====== MAGOS NEGROS ====== //[[guenon|René Guénon — Témoin de la Tradition]]// * Os primeiros adversários de Guénon — Charles Détré (Téder), Joanny Bricaud e Charles Nicoullaud — não eram opositores políticos nem filosóficos, mas inimigos de natureza bem mais sombria. * Téder possuía enorme erudição histórica, que usava habilmente para falsificar documentos e interpretá-los a seu bel-prazer. * Começou sua carreira com um livro antimaçônico intitulado Les Apologistes du Crime, depois foi expulso da Bélgica por chantagem e foi para a Inglaterra, onde conheceu John Yarker. * De Yarker, assim como Papus, Téder obteve graus maçônicos mais ou menos autênticos, mas em todo caso irregulares. * Téder exerceu sobre Papus — Grande Pontífice do ocultismo francês e do Martinismo — uma ascendência surpreendente, dado que Papus sempre soubera afastar quem pudesse lhe fazer sombra. * O antimaçonismo real de Téder complementava o de Papus, que atacava apenas o Grande Oriente racionalista, enquanto os martinistas de segundo grau — homens e mulheres — recebiam as palavras e sinais dos três graus da Maçonaria simbólica sem prestar qualquer juramento. * Téder valeu-se de sua influência sobre Papus para eliminar Guénon do meio martinista, fabricando uma série de cartas falsas atribuídas a Guénon, das quais só podia mostrar fotografias, e usando-as como base de um "relatório". * Guénon havia pertencido à Loja Humanidad, da qual Téder era o venerável, vinculada ao "Rito Nacional Espanhol" — organização pseudomaçônica irregular em estreita conexão com o Martinismo. * Para garantir o resultado, Téder aproveitou a ausência de Papus para fazer pronunciar a exclusão de Guénon por um punhado de pessoas reunidas a custo. * A Loja Humanidad já havia cessado de existir de fato; a pretendia "exclusão da Maçonaria" serviu a várias gerações de ocultistas em seus ataques incessantes a Guénon. * Téder tinha razões além da rivalidade pessoal para afastar Guénon: temia que este descobrisse sua campanha de falsificação histórica em torno dos nomes de dois escoceses jacobitas — o cavaleiro James Hector Macleane e Charles Radcliffe, conde de Derwentwater — que o Grande Oriente listava entre seus primeiros Grandes Mestres. * Na revista Hiram, Téder atacou o templarismo maçônico e o Grande Oriente, argumentando que os dois escoceses não deveriam figurar na lista — conseguindo que o Grande Oriente os suprimisse. * A verdade prevaleceu mais tarde graças a "documentos suecos" indiscutíveis, e o Grande Oriente arrependido restituiu as honras devidas aos dois jacobitas. * Segundo estudo de Denys Roman, a contra-iniciação, à qual Téder muito provavelmente pertencia, não teria despendido tamanho esforço se Macleane e Derwentwater fossem apenas fiéis da descendência de Jaime II. * A Escócia apresenta dados históricos e simbólicos que a tornam terra de refúgio dos Templários, ligando-a à Ultima Thulé e à Maçonaria Escocesa como "cobertura" do templarismo subsistente. * Lendas falam de nove Templários refugiados na Escócia, aproximados dos nove bispos templários acusados de maniqueísmo, mencionados por Charbonneau-Lassay em correspondência com Guénon. * A hipótese de Denys Roman, baseada em meditação sobre a tradição maçônica e em informações fornecidas por René Le Forestier, é que a Maçonaria "jacobita" serviu de cobertura para influenciar a Maçonaria especulativa em sentido tradicional, reparando a ruptura de 1717 com uma superestrutura de vestígios das iniciações cavalheirescas. * O antitemplarismo "histórico" de Téder, confrontado com seus ataques à Ordem do Templo Renovado, confirma a contrario a autenticidade desta última. * Joanny Bricaud (Jean des Esseintes, Sa Beatitude Johannès II) desempenhou junto à Gnose o mesmo papel que Téder junto ao Templo, sucedendo-o à frente do Martinismo, cuja influência suspeita não mais se desmentiu. * Em carta de 22 de maio de 1932, Guénon considerava Bricaud muito menos inteligente do que Aleister Crowley, mas muito mais perigoso na prática. * Em carta a Julius Evola de 28 de fevereiro de 1948, Guénon distinguiu entre "verdadeiros feiticeiros" e simples ocultistas: os primeiros conseguem resultados reais no plano físico, do qual ninguém está a salvo — nem mesmo, segundo a Tradição, o Profeta. * Guénon relatou a Evola