====== HOMEM NA PROJEÇÃO COSMOGÔNICA ====== * O irradiar criador coincide com o mistério da Mâyâ existencial, não da Mâyâ tout court, que engloba em seu cume o Princípio existenciante. * O mundo inteiro é Mâyâ, mas Mâyâ não é inteiramente o mundo. * A Essência divina, o Sobre-Ser, se reverbera na Relatividade dando lugar à Pessoa divina, ao Ser criador. * A questão do porquê da criação tem sua causa última na infinitude própria ao Absoluto: quem diz infinitude diz Toda-Possibilidade e, por consequência, transbordamento das potencialidades divinas, conforme o princípio de que o Bem tende a se comunicar. * Dizer que Deus criou o mundo por um ato livre de sua vontade serve apenas para sublinhar que Deus não age sob coerção. * Deus é obrigado a ser fiel à sua natureza e, por isso, não pode deixar de se manifestar por uma cadeia quase eterna de criações; essa cadeia, pertencendo à Mâyâ cósmica, não afeta a transcendência da Divindade. * As produções do irradiar criador são ao mesmo tempo sucessivas e simultâneas: sucessivas enquanto constroem o mundo ou emergem em seu espaço; simultâneas enquanto, o mundo desdobrado, constituem sua estrutura hierárquica. * A projeção universal não implica nenhuma emanação no sentido literal, e exclui toda evolução transformante, embora adaptações superficiais a um meio dado sejam sempre possíveis. * Trata-se de princípios que escapam às investigações empíricas mas não à pura intelecção, enraizada na própria substância do espírito humano. * A matéria aparece como o ponto de queda da trajetória existenciante, mas é apenas o modo mais exteriorizado e contingente da Substância cósmica. * A um ponto de vista inteiramente diferente, o término da trajetória manifestante é a forma-conteúdo — a coisa criada, reflexo mais ou menos distante de tal arquétipo divino. * Os reflexos das ideias englobam tanto os fenômenos positivos quanto os negativos, na medida em que estes comportam elementos positivos para poder existir. * Sob esse aspecto, a manifestação cósmica é globalmente um bem, pois representa as qualidades do Ser. * Outro modo da projeção cósmica é o acidente privativo, que dá conta diretamente do afastamento a partir da Fonte divina. * A manifestação não é o Princípio; o que é outro que Deus não pode possuir as perfeições de Deus, do que resulta o fenômeno privativo e subversivo que se chama o mal. * O raio cosmogônico, afundando-se no nada, acaba por manifestar a possibilidade do impossível; o absurdo não pode deixar de se produzir em algum lugar na economia do Possível divino — sem isso, o Infinito não seria o Infinito. * O mal não pode se opor à Divindade, que não tem oposto; opõe-se ao homem, que é o espelho de Deus e o movimento em direção ao divino. * Um modo que compensa e vence em certo sentido o fenômeno do mal, e que coroa todos os outros, é a reintegração: o movimento cosmogônico torna-se centrípeto e portanto circular; o círculo de Mâyâ se fecha no coração do homem deificado. * O término da projeção cosmogônica é o homem, ou mais precisamente: o intelecto percebendo o Absoluto, depois a vontade tirando as consequências dessa percepção. * A Toda-Possibilidade exige que Deus não apenas se projete, mas também realize a beatitude libertadora do retorno: de mesmo que um espelho realiza à sua maneira o sol que nele se reflete, o homem realiza seu modelo divino. * Ao modo de projeção cósmica que é o fenômeno humano acrescenta-se um modo secundário mas intrinsecamente central: o modo avatárico, a descida divina, a encarnação. * No quadro da humanidade decaída, a projeção humana inicial se repete pelo Avatâra a fim de restabelecer o equilíbrio e restituir ao homem sua vocação primeira. * O simbolismo da dança das gopis em torno de Krishna testemunha esse mistério. * A animalidade pode manifestar modos de decadência e de perfeição, mas a espécie animal não pode decair; só o homem, participando da liberdade divina, pode fazer mau uso dela. * Assim como o bumerangue está predestinado pela sua forma a retornar àquele que o lançou, o homem está predestinado pela sua forma a retornar ao seu divino protótipo. * O homem está condenado à transcendência, queira ou não. * O raio cósmico privativo e subversivo não é senão o princeps hujus mundi; a pior das perversões é a do homem, pois corruptio optimi pessima. * Próximos do orgulho estão a dúvida, a amargura e o desespero; o grande mal para o homem não é apenas se afastar de Deus, mas duvidar de sua Misericórdia. * No fundo mesmo do abismo a corda de salvação está sempre presente; a Mão