====== INTENÇÃO ====== * A primazia da intenção resulta do fato de que uma mesma ação pode ser boa ou má segundo a intenção, enquanto o inverso não é verdadeiro; mas isso não significa que se possa excusar toda ação imperfeita ou má alegando boa intenção. * Excusar parcialmente uma ação ou produção censurável em nome da boa intenção só tem sentido em cinco casos: quando o resultado negativo é contrário ao que o agente queria; quando a imperfeição é devida apenas a inabilidade acidental; quando há razões para supor que a intenção de uma pessoa notoriamente má foi boa no caso considerado; quando o agente é substancialmente incapaz de executar seu projeto satisfatoriamente; quando uma ação extrinsecamente paradoxal só é compreensível à luz de sua intenção espiritual, como ocorre com certos simbolismos eróticos que de jure e de facto se referem a realidades metafísicas. * Mas invocar a boa intenção para excusar sentimentalmente o autor responsável de uma obra censurável equivale a afirmar que as taras da obra têm direito à existência e que a subjetividade prima a realidade objetiva. * Excusar uma arte decadente e falsa sob pretexto de que a intenção do artista foi boa porque o conteúdo é religioso significa esquecer que o diabo pode querer prejudicar a religião através de crentes bem-intencionados. * A qualidade objetiva é uma das medidas da qualidade subjetiva, portanto da intenção: é pelos seus frutos que os reconhecereis. * A falsidade de uma produção artística ou literária pode manifestar uma tara fundamental: falta de conhecimento de si, desejo doentio de originalidade — portanto orgulho no fundo —, qualquer que seja a intenção superficial do autor. * Uma intenção pode ser boa sob um aspecto e má sob outro: é boa enquanto manifesta um sentimento religioso, e má enquanto o faz de forma incompatível com a religião, a santidade e a dignidade. * O intencionalismo e o sincerismo andam juntos: ser sincero, nesse sentido, é mostrar-se tal como se é, incondicionalmente e cinicamente, portanto contra todo esforço de ser o que se deveria ser. * A sinceridade só tem valor por seu conteúdo; o indivíduo deve à sociedade um comportamento correto, o que nada tem a ver com o vício da dissimulação. * O comportamento correto exige certo apagamento, enquanto a hipocrisia por definição é exibicionismo, grosseiro ou sutil conforme o caso. * O uso abusivo da noção de compreensão é sinal da mesma tendência: compreender um malfeitor não é necessariamente perdoá-lo. * O bom ladrão do Evangelho não foi ao Paraíso à toa, e santo Agostinho sabia o que fazia ao escrever as Confissões. * Os partidários da compreensão incondicional se guardam bem de compreender os que pensam de modo diferente — uma caridade de sentido único conduz necessariamente a uma justiça às avessas. * Há uma humildade, uma caridade e uma sinceridade que relevam da hipocrisia, portanto do satanismo: a humildade igualitária e demagógica, a caridade humanista e amarga no fundo, e a sinceridade cínica. * Há falsas virtudes cujo motivo é no fundo demonstrar a si mesmo que não se precisa de Deus; o pecado de orgulho consiste em crer que as virtudes são propriedade nossa e não dom do Céu. * Ser sincero e ter boa intenção significa, entre outras coisas, dar-se o trabalho de refletir e eventualmente de se informar, sobretudo em matéria grave. * As religiões e as sabedorias tradicionais são valores naturais — de forma sobrenatural — como o ar que se respira; não reconhecer o imperativo categórico dessa ecologia espiritual é atitude tão autodestrutiva quanto irrealista. * Nos dois polos da via contemplativa — a concentração mental e a intenção do coração —, a intenção prima a concentração: vale mais ter a intenção apropriada sem saber bem se concentrar do que saber se concentrar sem se importar com a boa intenção. * Deus escuta a intenção mesmo do incapaz, mas não pode aceitar a perfeição técnica do ambicioso e do hipócrita. * Sob outro aspecto, a qualidade da concentração é função da intenção precisamente. * O abuso da noção de traumatismo em clima de narcisismo psicanalítico merece exame: o homem só pode ser legitimamente traumatizado por monstruosidades; quem é traumatizado por menos do que isso é ele mesmo um monstro. * Um traumatismo não tem o direito de ser absoluto; está aí para ser vencido e posto a serviço da razão de ser da vida. * Muitos santos tinham razões para ser traumatizados, mas aceitaram as injustiças pelo amor de Deus. * É natural que um povo possa ser coletivamente traumatizado sem que isso implique todo indivíduo; a alma coletiva é passiva e não pode ter nem inteligência homogênea nem vontade livre precisa — razão a mais para não se deixar dominar por um psiquismo coletivo. * Para o sincerismo em voga, o segredo é coisa detestável; mas o homem tem um direito natural ao segredo: pode não mostrar um sentimento que só lhe diz respeito, e a fortiori uma graça espiritual. * A sinceridade consiste menos em se mostrar em tudo como se é do que em não querer parecer mais do que se é. * Para a mentalidade moderna, sinceridade é vulgaridade e vice-versa — o que pressupõe que o homem é normalmente vulgar; assim a vulgaridade tornou-se quase oficial. * A dignidade deriva da piedade, do temor e do amor; mesmo o pecador tem direito à dignidade visível, pois é homem feito à imagem de Deus. * O homem de natureza aristocrática — independentemente de classes sociais — é aquele que se domina e gosta de se dominar; o plebeu de natureza é ao contrário quem não se domina e não quer fazê-lo. * A intenção comporta essencialmente duas dimensões: primeiro, o bem deve ser feito; segundo, deve ser bem feito. * Realizar um bem implica igualmente realizá-lo bem: a execução deve estar à altura da ideia, o que exige tanto a sinceridade quanto a lógica. * Quanto à acentuação da intenção ou da ação: um legalismo excessivo verá na ação correta uma garantia de mérito; uma mística unitiva verá nas observâncias exteriores um formalismo secundário ou supérfluo. * Em princípio, a segunda atitude supera a primeira porque o interior prima o exterior — mas nesse caso trata-se de uma intenção intrínseca que se basta a si mesma e engloba concretamente as possibilidades de ação meritória. * Do ponto de vista do Cristo, a observância de uma prescrição só se impõe sob a dupla condição de que a prescrição expresse adequadamente sua razão de ser e de que o homem, agindo, realize essa razão de ser em sua alma: Tua Lei está no mais profundo do meu coração.