que uma "crise de reumatismo" sofrida em 1939 — que o manteve seis meses acamado sem poder se mover — era na realidade de outra natureza, servindo de veículo a uma influência maléfica, a segunda ocorrência do gênero. * Medidas foram tomadas para afastar essa influência e impedir sua recorrência no Egito; desde então, nenhum episódio semelhante voltou a ocorrer. * Em Paris, Guénon já havia sofrido repetidamente os ataques de "magos negros": num episódio, ao sair para desviar um ataque previsto, encontrou ao retornar um dos vidros de seu escritório estilhaçado com os cacos para fora, no parapeito exterior. * Certas vezes os ataques se "materializaram" sob a forma de animais negros, remetendo diretamente aos mistérios tifonianos — sangue de animais negros era usado na magia sethiana, conforme atesta um papiro mágico com um crânio de asno chamado typhonos chranion, traçado com sangue de cão negro. * Em carta de 22 de abril de 1932, Guénon associou esses ataques ao deus de cabeça de asno; em 22 de maio de 1932 relatou ter sofrido, na época das "histórias de Téder", um ataque de urso que lhe deixou por algum tempo a marca de uma mordida no pescoço. * O caso de Bricaud é ainda mais significativo por ser ele sucessor do abade Boullan — o doutor Johannès do Là-bas de Huysmans —, ele próprio herdeiro mais ou menos legítimo de Vintras, o "profeta" de Tilly-sur-Seulles, que se proclamava Elias reencarnado e fundou um "Carmelo" à sua maneira. * Essa história tenebrosa, entrelaçada com o enigma de Luís XVII e com algumas falsas aparições — entre as quais a de La Salette —, constituiu a trama subterrânea do século XIX. * Guénon, em L'Erreur Spirite (cap. X), sugeriu que Vintras pode ter sido um satanista perfeitamente inconsciente, mas que o mesmo não poderia se dizer de certos discípulos e sucessores seus. * A título anedótico, Bricaud redigiu em 1926 uma biografia do célebre "Mestre Philippe" de Lyon, revelando que a vocação taumatúrgica deste último teria sido transmitida por uma velha feiticeira que, ao curar o menino de doze anos, lhe disse: "Vou te dar minhas receitas." * O papel de Mestre Philippe na corte da Rússia, no período turbulento que precedeu a revolução bolchevique, mereceria exame minucioso. * Bricaud menciona que, desde os seis anos, certas predisposições do menino Philippe inquietavam o sacerdote que o educava. * Com Charles Nicoullaud (Fomalhaut), colaborador eminente da Revue Internationale des Sociétés Secrètes, tem início uma nova fase da ação contra-iniciática, que encontrou nessa revista de objetivos ambíguos um suporte de eleição por muitos anos. * Em 1912, o abade Jouin, pároco de Saint-Augustin em Paris, fundou a R.I.S.S. para retomar o antimaçonismo "taxiliano", revelando pouco discernimento mas anunciando muitas peripécias fantásticas. * Os que haviam manipulado Taxil não deixaram passar a ocasião, e Jouin tornou-se logo um simples testa de ferro; o diretor efetivo da R.I.S.S. foi Nicoullaud, ex-maçom. * O primeiro duelo entre Nicoullaud ("A. Martigue") e Guénon ("o Sphinx") ocorreu na France Antimaçonnique de 18 de dezembro de 1913, a propósito de um artigo sobre os Superiores Desconhecidos e o "Astral". * Martigue insinuava que os jesuítas eram responsáveis pela ação subversiva de Weishaupt, seu aluno em Ingolstadt, e identificava os Superiores Desconhecidos a habitantes do "Astral" teosófico. * O Sphinx replicou propondo um dilema: ou Martigue admite a existência do "Astral" e seus habitantes — e então é ele próprio um "antimaçom bem estranho" —, ou não admite, e não pode chamar de "verdadeiros iniciados" os que o admitem. * O Sphinx demonstrava, por esse meio, a leitores católicos e antimaçons mais atentos, que os espíritas não podiam em absoluto ser considerados iniciados, levando-os a tomar consciência da natureza exata da iniciação verdadeira. * A intervenção do Sphinx suscitou o silêncio total de Martigue, uma esquiva de Nicoullaud e uma longa resposta apologética de Gustave Bord, historiador positivista convocado em reforço, que Guénon examinou no artigo "l'Énigme" na France Antimaçonnique de 29 de janeiro de 1914. * Nicoullaud, identificando-se então completamente a Martigue, publicou na R.I.S.S. uma longa "Réponse au Sphinx" sem aguardar a réplica deste a Bord — e saiu-se mal, pois