====== LÓGICA E TRANSCENDÊNCIA ====== ~~NOCACHE~~ ==== PREFÁCIO ==== * A classificação dos escritos situados fora da ciência e da filosofia modernas tende a gerar associações de ideias inadequadas que os colocam de imediato em categorias consideradas depreciativas como «ocultismo», «sincretismo», «gnosticismo», «intelectualismo» e «esoterismo». * A opinião corrente procede por classificações sumárias que desqualificam saberes espirituais ou tradicionais. * Tais categorias são aplicadas sem distinção a obras que escapam aos quadros da ciência e da filosofia modernas. * O efeito dessas classificações é frequentemente depreciativo ou redutor. * A noção de «ocultismo» deriva originalmente das vires occultae — forças invisíveis da natureza — e dos occulta dos antigos mistérios, mas o ocultismo moderno reduz-se sobretudo ao estudo empírico e incerto de fenômenos extra-sensíveis sem base doutrinal. * Origem do termo ligada às forças invisíveis da natureza e aos segredos dos antigos mistérios. * O ocultismo moderno consiste essencialmente em investigação empírica de fenômenos extra-sensoriais. * Tal investigação apresenta caráter aleatório devido à ausência de doutrina fundamental. * O campo do ocultismo vai da experimentação empírica a especulações e práticas pseudo-religiosas. * A ignorância ou interesses depreciativos levaram a qualificar como «ocultismo» doutrinas autenticamente esotéricas. * A situação equivale a chamar ocultistas aos verdadeiros místicos por também se ocuparem do invisível. * A noção de «gnosticismo» exige distinção entre a gnose em si e o gnosticismo histórico e herético representado, por exemplo, por Valentim. * A gnose distingue-se do gnosticismo histórico de caráter herético. * A presença de uma gnose em toda religião corresponde à própria natureza das coisas. * A gnose coincide com o esoterismo, embora este inclua também dimensão mística volitiva e emocional semelhante à bhakti hindu. * O grau de gnose constitui um esoterismo quase absoluto. * O grau de amor constitui esoterismo relativo e condicional enquanto método. * O amor participa igualmente da dimensão do conhecimento, assim como a beleza. * Esse grau forma uma ponte entre gnose e crença religiosa comum ou exotérica. * O Cristianismo interiorizou a Lei das prescrições e a própria messianidade. * Daí decorre o mal-entendido fundamental entre Judaísmo e Cristianismo. * O Cristianismo nascente opôs-se ao Judaísmo legalista e formalista, mas não ao Essenismo. * A oposição manifesta-se como relação entre espírito e letra ou entre essência e forma. * A ruptura do quadro formal do Mosaísmo em nome da essência conferiu ao Cristianismo função esotérica. * Esse esoterismo assumiu forma de esoterismo de amor capaz de tornar-se exotérico de fato. * Apesar disso, conservaram-se virtualidades esotéricas, inclusive as da gnose. * Os termos «mística» e «misticismo» são frequentemente usados de maneira abusiva para designar qualquer realidade interior ou intuitiva, embora designem propriamente um contato interior não apenas mental com realidades direta ou indiretamente divinas. * A mística corresponde ao contato interior com realidades divinas. * A associação com espiritualidade de amor decorre do contexto europeu cristão. * A identificação da mística com o irracional constitui erro. * A intuição espiritual situa-se acima da razão, sendo suprarracional. * O uso legítimo do termo corresponde ao emprego tradicional da teologia. * Outro uso legítimo baseia-se na referência etimológica da palavra. * Esses usos não possuem relação com intenções maliciosas nem com abusos linguísticos. * A acusação de «sincretismo» é frequentemente aplicada de maneira indevida a saberes espirituais que reconhecem a verdade única presente em diversas tradições à luz da Sophia perennis. * O verdadeiro sincretismo consiste em fabricar doutrina a partir de ideias dispersas. * Diferente disso é reconhecer a unidade da verdade em tradições diversas. * Tal reconhecimento baseia-se na Sophia perennis. * Acusação próxima consiste em interpretar ideias estrangeiras à luz de conceitos familiares. * Essa crítica pode ser legítima em certos casos. * Não é necessariamente válida quando uma noção estrangeira é explicada mediante conceitos conhecidos. * A unidade da verdade corresponde também à unidade fundamental da humanidade. * A inexistência de equivalentes exatos entre culturas não implica inacessibilidade das ideias. * Ideias mongóis podem ser compreendidas por europeus. * Conceitos indígenas norte-americanos como wakan, manito e orenda carecem de equivalentes europeus exatos. * Conceitos análogos podem ser descritos mediante linguagem europeia. * O conceito japonês de kami constitui quase equivalente