====== VIGÍLIA DO CORAÇÃO ====== //SCHAYA, Leo. Naissance à l’esprit. Paris: Dervy-Livres, 1987.// * A frase bíblica Eu durmo, mas meu coração vigia implica a complementaridade entre o princípio masculino, que está em ato, e o feminino, que é passivo e receptivo, mas passível de despertar sob a influência da essência central. * O termo hebraico ani yeshenah indica o aspecto feminino da Sulamita que dorme, enquanto libi designa o coração masculino que permanece vigilante. * O despertar ocorre pelo som do batimento cardíaco, que faz o ser vibrar em uníssono com o princípio ativo. * O ruído da pulsação repercute a voz do Bem-Amado, identificada pelo termo qol como o som revelador, criador e unitivo. * A Bem-Amada, ao ouvir o chamado do Bem-Amado que bate à porta do coração, abre-se para aquele que a reconhece como parte da mesma família divina. * O Bem-Amado chama a alma de irmã por procederem dos mesmos Pai e Mãe divinos. * Na exegese cabalística, ele representa o Filho e ela a Filha, simbolizando o Coração e o Corpo divinos em seu aspecto imanente. * Os princípios transcendentes são considerados eternamente unidos, enquanto na imanência eles se buscam em união nupcial. * Dessa união mística nasce a criação, e as criaturas são destinadas a participar desse processo até a absorção final na Unidade suprema. * A união mística simultaneamente cria e liberta o criado de si mesmo ao vinculá-lo ao Um. * A alma humana é a esposa de Deus, uma receptividade que dorme até ser despertada pelo Intelecto em ato no fundo do coração. * O ser humano é chamado a superar a participação passiva na união divina através de uma contribuição ativa e espiritual que vise a constituição de um Reino único preenchido pela beatitude. * A realização da união no plano inferior provoca a união no plano superior, gerando uma repercussão metacosmos. * O processo unifica o corpo à alma, a alma à sua essência espiritual e esta última ao Espírito universal. * O homem individual transfigura-se no Homem universal, tornando-se idêntico à Toda-Realidade e à unidade de todas as coisas no Um. * A unificação interior e o amor ao próximo atualizam antecipadamente o Reino vindouro e a obra redentora universal. * A submissão da alma inferior e animal à alma superior e ao espírito teocêntrico marca o início da integração ontológica. * A alma humana é uma luz de YHVH que procede da Essência suprema e desempenha múltiplas funções em um único invólucro corpóreo. * A Kabbale identifica cinco graus na alma: Nephesh (aspecto animal), Ruah (aspecto mental), Neshamah (essência espiritual), Hayah (alma vivente imante) e Yehidah (alma única e transcendente). * O sono da individualidade possui um aspecto negativo de ignorância e um aspecto positivo de receptividade pura para com o Espírito que ilumina a noite da alma. * No sono positivo, a alma conhece o Espírito divino como sua própria essência e coração. * A individualidade passa a ser vista como a irmã-esposa da essência espiritual, mantendo união constante com o Esposo independentemente da atividade ou repouso. * O coração passa a bater ao ritmo dessa união, orientando pensamentos, sentimentos e ações corporais. * A voz do Bem-Amado articula-se como luz reveladora e deificante, estabelecendo continuidade espiritual através da porta aberta do coração. * A clareza do Infinito penetra no finito, substituindo a penumbra que antes passava apenas pelo orifício da Neshamah. * O homem torna-se receptividade pura para a coisa necessária, o Um que contém e ultrapassa a Toda-Realidade absoluta. * O Reino de Deus deve ser buscado prioritariamente, pois dele emanam todas as coisas múltiplas em seu começo eterno e essência não causal. * A absorção da consciência individual no sono profundo constitui um reflexo passivo e uma analogia inversa da ascensão espiritual ativa em direção à essência supra-inteligível. * O movimento espiritual remonta ao Não-Começo e à Essência absoluta que preexiste a toda existência. * A entrega às Trevas superiores e mais que luminosas representa a libertação espiritual suprema. * A não dualidade espiritual situa-se além da luz e da obscuridade, mantendo a memória do estado supremo na consciência de quem dele retorna. * O estado de sono profundo natural é caracterizado pela ininteligibilidade e ausência de discernimento, enquanto o contemplativo permanece desperto em sentido espiritual mesmo