Sarasvatī, Lakshmī, Parvati. * Sita e Radha como consortes de Rama e Krishna. * Rama e Krishna como sétimo e oitavo Avatāras de Vishnu. * Nomes duplos: Sita–Ram e Radha–Krishna. * Remissão por analogia ao nome Jesu–Maria. * O ponto de partida do esoterismo é a consciência da alma de precisar recuperar o Paraíso perdido do Éden, onde havia acesso ao Espírito pela Árvore da Vida e pelas Águas da Vida, e essa aspiração inicial é o anseio da alma pelo Espírito que se abre para a Divindade, podendo o aspecto feminino complementar do Espírito ser personificado por uma mulher para mobilizar as potências da alma quando o buscador é homem, como na Comédia Divina em que Beatriz simboliza aspecto do Espírito e guia Dante do Paraíso Terrestre no topo da Montanha do Purgatório pelos Céus. * Consciência de necessidade e recuperação do Éden. * Árvore da Vida e Águas da Vida como vias de acesso ao Espírito. * Espírito como abertura para a Divindade. * Personificação feminina do aspecto complementar do Espírito. * Exemplo: Beatriz na Comédia Divina. * Beatriz como guia de Dante através dos Céus. * Referência ao Paraíso Terrestre e à Montanha do Purgatório. * O Selo de Salomão, embora amplo, é suplementado por figura obtida ao inverter os triângulos para que os ápices se encontrem, na qual o triângulo inferior voltado para cima expressa a aspiração ascendente da alma ao Espírito e figura a Montanha do Purgatório, enquanto o triângulo superior voltado para baixo é imagem de Misericórdia e Graça, formando diagrama dos dois mares do Qur’ān que se encontram sem transpor a barreira, e figurando também a porta estreita dos Evangelhos no ponto central de encontro. * Inversão dos triângulos com ápices em contato. * Triângulo inferior como mãos em oração e aspiração da alma. * Montanha do Purgatório como paralelo simbólico. * Triângulo superior como Misericórdia e Graça. * Dois mares: Céu-terra ou Espírito-alma. * Referência ao Qur’ān XXV: 53 e LV: 19–20. * Barreira como impedimento de transgressão recíproca. * Porta estreita dos Evangelhos simbolizada no ponto central. * Apesar da desigualdade entre Espírito e alma, a relação pode ser considerada conjugal em vista do fim último, pois a alma é virtualmente espiritual como projeção do Espírito no domínio psíquico destinada à reabsorção na fonte transcendente, e o corpo glorioso da ressurreição recebe esse nome porque o corpo então se reabsorve na alma e, por sublimação, no Espírito. * Relação “conjugal” orientada ao fim último. * Alma como projeção do Espírito no domínio psíquico. * Reabsorção da alma na fonte transcendente como destino normal. * Corpo glorioso ligado ao processo de reabsorção. * Sublimação conjunta para o Espírito. * Quase equivalente à polaridade Espírito-alma, mas mais horizontal, está o par Coração e alma que compreende a individualidade humana, no qual o Coração como Fonte microcósmica da Vida é porta do Espírito e o transcende como centro transcende circunferência, e a própria alma possui dois polos, atribuindo-se o conhecimento ativo ao lado masculino e o ser passivo ao lado feminino, com consciência dominada pelo pensamento associada ao polo masculino e potências involuntárias ligadas à vida associadas ao polo feminino. * Par Coração-alma como totalidade da individualidade. * Coração como Fonte da Vida no microcosmo. * Coração como porta do Espírito. * Transcendência do Coração como centro em relação à circunferência. * Dois polos da alma: masculino e feminino. * Conhecimento ativo no lado masculino. * Ser passivo no lado feminino. * Consciência pensante e delimitada associada ao masculino. * Potências involuntárias e vitais associadas ao feminino. * A reunião harmoniosa dos dois polos da substância psíquica é chamada na alquimia de casamento químico e constitui etapa preliminar para o casamento místico, pelo qual a alma se reúne ao Espírito e recupera o perdido na Queda, e por isso símbolos alquímicos admitem múltiplas interpretações, como Sol e Lua representando tanto potências da alma como Espírito e alma, e também Enxofre e Mercúrio. * Casamento químico como reunificação dos polos psíquicos. * Casamento místico como união superior entre alma e Espírito. * Recuperação do perdido na Queda como efeito do casamento místico. * Multiplicidade interpretativa dos símbolos alquímicos. * Sol e Lua como