dessas noções. * Tais conceitos designam formas de teofania ou manifestação de um «gênio» cosmicamente e metacosmicamente ativo. * Uma perspectiva metafísica qualificada como «panteísta» leva a perceber nos fenômenos o gênio que transcende sua acidentalidade. * Esse gênio manifesta-se como testemunho do Céu através dos fenômenos. * A unidade profunda da humanidade torna possível a compreensão entre povos. * As divergências de pensamento não anulam essa unidade fundamental. * Paixões e fraquezas humanas apresentam notável uniformidade. * A acusação de «intelectualismo» pressupõe que toda interpretação simbólica profunda seria artificial e que as religiões primitivas teriam sido compostas apenas de conceitos rudimentares. * A hipótese implica negar autenticidade ao simbolismo. * Tal concepção reduz a religião a conceitos grosseiros. * O simbolismo seria considerado produto intelectual posterior. * A hipótese é apresentada como certeza apesar de sua inconsistência. * A simples existência dessa opinião basta para registrar sua presença. * A noção de «esoterismo» permanece exterior e suspeita aos olhos dos não esoteristas, pois se apresenta como conceito interno a um domínio que o exotérismo literalista e exclusivista aceita com dificuldade. * O exotérismo corresponde à religião literalista e exclusivista. * A dificuldade de admitir o esoterismo possui causas compreensíveis. * A situação do mundo na época atual enfraquece o dogmatismo exclusivo. * Os dogmas são necessários enquanto bases imutáveis. * Os dogmas possuem dimensões internas e inclusivas. * O dogmatismo necessita hoje de elementos esotéricos para se manter. * Sem esses elementos abre-se espaço a erros mais graves do que a gnose. * A busca de solução desloca-se para ideologias filosóficas e cientistas. * O universalismo espiritual é substituído por um ecumenismo sentimental e indistinto. * A posição oposta do literalismo religioso estrito pode subsistir em sistemas culturais fechados, mas torna-se insustentável em um mundo onde tradições se encontram e se interpenetram. * A interpretação abusiva de uma frase de São Paulo afirma que todo culto a outro deus seria culto a Satanás. * São Paulo referia-se a cultos pagãos presentes no ambiente mediterrânico de seu tempo. * O conhecimento das tradições orientais impede considerar seus adeptos como demoníacos. * A existência de milhões de muçulmanos que adoram Deus diariamente confirma essa impossibilidade. * A teologia cristã admite a possibilidade de salvação universal pela graça de Cristo. * Apesar disso, a aplicação literal da frase de São Paulo ainda ocorre. * Tal atitude aparece em reação ao ecumenismo dissolvente. * O exclusivismo torna-se então princípio espiritualmente compreensível, mas historicamente irrealista. * A defesa de uma religião contra todas as outras torna-se impraticável. * Tal atitude equivale a defender o sistema de Ptolomeu contra evidências astronômicas verificáveis. * A solidariedade espiritual necessária não exige compreensão metafísica completa. * Uma compreensão parcial pode bastar para a maioria. * Questões insolúveis podem ser provisoriamente suspensas. * O objetivo não consiste em generalizar uma compreensão metafísica total. * Busca-se apenas compreensão suficiente para preservar o patrimônio religioso contra o cientismo. * Busca-se igualmente solidariedade lógica entre aqueles que admitem transcendência e imortalidade. * A designação de «escola» ou «tendência» não implica adesão automática a todas as teses formuladas em nome de princípios metafísicos ou tradicionais. * A responsabilidade limita-se às posições efetivamente expressas. * Nenhuma tese é adotada apenas por pertencer a determinada escola. * A categoria de «tradicionalismo» possui sentido amplo e não necessariamente depreciativo. * Contudo essa designação frequentemente evoca a imagem depreciativa de nostalgia do passado. * Tal associação constitui argumento arbitrário e desonesto contra posições doutrinais. * A crítica confunde apego a valores verdadeiros com apego sentimental ao passado. * A analogia equivale a considerar o reconhecimento de uma verdade aritmética como obsessão pelos números. * Admitir o verdadeiro e o justo pode ser chamado ironicamente de nostalgia do passado. * Outras imputações associadas à tradição, como «romantismo», «esteticismo» ou «folclore», possuem legitimidade quando relacionadas à tradição ou à natureza intacta. * Essas dimensões são assumidas quando vinculadas à tradição. * A beleza corresponde à manifestação da verdade. * A percepção da beleza não implica falta de seriedade intelectual. * A sensibilidade estética aparece como aspecto legítimo da realidade. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}