durante a extinção das faculdades. * Ao sair do sono profundo, o homem comum nada pode dizer além de ter recuperado forças de forma inconsciente. * O contemplativo afirma permanecer em estado de extinção vigilante, onde sono e vigília coincidem plenamente. * A vida do iniciado é o Cristo que vive nele, unindo o que está embaixo ao Supremo através do Coração de Deus. * O iniciado morre para o eu e para o mundo, permitindo que seu coração seja identificado com a Essência pura. * Nesse estado, o ser inteligente repousa como água tranquila em um mar imóvel, sem determinações ontológicas ou cognitivas. * Apenas Yehidah, a realidade incondicionada e supra-inteligível, permanece vigilante na ausência de necessidade de ser ou conhecer. * A Cabala designa essa realidade como Aïn, o Nada de tudo o que não é o Real puro, sendo o Sobre-Ser cuja sombra é o sono profundo. * No sono, o homem continua a existir sem consciência porque seu coração vigia sob o amparo da Verdade divina. * O simbolismo do sono profundo revela que a natureza profunda do ser é o silêncio de todas as coisas, onde tudo repousa em identidade suprema e absoluta. * O contemplativo espiritualizado sabe silenciar o múltiplo para mergulhar na Sobre-consciência inextinguível e na Claridade mais que luminosa. * A realidade integral reside no Indiferenciado, Infinito e Absoluto, dispensando as distinções mesmo quando o discernimento é necessário. * O espírito situa-se sucessivamente no Sobre-Ser além de todos os começos, no Ser puro que repousa em si mesmo e no Ser como Causa universal. * Para o contemplativo, as existências são ondas simbólicas e evanescentes que não afetam a imutabilidade de sua própria realidade infinita. * A transição do sono profundo para o despertar pleno envolve estados intermediários que simbolizam diferentes graus de consciência e relação com o Ser puramente um ou causal. * O primeiro instante do despertar, onde a multiplicidade ainda repousa na unidade, simboliza o despertar para a existência pura que reflete o Ser em si. * O despertar completo reflete o Ser causal manifestando a pluralidade da existência e da individualidade terrestre. * Os quatro modos de despertar abrangem o sonho, a entrada na vigília antes da consciência individual e dois aspectos qualitativos da vigília plena. * A consciência do ignorante na vigília assemelha-se a um sonho caótico e obnubilado pelas trevas, resultando em atividades não conformes à ordem divina. * No sábio, o instante inicial do despertar espiritual prolonga-se pelo estado de vigília natural, permitindo-lhe reconhecer o aspecto onírico da existência comum. * O estado de vigília natural do sábio testemunha a vigília espiritual, antecipando o despertar definitivo que ocorre a todos os homens no momento da morte física. * O profeta de Allâh afirmou que as pessoas dormem e despertam apenas ao morrer. * O despertar espiritual pode infiltrar-se no sonho natural através de imagens que revelam a verdade, demonstrando a continuidade do Espírito. * A tradição judaica considera o sonho como uma sexagésima parte da profecia. * O profeta recebe revelações em visões ou sonhos, sendo que Moisés distinguia-se por manter o espírito e o rosto inalterados durante o contato divino. * O instante inicial do despertar natural constitui uma entrada na vigília antes da percepção do nome e da forma individuais, refletindo a consciência da pura existência e do Ser uno. * Antes da reflexão mental sobre o mundo, o homem é consciente apenas de existir como reflexo do Ser. * O Ser é Luz arquetípica, Consciência universal e Unidade infinitamente beatífica cuja felicidade é inerente à sua própria afirmação. * Ao determinar-se como Ser, Deus determina simultaneamente a essência luminosa de todos os seres em unidade indiferenciada. * Como Ser causal, Deus determina os arquétipos particulares que, na eternidade, querem o que Deus quer em conformidade total. * A raiz da predestinação e do livre-arbítrio reside na identidade entre a essência absoluta humana e o Sobre-Ser. * A sucessão dos estados terrestres reflete essa hierarquia: o sono simboliza o Não-Ser e o despertar simboliza o Ser puro e, posteriormente, o Ser ativo. * A entrada efetiva na vigília revela o Coração que vigia no interior do homem e que é Deus imanente, refletindo a ação ininterrupta do Princípio supremo sobre a existência terrestre. * O cérebro permanece