símbolos das duas potências da alma. * Enxofre e Mercúrio como correlação alquímica. * Sol e Lua também como símbolos de Espírito e alma. * Referência ao Corpus Hermeticum como fonte mencionada. * As subdivisões da dualidade são indefinidas, pois cada faculdade da alma tem aspectos ativo e passivo e o mesmo vale para níveis inferiores, em que o corpo é uno mas tem órgãos aos pares, e cada coisa é unidade penetrada por dualidade, como a flor que reúne olho central e circunferência de pétalas e por isso simboliza no plano humano a polaridade Coração–alma do indivíduo. * Faculdades com aspectos ativo e passivo, masculino e feminino. * Corpo uno com pares: orelhas, olhos, narinas, lábios, braços, pernas. * Unidade atravessada por dualidade em cada coisa singular. * Flor com olho central e pétalas periféricas. * Simbolização do indivíduo pela polaridade Coração–alma. * Em certas dualidades simbólicas dois termos se destacam de um grupo maior, como fogo e água que, embora existam mais elementos, formam grande par de complementaridade, e de modo análogo visão e audição, entre os cinco sentidos, formam par comparável a fogo e água porque o som se espalha e a escuta dilata a receptividade e expande a substância psíquica, enquanto a visão concentra a alma no objeto. * Dupla isolada em meio a múltiplos elementos. * Fogo e água como par simbólico maior. * Visão e audição como par distinto entre os sentidos. * Som como natureza expansiva. * Escuta como dilatação receptiva. * Visão como concentração sobre o objeto. * Concentração envolvendo a alma junto com o ato de ver. * Os sentidos e seus objetos particularizam uma dualidade constante na consciência, o par sujeito–objeto, cujas designações binárias masculino-feminino, ativo-passivo, dinâmico-estático e contrativo-expansivo são análogas entre si, sendo evidente no caso que o sujeito é ativo e dinâmico e o objeto é passivo e estático, e a linguagem conjugal permite ver que cada polo possui em si aspectos complementares, de modo que em um casal cada um é sujeito pelo polo masculino ativo e é objeto pelo polo feminino passivo, e a mulher como sujeito percebe a manifestação da masculinidade do homem mas não a raiz secreta do ego que é puramente subjetiva e não pode ser objeto, mantendo-se essa experiência no quadro de ela ser o polo feminino do casamento. * Dualidade sujeito–objeto como constante de toda consciência. * Quatro pares de designações equivalentes por analogia. * Sujeito como ativo e dinâmico. * Objeto como passivo e estático. * Masculino-feminino aplicado com ressalva de complementaridade interna. * Cada polo contendo aspecto masculino e feminino em si. * Em casal, cada um como sujeito pelo polo ativo. * Em casal, cada um como objeto pelo polo passivo. * Manifestação da masculinidade como objeto de percepção. * Raiz do ego como secreta, oculta e não objetificável. * Experiência “não feminina” inserida na polaridade feminina do matrimônio. * A origem imediata da dualidade está nos dois aspectos complementares presentes no Criador, mas a origem primordial não está nos nomes Criador e Senhor por implicarem relatividade de criaturas e súditos, e por isso a doutrina islâmica distingue Nomes não essenciais desses e de muitos outros, e Nomes essenciais da Essência que são puramente absolutos, como Verdade, Um, Autossuficiente, Independente, Vivo e Santo, havendo distinções análogas no hinduísmo e em outros esoterismos, de modo que a origem e o fim últimos dos pares devem ser buscados na própria Essência, onde a plenitude da complementaridade reside na Unidade absoluta do Si divino além do princípio criador. * Nomes Criador e Senhor implicando relação com criaturas e súditos. * Distinção islâmica entre Nomes não essenciais e Nomes essenciais. * Exemplos de Nomes essenciais: Verdade, Um, Autossuficiente, Independente, Vivo, Santo. * Distinções paralelas no hinduísmo e em outros esoterismos. * Necessidade de precedente puramente absoluto para dualidade complementar no Criador. * Plenitude da complementaridade situada na Unidade absoluta do Si divino. * Arquétipo supremo dos pares buscado além do princípio criador. * O par sujeito–objeto ligado aos pronomes suscita questão sobre o uso de Ele (Huwa) no islã e de Isso/Aquilo (Tad) no hinduísmo como nomes essenciais da Verdade absoluta, e o arquétipo do par é