====== TRANSCENDÊNCIA NÃO É CONTRASSENSO ====== * Dizer conhecimento humano implica afirmar conhecimento do Absoluto, o que conduz ao mistério dos graus de realidade e da relatividade não apenas do mundo, mas também, a priori, do aspecto pessoal da Divindade, surgindo daí uma tensão entre a necessidade metafísica de explicar esse mistério e a impossibilidade teológica de fazê-lo sem ao mesmo tempo suspendê-lo, como se ao constatar círculos concêntricos se insistisse em vê-los como raios para preservar uma homogeneidade fundada em preconceito de continuidade linear, razão pela qual a especulação dogmatista ignora a mobilidade interior que permitiria hierarquizar perspectivas sem sacrificá-las ou reduzi-las abusivamente. * A relatividade atinge também o aspecto pessoal da Divindade. * A necessidade metafísica exige explicitação do mistério. * A impossibilidade teológica tende a colocá-lo entre parênteses. * A imagem geométrica opõe círculos concêntricos e raios. * A mobilidade interior permite hierarquização sem redução. * No seio da relatividade, o Absoluto mantém com ela tanto um vínculo de irradiação e continuidade quanto um vínculo de reflexo e descontinuidade, de modo que negar às hipóstases o primeiro vínculo equivaleria a negar-lhes o caráter divino figurado pela continuidade geométrica, enquanto negar-lhes o segundo equivaleria a confundi-las com a Essência pura e introduzir diferenciação no Absoluto, além de se reconhecer uma dimensão horizontal de distinção e identidade entre hipóstases que não gera dificuldade, ao passo que a dimensão vertical de continuidade e descontinuidade suscita cautelas relativas à sublimidade, à prevenção de heresia e à salvaguarda da simplicidade e unidade da Natureza divina apesar da complexidade do Mistério. * Hipóstases participam de continuidade e de descontinuidade. * A Essência não pode ser diferenciada sem contradição. * Distinção e identidade coexistem sob o aspecto da substância principial. * A dimensão vertical envolve questão de sublimidade. * A simplicidade divina deve permanecer intacta. * A própria existência do mundo pressupõe a complexidade no Princípio, pois negá-la implicaria privar o Absoluto da infinitude, ao passo que negar a simplicidade essencial de Deus implicaria multiplicar existências produtoras do existente, o que é contraditório, dado que a Existência é única por definição. * A complexidade fundamenta a possibilidade do mundo. * A infinitude pertence ao Absoluto. * A simplicidade garante a unicidade da Existência. * A multiplicação de existências é absurda. * Deus é absoluto e ao mesmo tempo pode ser diferenciado, mas não sob o mesmo plano ou aspecto, pois enquanto absoluto ultrapassa suas qualificações como Trindade, Potência criadora, Onisciência e Onipotência, e enquanto diferenciado é considerado sob um aspecto relativo que permanece absoluto apenas em relação às criaturas por pertencer ao domínio principial. * A diferenciação não ocorre no mesmo nível da absolutidade. * Trindade, Potência criadora, Onisciência e Onipotência são aspectos. * O aspecto diferenciado é relativo em si. * Em relação às criaturas, o aspecto é principial. * Alguns crentes sustentam que Deus seria absoluto sob todo e qualquer aspecto e que a lógica do metafísico não se aplicaria a Ele, considerando perversa a ideia de relatividade das qualidades divinas, mas tal posição implicaria admitir que Deus tenha concedido ao homem uma inteligência incapaz de verdade sobre Ele, negando o teomorfismo humano e o enraizamento das leis da razão em Deus, o que tornaria inútil afirmar que o homem foi feito à imagem divina. * A objeção identifica Deus com absolutidade irrestrita. * A inteligência humana é dom ordenado ao conhecimento de Deus. * O teomorfismo concerne прежде de tudo à inteligência. * As leis da razão não podem ser arbitrárias. * Negar a raiz divina da razão contradiz a imagem de Deus. * As leis da inteligência e da razão refletem as leis do Intelecto divino e não podem opor-se à natureza de Deus, pois a inteligência, ordenada ao cognoscível, deve espelhar a Inteligência divina, razão pela qual o homem é dito feito à imagem de Deus, e a pretensa superação de Platão, Aristóteles e dos escolásticos revela antes incapacidade de compreendê-los do que obsolescência de seus princípios. * Inteligência deve corresponder ao cognoscível. * A imagem divina fundamenta a capacidade cognitiva. * Platão, Aristóteles e escolásticos são citados como referências. * A crítica moderna denuncia incompreensão. * A lógica não é incompatível com o divino. * A acusação de que a razão possuiria taras incompatíveis com a natureza divina não se sustenta, pois se o homem é feito para conhecer Deus, não poderia ter recebido instrumento cognitivo que produzisse o contrário da realidade, e o fato de certos filósofos negarem Deus decorre de desvinculação da razão de suas raízes e não de sua estrutura intrínseca, como o demonstram Platão e Aristóteles, além de se dirigir a crítica àqueles que supõem que a Revelação possa chocar frontalmente as inteligências sem