divina está estendida, desde que o homem tenha a humildade e a fé para agarrá-la. * O mal se insinua em todas as ordens na medida do possível; o homem é tentado pelos vícios de exterioridade, superficialidade e mundanidade, mas o tormento está também na própria condição humana: o abuso da inteligência, caracterizável pelos termos titanismo, icarismo, babelismo, cientismo, civilizacionismo. * Não há excesso que não tenha sua fonte indireta em alguma verdade ou realidade: o niilismo e o desespero se referem abusivamente à ilusão universal; a autolâtria de certos pseudo-vedantinos se refere caricaturalmente ao aspecto de identidade que reduz Mâyâ a Atmâ. * O corpo humano é uma teofania sobrenaturalmente natural: sendo o homem imago Dei, seu corpo simboliza necessariamente o retorno libertador à origem divina e é, nesse sentido, memória de Deus. * O animal nobre exprime um aspecto da majestade divina, mas não manifesta o retorno libertador da forma à essência — permanece na forma, daí sua horizontalidade. * O corpo humano é vertical e sacramental, masculino ou feminino: a diferença dos sexos marca uma complementaridade de modo, não uma divergência de princípio. * A nudez sacral — como na Índia — exprime a exteriorização do mais interior e a interiorização do mais exterior; Lallâ Yogîshwarî é citada: e é por isso que, nua, eu danço. * Objeções à deiformidade física do homem baseadas no fato de que Deus não tem face anterior nem posterior e não pode caminhar são refutadas pela compreensão de que os níveis incomensuráveis dos pontos de comparação não abolem a analogia nem o simbolismo. * A face posterior é Mâyâ enquanto separa o Ser do Sobre-Ser; a face anterior é o Ser enquanto concebe as possibilidades a projetar; a marcha de Deus é essa projeção mesma. * A marcha divina em e por Mâyâ é um sonho da Divindade, que permanece única e imutável; somente para as criaturas esse sonho é uma exteriorização, uma creatio ex nihilo. * Não há virtude que não derive de Deus e que Ele não possua, o que coloca a questão paradoxal de saber se Deus possui a virtude de humildade. * A resposta é que o Deus pessoal não se opõe em nada à Divindade suprapessoal; o Ser não pode contradizer o Sobre-Ser; o Deus-Pessoa é submetido à sua própria Essência. * Assim como o Deus pessoal é em certo sentido humilde perante a Divindade suprapessoal, o homem deve se mostrar humilde perante seu próprio coração-intelecto, a parcela divina imanente. * O orgulhoso peca contra sua própria essência imortal, tanto quanto contra Deus e os homens. * Afirmar que Deus está além da oposição entre o bem e o mal significa que Deus vê as coisas sob todos os aspectos que as concernem, de modo que o mal não é para Deus senão um aspecto fragmentário, provisório e extrínseco de um bem que o compensa e finalmente o aniquila. * A afirmação sufi de que Deus não precisa de amar é malsoante por causa da ambiguidade do termo Deus, que se aplica a priori à Divindade personificada, enquanto a opinião mencionada concerne à Divindade suprapessoal. * Para o Sobre-Ser, os homens não existem; é apenas enquanto Ser que o Absoluto concebe a existência humana. * O grande ecúlho das teologias monoteístas é a confusão de fato dos dois níveis. * A perspectiva divina sobre o mal deve se repetir na alma humana, e é a primeira condição da via de retorno. * O homem ascendente não perde jamais de vista o ponto de referência categoricamente imperativo que é Deus: vê as coisas em seu contexto divino não por esforço acidental, mas por uma disposição profunda do coração. * Disso resultam para o homem todas as qualidades que dão sentido à vida: humildade e caridade, resignação à vontade do Céu e confiança na Misericórdia. * A humildade e a caridade — bem compreendidas e aplicadas — são critérios de sinceridade para o discernimento metafísico e para a união mística. * A alquimia espiritual do homem comporta duas dimensões: doutrina e método, ou verdade e via. * A verdade aparece como a palavra divina — uma descida; a via, como a resposta humana — uma subida. * Atmâ tornou-se Mâyâ a fim de que Mâyâ se tornasse Atmâ: a razão é que a Toda-Possibilidade implica a possibilidade para Deus de ser conhecido de fora e a partir de outro que ele. * A projeção cosmogônica afasta de Deus, mas no sentido de uma felix culpa; a Bíblia o atesta: E Deus viu que isso era bom; em linguagem budista: Que todos os seres sejam felizes. * Além dos ciclos da existência, a última palavra é da Beatitude, que coincide com o Ser e portanto com a essência de tudo o que é.