====== OBJETOS SENSÍVEIS ====== //ALLARD L'OLIVIER, André. L'illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977// * A constatação originária constitui-se como um ato de consciência e atenção sustentada que suspende a temporalidade ordinária para apreender a coexistência entre a subjetividade radical e os objetos sensíveis. * A manutenção de uma estupor lúcida permite a reunião das energias necessárias para verificar a própria existência e a presença das coisas percebidas pelos sentidos. * A certidão absoluta da existência do sujeito, expressa no ato de proferir o sum, coexiste contraditoriamente com o sentimento de que os objetos sensíveis podem não possuir realidade substantiva. * A realidade sensível em sentido estrito compreende exclusivamente o conjunto de entes visados pela subjetividade radical através dos sentidos no hic et nunc, distinguindo-se da realidade sensível em sentido amplo que incorpora a dimensão representativa e mnemônica. * O campo atual das percepções exclui objetos situados fora de suas fronteiras espaciais e temporais, os quais são admitidos apenas como representações dotadas de natureza análoga aos objetos presentes. * A existência da realidade representada depende de um refluxo da qualidade existencial pertencente aos objetos percebidos sensorialmente, perdendo-se em ficção à medida que a representação se afasta para o passado remoto ou o futuro incerto. * O corpo próprio atua como o ponto focal e motor da atividade sensorial, pertencendo simultaneamente à realidade sensível stricto sensu como objeto permanente e à integridade do ser que percebe. * A penetração da consciência sobre o próprio corpo atinge seu ápice na constatação originária, momento em que se verifica a reversibilidade dos sentidos, como as mãos que tateiam e os olhos que são tocados. * As noções de aqui e agora derivam da ordenação do campo perceptivo em torno do corpo, sendo o aqui o lugar significativo definido pelo foco corporal e o agora o instante da efetivação do conhecimento sensorial. * A percepção sensível é intrinsecamente ligada ao corpo como aparelho extensivo que define o espaço concreto, revelando os objetos em sua alteridade corpórea por meio de um ato intuitivo. * O conhecimento sensorial apreende corpos massivos com determinações diversas, tais como temperatura, resistência, cor e odor, todos situados em um espaço ordenado pelo corpo do sujeito. * O espaço concreto diferencia-se das figuras geométricas abstratas e do espaço da representação por ter sua origem na extensão vivida do próprio corpo, a qual serve de raiz para o espaço em que ocorre o movimento. * A totalidade do percebido no instante da constatação originária apresenta-se como um todo inteligível que harmoniza o caráter insólito da novidade com a familiaridade fornecida por uma representação intelectual prévia. * A compreensão do mundo sensível é mediada por um saber já presente que permite ao ser pensante decifrar e organizar as relações entre as partes do todo percebido. * A constatação originária funciona como uma sanção de um estado de conhecimento fragmentário, registrando a posse de um saber anterior que orienta a experiência atual. * A intuição consciente dos objetos sensíveis requer a conexão com uma estrutura representativa que confere inteligibilidade ao que é captado pelos sentidos, permitindo o reconhecimento instantâneo do dado. * O ato de olhar para o entorno é indissociável do saber já posto, o qual atua como ferramenta de decifração para que o intuicionado se torne compreensível. * A representação funciona como o fundamento que transforma a simples visão das coisas em uma experiência de reconhecimento consciente. * A interpretação de Kant sobre o espaço e o tempo como formas a priori da experiência intuitiva é confrontada pela distinção entre as estruturas da representação e a experiência concreta da constatação originária. * Kant postula que o espaço é a condição subjetiva para a intuição externa, enquanto o tempo rege o sentido interno e a sucessão das representações na interioridade. * A realidade sensível stricto sensu possui uma anterioridade intuitiva sobre a representação, uma vez que o corpo está inscrito em um espaço e tempo concretos que determinam a amplitude da presença antes de qualquer formalização abstrata. * A coexistência paradoxal revela que, embora a representação forneça a inteligibilidade necessária para a percepção, a intuição do sensível é a condição para que exista algo a ser representado. * A constatação originária revela a alteridade existencial dos corpos em relação ao corpo próprio, contestando a noção kantiana de exterioridade e afirmando a inserção do sujeito no mundo. * O reconhecimento de ser um corpo entre outros corpos estabelece uma relação de identidade analógica entre a própria corporeidade e a dos objetos percebidos. * A afirmação de que os objetos estão fora do sujeito é considerada imprecisa, visto que a unidade da experiência vivente posiciona os corpos não como externos, mas como outros em relação à totalidade do ser corpóreo. {{tag>Allard Sujeito-Objeto 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