certas alusões a romances por ele escritos o forçaram a uma nova intervenção na R.I.S.S. de 5 de março de 1914. * O bibliógrafo Pierre Dujols havia descrito os romances de Nicoullaud como licenciosos e anticlericais, nos quais apenas a Teosofia "sai relativamente bem" — quadro pouco edificante para o diretor de uma revista de Monsenhor Jouin. * A R.I.S.S. aceitava "certas fantasias pseudocabalísticas um tanto deslocadas" e seus colaboradores publicavam artigos como "A Moda do Triângulo", onde se afirmava que grandes armazéns vendiam bonecas submetidas a encantamentos nas "Altas Lojas" e que o triângulo era "o símbolo da religião de Satã" — transformando assim boa parte das igrejas católicas em templos satânicos. * A R.I.S.S. denunciava como maçons ou cúmplices da Maçonaria padres, religiosos — sobretudo jesuítas — e prelados de todos os escalões, a ponto de sugerir que o arcebispado de Paris, sob o cardeal Verdier, era uma simples sucursal da rua Cadet. * Jouin cobria com seu nome essas enormidades e provavelmente só escapou da suspensão por causa de sua idade e estado de saúde; a revista, por sua vez, foi apenas advertida pelo Conselho de Vigilância do diocese de Paris. * A acusação anônima lançada contra Guénon no número de 1º de fevereiro de 1932 — afirmando que ele teria "numerosos amigos" na Alemanha — foi respondida no Voile d'Isis de maio de 1932, com Guénon declarando que a Alemanha era um dos raros países onde não tinha qualquer relação. * Os "ferozes patriotas" da R.I.S.S., "Órgão da Liga Franco-Católica", tinham conivência com Aleister Crowley — espião notório trabalhando simultaneamente para a Inglaterra e para a Alemanha —, conivência que Guénon afirma ter comprovado de modo inesperado por meio de um volumoso dossier publicado por ex-colaboradores da R.I.S.S. * A contra-iniciação se caracteriza essencialmente pelo inversão dos símbolos: numa fase preparatória, desacredita o original identificando-o a contrafações ridículas ou odiosas; a longo prazo, essas contrafações, passando por autênticas, tornam-se fáceis de reabilitar justamente porque os ataques que "sofreram" foram grosseiros e estúpidos. * Paul Chacornac, em 1933, pretendeu fazer cessar as "polêmicas" com a R.I.S.S. recusando a Guénon a inserção de suas respostas; Guénon fez dessa publicação condição sine qua non de sua colaboração, explicando a um amigo que os artigos daqueles colaboradores eram o suporte dos ataques psíquicos lançados contra ele, e que suas respostas desempenhavam exatamente o mesmo papel. * Guénon instruiu que não fosse alterada nem uma palavra nem uma vírgula de seus textos de resposta. * Episódios da polêmica incluem: a acusação de imprudência ao "Dr. G. Mariani" por mencionar o "deus de cabeça de asno" após Guénon ter escrito sobre Seth; o anúncio da morte de Henri de Guillebert des Essars com o comentário de que seria de se desejar que ele tivesse levado seu "tenebroso segredo" para o túmulo; e a questão sarcástica sobre a morte nunca claramente anunciada do "Dr. G. Mariani" em suposto acidente de aviação. * O caso do "Dr. G. Mariani" era uma sinistra mistificação: o tenente de navio Bouillier havia aproveitado um "espantoso conjunto de circunstâncias" para desaparecer, pois a vítima do acidente em que supostamente morreu tinha o mesmo nome a uma letra de diferença, a mesma idade, a mesma patente e a mesma residência. * Guénon concluiu que haveria ainda outras marionetes a desmontar e mistificações a desmascarar, e prometeu continuar essa tarefa, por mais desagradável que fosse, "até esmagar o ninho de víboras". * Entre os colaboradores mais notáveis da R.I.S.S. estavam dois padres: o abade Paul Boulin (Roger Duguet), que no fim da vida publicou Autour de la Tiare, trazendo testemunho interessante sobre bastidores em que estivera envolvido; e o abade Raymond Dulac, cuja colaboração posterior em revistas católicas como Pensée Catholique e Itinéraires foi melhor inspirada do que seus artigos na R.I.S.S. * Sobre o abade Dulac, Guénon comentou: "O mais triste em seu caso é que, ao que parece, ele é padre; estaria ele empenhado em provar pelo seu exemplo que, entre 'clero' e 'sacerdócio', há mais do que uma nuance?" * Paul Le Cour, fundador de Atlantis — que fazia Guénon rir às gargalhadas —, confundia durante muito