primariamente o Eu–Tu essencial porque primeira e segunda pessoas se pertencem e tendem a fundir-se, enquanto a terceira pessoa é valiosa para exprimir a incomparabilidade divina e associa-se fortemente à alteridade. * He (Huwa) como nome essencial na prática islâmica. * “That” (Tad) como uso equivalente no hinduísmo. * Arquétipo primário como Eu–Tu essencial. * Fusão e pertença recíproca entre primeira e segunda pessoas. * Terceira pessoa como recurso teológico para incomparabilidade. * Associação da terceira pessoa com a ideia de alteridade. * O Sujeito supremo é o Absoluto em sua Pura Ipseidade e não pode carecer de objeto, e a relação Eu–Tu como veículo do amor universal exige presença na Fonte de todas as coisas, tornando metafisicamente necessário que o Si divino possua, como complemento ao Segredo subjetivo, um modo objetivo de manifestação que é a Infinitude, e todo júbilo ou assombro em relações sujeito–objeto encontra plenitude arquetípica na Unidade do Absoluto-Infinito. * Absoluto como Sujeito supremo. * Impossibilidade de o Absoluto ser desprovido de objeto. * Eu–Tu como veículo do amor em todo o universo. * Necessidade metafísica de complementaridade interna no Si divino. * Segredo subjetivo complementado por modo objetivo de exibição. * Infinitude como esse modo objetivo. * Plenitude arquetípica de alegria e maravilhamento na Unidade Absoluto-Infinito. * O símbolo Yin–Yang exprime o sentido mais alto dessa complementaridade como figura de forte poder expressivo comparável ao Selo de Salomão, em que o Absoluto é branco e o Infinito é negro e sua unidade é indicada tanto pela figura inteira quanto pelo círculo negro em Yang e o círculo branco em Yin, significando dimensões intrínsecas recíprocas, e a União é também expressa pela atração mútua pela incompletude complementar, aplicando-se o símbolo a todos os níveis do universo e, verticalmente, a dois níveis distintos. * Yin–Yang como figura de complementaridade suprema. * Comparação com o Selo de Salomão. * Branco como símbolo do Absoluto. * Negro como símbolo do Infinito associado à noite. * Unidade pela totalidade da figura. * Círculo negro em Yang como dimensão infinita no Absoluto. * Círculo branco em Yin como dimensão absoluta no Infinito. * Atração mútua como sinal de complementaridade para completude. * Aplicações em todos os níveis e em sentido vertical. * A Unidade Absoluto-Infinita exclui qualquer “outro” e, contudo, o terceiro pronome não significa apenas alteridade, pois também exprime o que primeira e segunda pessoas têm em comum na Unidade do Eu–Tu absoluto, e a realidade pode ser formulada como Absoluto e portanto Infinito e, sendo ambos sem dualidade, também Perfeito, de modo que Perfeição é consciência partilhada entre Absoluto e Infinito sem separação entre sujeito e objeto, permitindo expressar a Realidade em termos subjetivos ou objetivos e originando Ele ou Aquilo como alternativa a Eu, e a autoconsciência que pergunta “o que sou” pode responder “Sou a Perfeição Absoluta Infinita”, ou “Sou Aquilo”, ou “Sou Ele”, com flutuação constante entre primeira e terceira pessoas no Qur’ān ao falar de Deus. * Exclusão de alteridade real pela Unidade Absoluto-Infinita. * Terceira pessoa como expressão do comum entre Eu e Tu. * Formulação: Deus como Absoluto, portanto Infinito, portanto Perfeito. * Perfeição como partilha sem dualidade entre Absoluto e Infinito. * Ausência de separação entre sujeito e objeto de consciência. * Ele ou Aquilo como alternativa linguística a Eu. * Autoconsciência implicando pergunta “o que sou” e autoendereçamento correlato. * Resposta máxima: “Perfeição Absoluta Infinita”. * “I am That” e “I am It” correlacionados a “I am He” por falta de neutro em árabe. * Qur’ān com alternância entre “não há deus senão Eu” e “não há deus senão Ele”. * Como Arquétipo supremo dos pares, a Perfeição Absoluta Infinita pode ser concebida como uma única perfeição com dois aspectos segundo a perspectiva taoista, e também pode ser compreendida como termo tríplice que exprime o arquétipo supremo de todas as tríades, tema anunciado para o capítulo seguinte. * Concepção taoista: uma perfeição única com dois aspectos. * Termo tríplice: Absoluto, Infinito, Perfeição. * Relação do termo tríplice com o arquétipo das tríades. * Indicação de desenvolvimento no capítulo seguinte.