====== NATUREZA E ARGUMENTOS DA FÉ ====== * A fé define-se como a conformidade da inteligência e da vontade com as verdades reveladas, comportando um aspecto participativo de certeza vertical e um aspecto separativo de obscuridade horizontal devido à limitação existencial do crente. * Fé como crença (volitiva) ou gnose (intelectual). * Certeza derivada da participação na Verdade. * Obscuridade resultante da separação entre o sujeito e o Objeto divino. * Incapacidade da razão bruta e do corpo de verem os mistérios celestes. * O conceito de fé deve manter sua polivalência e ilimitação interna para incluir a gnose, pois a restrição exotérica da inteligência à razão não abole a existência da faculdade intelectiva ou paraclética. * Distinção entre fé imutável (dogmas) e fé que aumenta (fervor/gnose). * Fé como adesão total da inteligência à Verdade transcendente. * Inadequação da oposição rígida "crer vs. ver" para a perspectiva sapiencial. * A relação entre Revelação e intelecção é de polaridade e complementaridade, onde a Revelação atua como uma intelecção macrocósmica para a coletividade e a intelecção como uma revelação microcósmica no indivíduo. * Necessidade da Revelação para atualizar e controlar a intelecção no Kali Yuga. * Ineficácia de intelecções extra-tradicionais. * Polos da fé: milagre (fato/graça) e verdade (ideia/certeza). * As perspectivas cristã e islâmica distinguem-se pela predominância dos argumentos de fé: o Cristianismo foca no milagre histórico e na vontade (Redenção), enquanto o Islã foca na evidência intelectual e na natureza das coisas (Unidade). * Cristianismo: ruptura moral, pecado original na vontade, necessidade de sacrifício. * Islã: esquecimento, inteligência incorruptível, necessidade de lembrete (dhikr). * Diferença entre o homem definido pela vontade ou pela inteligência. * A "lei da selva" ou seleção natural é reconhecida pelo Islã e Judaísmo como expressão do equilíbrio biológico da coletividade, a qual deve ser compensada no indivíduo pela caridade e pela espiritualidade. * Realismo biológico das religiões semíticas. * Caridade compensatória da fatalidade biológica. * Distinção entre leis coletivas e vocação espiritual individual. * A fé islâmica possui um elemento incriado e contínuo que persiste na vida futura, diferindo da visão cristã onde a fé cessa na visão beatífica, e enfatiza a sinceridade (ikhlâs) como aprofundamento em direção à Realidade (Haqîqah). * Fé como aceitação dogmática e convicção espiritual. * Hipocrisia (nifâq) como superficialidade ou inconsistência intelectual. * Conexão entre virtude (ihsân) e conhecimento unitivo. * As provas teológicas ou canônicas dirigem-se à razão e dependem da mentalidade coletiva a que se destinam, operando frequentemente através de um "espírito de alternativa" que exclui certas verdades para salvaguardar o dogma central. * Validade condicional dos argumentos racionais. * Exemplo da negação das causas secundárias no Asharismo para afirmar a Causa Única. * Exemplo da teologia cristã negando a emanação para evitar o panteísmo. * A razão, ao contrário do intelecto, explora a realidade por descobertas sucessivas e tem dificuldade em cumular verdades antinômicas, o que obriga a teologia a usar formulações elípticas ou exclusivas. * Contradição aparente entre "Deus é Luz" e "nada se assemelha a Ele". * Visão simultânea do intelecto (paisagem vista da montanha). * Função de proteção do dogma contra a divinização do mundo. * A perfeição dos Avatares e Profetas manifesta-se através de formas particulares que podem parecer imperfeitas ou limitadas quando vistas de uma perspectiva externa, análogo a como figuras geométricas perfeitas não são o círculo. * Sofrimento de Cristo visto como imperfeição pelo Budismo. * Caráter "terrestre" de Maomé visto como imperfeição pelo Cristianismo. * Cada forma revela a perfeição absoluta de modo distinto e necessário. * Os dogmas possuem uma função mística ou "alquímica" de conferir maneiras de ser espirituais, e a diversidade de sistemas religiosos é metafisicamente necessária, tal como a existência de múltiplos sistemas solares. * Dogmas como veículos de transformação e não apenas ideias. * Homem feito para viver em um único "sistema solar" espiritual. * Legitimidade e inevitabilidade da diversidade tradicional.