oferecer mais que o pari de Pascal. * O conhecimento de Deus é exigência constitutiva. * A razão não obriga ao ateísmo. * Platão e Aristóteles afirmaram Deus. * A crítica alcança teólogos e não teólogos. * O pari de Pascal é mencionado como insuficiente. * Quando Deus se torna objeto da inteligência humana, é Ele mesmo que se conhece no homem, e a faculdade racional, ainda que não esgote todas as dimensões dessa ciência, é estruturalmente conforme a ela. * O conhecimento humano é participação no autoconhecimento divino. * A razão é conforme à verdade que conhece. * A conformidade não implica suficiência absoluta. * A estrutura racional reflete ordem superior. * A afirmação tradicional de que a razão não alcança Deus significa apenas que a razão isolada e privada de sua raiz intuitiva no Intelecto é insuficiente, não que seja intrinsecamente contraditória ao verdadeiro divino, pois nada do que é exprimível pode ser em si contrário à razão, e eventuais ilogismos decorrem de ignorância de dados ou de expressão elíptica. * A raiz intuitiva da razão é o Intelecto. * O inexprimível ultrapassa a razão isolada. * O exprimível não pode ser irracional por essência. * A elipse explica aparentes contradições. * A totalidade objetiva da inteligência humana distingue o homem do animal e manifesta-se na razão e na linguagem, cujo domínio é o da lógica, de modo que nada exprimível pode escapar legitimamente à lógica ou aboli-la, e nenhuma religião exige admitir que a inteligência possua taras inerentes que a coloquem em contradição com o que se deve crer. * Linguagem é sinal da totalidade intelectual. * Lógica rege o domínio do exprimível. * Nenhuma religião declara a inteligência intrinsecamente defeituosa. * A exigência de fé não implica irracionalidade. * A contradição formal não pode impor-se como verdade. * Os adversários da razão reduzem o espírito humano à mera lógica e negam a Intelecção, embora usem argumentos lógicos para defender a Revelação, recusando reconhecer que a lógica do metafísico platonizante ou védantino é retrospectiva em relação à Intelecção e adotando dois pesos e duas medidas ao reivindicar para si a exposição lógica de certezas suprarracionais. * A Intelecção é negada em favor de lógica restrita. * A lógica metafísica é subordinada à intuição. * Platonismo e Vedanta são mencionados. * Há incoerência metodológica. * Revelação é defendida por meios lógicos. * A necessidade lógica que levou Gregório Palamas a conceber as Energias divinas para mediar entre o deus absconditus e o mundo revela que mesmo conceitos apresentados como inspirados obedecem a exigências racionais, e a crítica que acusa platonizantes de artificialidade ignora que a rejeição depende de pressuposto confessional que impede reconhecer validade fora de determinada tradição. * Gregório Palamas é citado com as Energias. * Deus absconditus é mencionado como termo. * A inspiração do Espírito Santo é admitida. * Platonizantes são defendidos contra acusação. * O princípio confessional condiciona aceitação. * Embora a natureza divina não esteja submetida às leis da lógica, estas estão ontologicamente submetidas à natureza divina e a testemunham, e nos domínios em que se tornam inoperantes sem serem contrariadas a inteligência compreende que o formal não exprime exaustivamente o informal, sendo ainda que eventos como a concepção virginal, a presença real na Eucaristia, a ressurreição dos mortos ou milagres são logicamente conformes quando entendidos, pois a Onipotência não pode implicar que Deus seja simultaneamente e sob o mesmo aspecto absoluto e relativo, simples e diferenciado. * Leis da lógica procedem ontologicamente do divino. * Formal e informal são distintos. * Concepção virginal é citada. * Eucaristia e ressurreição são citadas. * Onipotência não implica contradição interna. * As religiões monoteístas são vias de salvação apoiadas por moral e mística e não primordialmente sistemas metafísicos explícitos, mas por exigirem totalidade oferecem implicitamente a verdade total no simbolismo universal de seus dogmas, como quando Padres da Igreja afirmam que Deus se fez homem para que o homem se torne Deus, e a doutrina do Verbo constitui um conjunto de referências metafísicas sem que se possa impor uma epistemologia exclusiva e contrária às demais. * Moral e mística acompanham a via salvífica. * O simbolismo ultrapassa o literal. * Padres da Igreja são mencionados. * A doutrina do Verbo fornece referências metafísicas. * Não há exclusividade epistemológica obrigatória. * O metafísico cristão é solidário aos dogmas por perceber sua verdade universal e não por reduzir o Absoluto a um aspecto relativo, e a diversidade doutrinal não impede a unanimidade luminosa das verdades essenciais. * A solidariedade decorre de percepção universal. * A redução do Absoluto é rejeitada. * A diversidade não anula a essência comum. * A unanimidade essencial é afirmada. * A divergência formal é secundária. * A Escritura jamais declarou que Pai, Filho e Espírito Santo ou o Senhor dos Exércitos constituam o Absoluto, exigindo-se