====== DOUTRINA DA ILUSÃO ====== * A doutrina metafísica da ilusão não constitui solução fácil nem autoriza nivelamento cômodo no plano fenomenal, pois nenhuma realização legitima afirmar que dois e dois fazem cinco ou que o preto é branco sob pretexto de que números e cores são ilusórios. * A distinção entre realidade e ilusão não elimina exigências de verdade no plano relativo. * O jnâna operativo pode degenerar em redução de tudo a um único motivo intelectual e experimental. * O nivelamento apaga diferenças qualitativas contra a natureza das coisas. * A função do Intelecto unifica por dentro e discerne por fora. * Síntese metafísica não equivale a nivelamento físico. * O nivelamento torna-se grave quando desqualifica coisas sagradas como inferiores. * A religião não é de origem humana mesmo sendo inferior à conhecimento supremo. * Há coisas que são vontades de Deus e não invenções humanas. * Os milagres do Cristo não são siddhis disponíveis à vontade, mas manifestações divinas. * O Cristo não é homem tornado sábio, mas a Sabedoria tornada homem. * A fórmula tudo é Atmâ ou Mâyâ não autoriza confundir corda e serpente. * Não existe síntese verdadeira sem discernimento. * O Vedânta é discriminação entre real e irreal e investigação da verdadeira natureza. * A discriminação vertical entre Sachchidânanda e nama-rûpa exige discriminação horizontal das qualidades gunas. * Certos teóricos vedantinos, para afirmar a realidade exclusiva do Si como testemunha interior, negam a realidade do objeto como se o mental criasse o mundo, esquecendo que uma polaridade não tem sentido sem o termo oposto e que as Escrituras ensinam o contrário. * Reduzir objeto a sujeito não explica a causa do mundo. * A redução não explica a homogeneidade pela qual todos veem o mesmo sol. * O único argumento válido situa a ilusão como sonho coletivo e não sonho de indivíduo singular. * Se fosse ilusão individual, cada indivíduo sonharia mundo diferente. * O sujeito coletivo inclui toda a humanidade e, em escala maior, todas as criaturas terrestres. * A homogeneidade empírica decorre de solidariedade num sonho cósmico com sensibilidade comum. * A montanha é montanha para uma formiga e não é atravessável como se fosse sonho individual. * Existe um ser terrestre multiforme com graus e compartimentos, centrado no estado humano. * Reações homogêneas incluem calor e luz do sol e impenetrabilidade da rocha. * O ser coletivo estende-se além do terrestre, pois a sensação sol pode ocorrer também para seres extraterrestres. * Um cosmos particular é sistema fechado apenas relativamente, pois a Existência é una. * Só o Universo total pode ser chamado sonho puro e simples, por exigir sujeito único. * No sujeito único da Alma universal, sonho equivale a mâyâ. * O céu estrelado é sonho enquanto concebido pela Alma universal em jogo livre motivado pela Beatitude. * A abóbada estelar é imaginação de camada universal da consciência e não do ego. * O Homem universal sonha e os indivíduos sonham nele e com ele. * Ao olhar do Absoluto não há diferença entre objetos de vigília e de sonho, mas na realidade relativa existe diferença eminente, pois a vigília tem maior universalidade e, portanto, maior realidade que o sonho. * Objetos externos são percebidos por múltiplos sujeitos no espaço e no tempo. * No sonho há um único sujeito que é também objeto por criar imagens de sua substância. * Objetos externos podem ser sujeitos, e ser percebido não altera sua realidade. * Na vigília pode-se saber que o mundo é ilusório, enquanto no sonho isso pode faltar. * A vigília prima no sujeito pelo grau de universalidade em relação à obnubilação onírica. * Quem afirma indistinção absoluta age como se não cresse nela ao comer, falar e fugir de um touro. * A posse de olhos e ouvidos obriga ao discernimento de relatividades com ou sem visão de Atmâ. * No sonho, atos ocorrem sem plena lucidez e liberdade. * Negar diferença ontológica e agir desperto não tem desculpa por supor-se sonho e ilusão. * No sonho ocorrem milagres como flutuar no vazio, e a sinceridade exigiria repeti-los na vigília. * Se vigília e sonho fossem equivalentes na relatividade, seria indiferente ser sábio sonhando ser tolo ou tolo sonhando ser sábio. * A questão decisiva é quem é o sujeito, pois a incapacidade de fazer cessar uma montanha na vigília prova que o eu singular não é sujeito criador da montanha enquanto ilusão, embora a montanha permaneça ilusória no plano do sujeito universal e possua realidade relativa maior que imaginações para o ego. * O eu singular é sujeito acidental para a montanha. * A montanha depende de sujeito criador diverso do eu singular para existir como ilusão. * A montanha é ilusória para o Intelecto no ponto de vista universal. * A montanha tem realidade relativa para o ego e supera a realidade de imaginações. * A realidade comporta graus ao lado de seu aspecto absoluto. * Não é coerente existir e agir e ao mesmo tempo negar a Existência ou a causa da atividade. * Rejeitar o mundo como produto do mental individual impede também reduzir o mal do mundo à mera projeção de defeitos pessoais, pois isso conduziria à abdicação da inteligência e a monismo cômodo, enquanto há fenômenos cósmicos conformes ou contrários ao Ser puro que não podem ser ignorados por criaturas dotadas de entendimento. * A tese de que para o homem bom tudo é bom é inadmissível no mesmo registro. * Uma via de conhecimento torna-se inútil se termina em monismo inoperante. * O mal se reduz em última análise a tendência integrante do equilíbrio universal. * No plano das coagulações cósmicas há fenômenos conformes ou contrários ao Ser puro. * Sat é associado a sattwa como conformidade ao Ser. * Negar distinções de conformidade e contrariedade desautoriza Escrituras e bom senso. * Em metafísica é necessário colocar cada coisa em seu lugar. * A origem da ilusão não se ajusta a todas as exigências de causalidade e não requer solução no sentido comum, pois certas demonstrações são suficientes em si e sustentam a doutrina ao afirmar que a infinitude da Realidade implica a possibilidade de sua própria negação, realizada numa dimensão interna nem real nem não real. * A infinitude da Realidade implica possibilidade de negação da Realidade. * A negação é impossível no Absoluto e por isso se realiza fora dele. * A realização ocorre numa dimensão interna que é real em seu nível e irreal diante da Essência. * O Absoluto é tocado em toda parte e não pode ser abandonado. * O Absoluto é simultaneamente infinitamente distante e incircunscritível por pensamento.