ativo no sono profundo para manter a atividade cardíaca por provocação do Ato causal da Cabeça suprema. * No primeiro instante do depertar, o homem sabe apenas que é e que é perfeitamente feliz, sem limitações ou consciência de um mundo exterior. * O estado passivo de plenitude luminosa experimentado naturalmente pelo homem pode ser realizado de forma ativa e definitiva mediante a absorção espiritual na Presença real do Ser puro. * A felicidade essencial já pertence ao homem em sua natureza idêntica ao Sobre-Ser, mas a consciência atual encontra-se dela separada. * Os reflexos naturais da identidade beatífica funcionam como símbolos para auxiliar o esforço de reintegração espiritual. * O homem deve tomar posse ativa do que recebeu naturalmente, cultivando espiritualmente o estado humano primordial. * A vigília habitual contemporânea é um estado de queda e ruptura entre o efeito e a Causa, marcado pelo pecado original. * Afastada do Éden, a consciência diária desperta para um sentido de ser individual separado, prisioneira de um tecido complexo de pensamentos e sentimentos. * O enclausuramento na consciência egocêntrica e limitativa é alimentado ilusoriamente pela Consciência universal da qual se separou. * A raiz do autocondicionamento é a polarização da Essência em sujeito e objeto, gerando um dualismo que escraviza o ser. * O homem cai na dispersão dos erros do eu e no turbilhão de desejos e ações até o retorno ao sono profundo. * O esquecimento humano sobre a natureza das percepções impede o reconhecimento de que os objetos exteriores são na verdade projeções da própria Essência divina no seio da Onipresença indiferenciada. * As coisas puras são teofanias e aspectos de Deus, que habita em plenitude de Consciência e Beatitude. * A religio constitui o caminho e o vínculo que permite às coisas revelarem seus arquétipos divinos. * O despertar espiritual permite realizar as virtudes deiformes como aspectos da própria Quididade única. * O autoconhecimento completo implica conhecer o Senhor, encontrando o Todo no próprio Sol interior e infinito. * O Salmista testemunha que na luz divina vê-se a luz, prolongando o despertar espiritual para todas as coisas. * Diferente do sol físico, o Soleil divin não ofusca o olho do coração, mas confere-lhe a mais alta acuidade cognitiva. * O iluminado percebe com nitidez o simbolismo das formas e reconhece nelas sua própria Ipseidade, Yehidah, manifestada como criação. * A alteridade é apenas aparente, sendo a criação uma imagem que testemunha o Real e suas qualidades essenciais. * O pensamento do iluminado não afeta a visão da identidade essencial, pois ele se tornou a única Realidade das coisas sob véus transparentes. * Diante do olhar penetrante do contemplativo, os véus se desfazem, revelando o coração que vigia mesmo em sono aparente. * O simbolismo universal dos estados de consciência presente na Cabala encontra paralelos na doutrina hindu, que trata o sono profundo natural como ignorância e seu aspecto espiritual como conhecimento integral. * O sono vigilante transforma o indivíduo em Prâjna, aquele que conhece a si mesmo como o Uno e percebe a unidade de Sat (Ser), Chit (Consciência) e Ananda (Beatitude). * A consciência absorve todas as funções orgânicas e repousa no Éter do coração, identificado com Brahma. * O retorno ao Ser puro durante o sono significa o regresso ao próprio Soi ou Atma, resultando em fruição de felicidade absoluta. * No Paramatma, o ser transcende as condições de vigília, sonho e sono profundo, alcançando o estado Turiya. * O Quarto estado é o Sobre-Ser indeterminado, invisível e indescritível, que constitui a essência sobre-ontológica de toda inteligência. * Nesse plano supremo, o Ser dorme enquanto o Sobre-Ser vigia, refletindo-se espiritualmente naquele que realizou o Soi. * Râmana Maharshi descreve o estado do jnanin como uma vigília-sono onde coexistem a consciência desperta e a tranquilidade absoluta, transcendendo as definições ordinárias de ambos os estados. * O estado jagrat-sushupti é atijagrat (Vigília das vigílias) e atisushupti (Sono dos sonos). * Esta condição intermediária é a fonte de todo pensamento e pode ser atingida através de uma busca vigorosa com consciência perfeita. * A vigília do coração na realidade interior e infinita não é transitória, mas constitui a felicidade eterna e absoluta. {{tag>Schaya Vigília Coração}}