crer em Deus Pai onipotente criador e não que tal Deus seja o Absoluto enquanto tal, pois a Essência divina não é outro Deus acima do Deus diferenciado, mas o mesmo Deus considerado fora de todo aspecto determinativo. * Pai, Filho e Espírito Santo são mencionados. * Senhor dos Exércitos é citado. * O credo refere-se ao Deus criador. * A Essência não é um segundo Deus. * O mesmo Deus é considerado sob outro aspecto. * A doutrina dos graus do Real indica a totalidade do conhecimento, sendo Shankara no Hinduísmo exemplo dessa consciência, ao passo que Râmânuja e exoterismos semíticos negam graus extintivos, e entre os gregos Platão manifesta essa consciência enquanto Aristóteles com seu hylomorfismo acentua a perspectiva horizontal, útil ao cientismo e a teologias mais cosmológicas que metafísicas. * Shankara representa totalidade no Hinduísmo. * Râmânuja é associado à negação de graus extintivos. * Platão expressa consciência vertical. * Aristóteles favorece horizontalidade. * O hylomorfismo serve ao cientismo. * A verdadeira inteligência, ao conhecer o Absoluto, conhece também o relativo e seu caráter ilusório, não sendo obrigada a considerar absoluto o que é apenas sublime ou dogmaticamente não qualificado quanto à relatividade, e tal conhecimento só é legítimo quando acompanhado de sinceridade existencial que harmonize conhecer e ser, sob pena de tornar-se mero som vazio. * O relativo é reconhecido como ilusório. * Sublimidade não implica absolutidade. * A sinceridade condiciona legitimidade. * Conhecer deve harmonizar-se com ser. * A metáfora do bronze que soa é evocada. * No espírito humano coexistem tendências de reduzir Deus ao mundo ou o mundo a Deus, sendo que a segunda pressupõe graus do Real e afirma o nada da manifestação diante do Princípio, enquanto a primeira resiste a tais graus e dilui tudo numa mesma existência. * A redução de Deus ao mundo mantém transcendência aparente. * A redução do mundo ao Princípio afirma nulidade da manifestação. * Graus do Real são pressupostos pela segunda tendência. * A primeira tendência nivela a existência. * A distinção entre Absoluto e relativo é decisiva. * A Incarnação, entendida como Deus feito homem, prova em linguagem cristã a divindade de princípio do Intelecto e exclui taras na razão incompatíveis com a natureza divina, pois as leis da lógica são sagradas como ontologia aplicada ao microcosmo racional, tendo por protótipo transcendente o Ser que mede suas possibilidades e, além da lógica, combinando necessidade e liberdade como artista e poeta. * Incarnação é citada como fundamento. * Leis da lógica são declaradas sagradas. * O Ser é protótipo da razão. * A Consciência divina é protótipo do Intelecto. * Necessidade e liberdade coexistem no homem. * A lógica não fundamenta a verdade, mas a verdade fundamenta a lógica, pois a Intelecção apreende além da lógica e esta intervém na explicação, enquanto o símbolo sugere à intuição sem se dirigir ao raciocínio discursivo. * Intelecção é comparada a visão. * Lógica é instrumento explicativo. * O símbolo atua como sugestão. * A verdade precede a formalização lógica. * A explicação exige recurso à lógica. * Ilógicos aparentes nas Escrituras ou nos escritos dos sábios resultam de elipse e dialética alusiva dirigida à intuição e à imaginação intelectual, cabendo aos comentadores restituir elos faltantes, não havendo direito sagrado ao absurdo. * A elipse explica contradições aparentes. * Dialética alusiva fala à imaginação intelectual. * Comentadores completam os encadeamentos. * A incoerência não é necessária. * A absurdidade não possui legitimidade. * A derivação de logikos de Logos indica simbolicamente que a lógica, reflexo mental da ontologia, não é arbitrária, mas fenômeno quase pneumatológico resultante da Natureza divina, situando-se entre natural e miraculoso no âmbito do naturalmente sobrenatural próprio do homem como pontifex, onde inerrância pode encarnar-se na natureza. * Logos é raiz etimológica de lógica. * A lógica testemunha a Natureza divina. * Naturalmente sobrenatural situa-se entre natural e miraculoso. * O homem é designado pontifex. * Inerrância pode encarnar-se no plano natural. * A inoperância eventual da lógica humana não deriva de seu caráter lógico, mas de sua condição humana sujeita a contingências psicológicas e materiais que a afastam de sua fonte onde coincide com o ser das coisas. * A limitação é contingencial. * A origem da lógica é transcendente. * Psicologia e matéria condicionam operação. * A fonte coincide com o ser. * A essência lógica permanece intacta. * A prática da meditação mostra que a intuição pode emergir por ocasião de operação racional provisória que atua como chave, desde que a inteligência disponha de dados corretos e de saúde moral fundada no sentido do sagrado, capaz de proporção e de intuição estética, pois todas as coisas estão interligadas. * A operação racional é causa ocasional. * Dados corretos são condição. * Saúde moral é necessária. * Sentido do sagrado fundamenta proporção. * A interconexão universal é afirmada.