tempo a tradição atlante com a dos Hiperbóreos, identificando-a à Tradição primordial, e herdara do barão de Sarachaga o segredo da combinação Aor-Agni como chave universal. * Acometido de "loucura etimológica", Le Cour chegou ao cúmulo de querer reabilitar o "deus de cabeça de asno", identificando-o a uma cabeça de onagro na qual reencontrava inevitavelmente Aor-Agni. * Apesar de seus antagonismos aparentes, todos os inimigos de Guénon compartilhavam um "elo" incontestável: a defesa do Ocidente supostamente ameaçado e o ódio feroz ao Oriente — o que suscitava coincidências reveladoras. * O padre Allô e Paul Le Cour, em artigos publicados simultaneamente em fevereiro de 1932, usaram quase as mesmas palavras para atacar o Symbolisme de la Croix de Guénon, destacando a vinheta de Ganesha na capa e a dedicatória a um sheikh muçulmano — o que levou Guénon a perguntar "qual dos dois copiou o outro, ou se algum 'outro' ditou a ambos a mesma frase sensacional". * As fantasias pseudo-orientais serviam a um duplo propósito: canalizar aspirações doutrinalmente mal formadas, impedindo-as de aceder às autênticas doutrinas orientais, e desacreditar o Oriente de modo mais pernicioso do que os "defensores do Ocidente" fariam. * Nos ramos mais ou menos derivados da Sociedade Teosófica de Blavatsky e Besant, encontravam-se personagens singulares em disfarces sucessivos, cuja dissensão constante não diminuía, antes aumentava, sua força subversiva. * Trebitsch-Lincoln — agente da contra-iniciação que trabalhou simultaneamente para a Inglaterra e a Alemanha — tornou-se o "Lama Dorji-Den", recrutando fundos para um monastério budista na Suíça que nunca saiu do papel e sempre acabou em estelionato. * O Dr. Alexander Cannon, que se intitulava modestamente "Yogi Kushog do Tibet setentrional, Quinto Mestre da Grande Loja Branca do Himalaia, Cavaleiro Comandante da Ásia", escreveu L'Influence invisible — amontoado de anedotas pilhadas de várias fontes, algumas delas de um romance de aventuras inglês que Guénon havia lido na juventude. * O livro foi traduzido por Grâce Gassette e Georges Barbarin; este último alcançou notoriedade em 1936 com Le Secret de la Grande Pyramide, que fazia da pirâmide um monumento judeo-cristão, obtendo acolhida extraordinária na imprensa e no rádio, e até o entusiasmo mal-vindo de Léon Daudet. * Essas fantasias promoviam dois temas recorrentes: o advento iminente de uma "Era de Aquário" e a lenda das "tribos perdidas de Israel", com fortuna particular no mundo anglo-saxão. * A "Grande Loja Branca", contrafação grosseira do Agarttha, foi o tema pseudo-oriental favorito dos teosofistas, mas não bastava para neutralizar a doutrina tradicional relativa ao Centro Supremo e ao Rei do Mundo. * Esforços desesperados foram feitos para assimilar o Rei do Mundo ao princeps hujus mundi — o Príncipe deste Mundo do Evangelho —, do qual é o exato oposto. * O Nazismo adotou o suástica — símbolo "primordial" por excelência — como emblema, e pretensos orientais que eram contra-iniciados como Trebitsch-Lincoln e seus discípulos foram associados ao advento de Hitler. * Albert Frank-Duquesne, no número especial dos Études Carmélitaines sobre Satã (1948), evocou "o caso de duas vítimas do Agarttha fulminadas à distância após aviso" e traduziu Sâr ha-ôlam por "Príncipe deste Mundo" — o que Guénon qualificou de "verdadeira enormidade". * De todos os ataques "doutrinais" desferidos pela contra-iniciação contra Guénon, o que dizia respeito ao Agarttha e ao Rei do Mundo foi de longe o mais importante e o mais constante, e coube a Guénon, e somente a ele, combater a contra-iniciação e expor pela primeira vez no Ocidente os dados tradicionais relativos a esses temas. * A pista é fácil de seguir: do "Dr. G. Mariani", que se esforçava em "Le Christ Roi et le Roi du Monde" (R.I.S.S. de 1º de novembro de 1930) por assimilar o Rei do Mundo ao Príncipe deste Mundo, a Frank-Duquesne, passando por numerosos outros. * Frente a todos os enviados mais ou menos "astrais" da "Grande Loja Branca" e das inúmeras "fraternidades espirituais" que preparavam a "Era de Aquário", era necessário que se erguesse uma testemunha da Tradição — e "o homem que devia cumprir essa função foi certamente preparado de longe, e não improvisado". {{tag>Robin JRRG}}