====== HÁ UMA MÍSTICA NATURAL? ====== * O conceito de uma mística natural funciona como petição de princípio para rebaixar espiritualidades fora de certa religião tida como a única sobrenatural, atribuindo-lhes fechamento no criado e tratando eventuais graças a santos não cristãos como irregulares e acidentais. * A espiritualidade extra-campo é apresentada como atingindo apenas centro ou ápice do criado, sem o poder de ultrapassá-lo. * Deus é suposto intervir diretamente apenas na religião considerada a única sobrenatural. * Graças concedidas a um santo não cristão são admitidas como exceções sem vínculo com sua religião. * A objeção principal afirma que o criado não pode ser absolutamente criado, pois não existe relatividade absoluta sem que o criado se confunda com o nada, de modo que o incriado permanece oculto no natural e pode ser alcançado em princípio pelo Intelecto. * A inexistência de participação do incriado tornaria o criado indistinto do nada. * O sobrenatural encontra-se oculto no natural e é acessível ao Intelecto. * O Intelecto contém essencialmente um elemento incriado. * Os dois polos sobrenaturais do criado são a Existência pura e o Intelecto puro. * O sobrenatural é ser e inteligência, realidade e consciência. * A tese da mística natural nega a transparência metafísica e reduz as criaturas à projeção separativa. * O divino não é contido pelo mundo, mas é acessível a partir de suas traces cósmicas, pois a Existência das coisas e a Conhecimento do sujeito abrem vias concretas ao Absoluto sem implicar panteísmo ou panenteísmo. * O mundo não é Deus nem contém Deus como conteúdo. * O mundo, por existir, é aspecto de sua Causa divina e algo de Deus. * A Divindade é absolutamente transcendente e presente no centro de toda realidade cósmica. * O mundo demonstra qualidade divina pelo milagre de sua Existência. * O mundo demonstra qualidade divina por seu simbolismo múltiplo e inesgotável que manifesta o Infinito. * O Intelecto é divino por ser cognoscente e por reduzir fenômenos ao Princípio. * O Intelecto vê a Causa em todos os efeitos e supera a multiplicidade devorante do fenômeno. * A Existência diversifica e dispersa enquanto a Inteligência reconduz à unidade, de modo que toda coisa existente envolve a Existência e, em última instância, a Realidade absoluta, e todo ato de conhecer envolve o Princípio do conhecimento, o Sujeito divino além da polarização sujeito-objeto. * A multiplicidade dos sujeitos decorre de sua inserção na Existência. * A unidade da Existência universal decorre de sua procedência do Intelecto divino. * Em toda coisa existente há tudo o que existe, incluindo a dimensão existencial e a realidade absoluta. * A Existência avança como dimensão ilusória em direção ao nada. * Em todo ato de conhecer há tudo o que conhece, isto é, o Sujeito divino ou o Si. * O Sujeito divino é em si mesmo além de sujeito e objeto. * A exposição não implica naturalismo, pois o Intelecto não basta de fato para a salvação nem opera sem sabedoria tradicional, mas, quando despertado por uma sabedoria preexistente, basta para discernir em que consiste a salvação e suas condições. * O Intelecto precisa do sobrenatural objetivo de modo acidental e não essencial. * Uma vez despertado por seu correlato exterior, objeções extrínsecas deixam de ter pertinência. * Negar prova da validade do Intelecto é contradição, pois toda prova supõe o próprio Intelecto. * A impossibilidade de convencer certas inteligências não invalida a evidência da verdade. * Se a evidência intelectual fosse ilusória, as provas externas o seriam ainda mais. * Fenômenos existem para a inteligência e não inversamente. * A existência simultânea de inteligência e inteligibilidade exclui as hipóteses de ilusão total. * Declarar um polo do universo ilusório em seu próprio plano conduz a nihilismo integral. * A distinção entre perspectiva intelectual unificante e perspectiva existencial separativa opõe transparência metafísica a cosmocentrismo fenomenista, exigindo combinação de ambas por serem válidas sob aspectos diferentes. * A perspectiva unificante vê tudo sob unidade, inclusive a Existência. * A perspectiva separativa vê tudo sob separatividade, inclusive a Inteligência. * A visão separativa compara o mundo a círculos concêntricos que refletem o centro sem alcançá-lo. * A visão unificante compara o mundo a uma estrela em que raios ligam periferia e centro. * A transparência metafísica vê Deus em tudo o que existe e o realiza de certo modo no Intelecto. * As coisas são separadas do Princípio enquanto coisas, sem continuidade possível nesse registro. * As coisas, por realidade essencial e simbolismo imediato, não são outras que o Princípio, sob outro registro. * A combinação de imagens sugere a teia de aranha como símbolo do cosmos. * A espiral marca continuidade divina ao atingir o centro. * Raios convergindo para vazio luminoso sugerem infinitude do Centro divino. * As imagens visam mostrar que o sobrenatural reside primariamente na natureza das coisas e não em condições fenomenais exclusivas, de modo que tais condições podem auxiliar a atualização espiritual sem legitimar monopólio do sobrenatural. * Condições fenomenais podem somar-se ao sobrenatural existencial e intelectivo. * A função circunstancial dessas condições exclui monopólio único do sobrenatural. * O sobrenatural possui caráter universal por residir na estrutura metafísica do criado. * O sobrenatural oferece-se onde houver receptividade correspondente. * A receptividade é indicada pela existência de sabedoria correspondente onde se alegaria mística natural. * Védantismo shankariano e Dhamma podem parecer racionalistas por dialética externa e técnica. * O caráter transcendente das doutrinas e a presença de iniciações indicam origem sobrenatural. * Vishnouísmo e Amidismo configuram vias de graça e misericórdia sem racionalismo predominante. * O termo mística natural pode ter algum uso apenas para designar confusões humanas, mas nesse caso aponta para falsa mística que ignora o sobrenatural, enquanto as tradições orientais mostram sabedorias que, como receptáculos de vida divina, não podem carecer do conteúdo correspondente. * Uma mística inteiramente humana pode existir como possibilidade de confusão. * O termo mística natural equivale a erro ou abuso de linguagem quando aplicado a sabedorias autênticas. * É falsa a mística que nega o sobrenatural ou o usurpa, separando-se do mistério. * Tradições orientais milenares indicam presença de conteúdo divino correspondente. * O Espírito sopra onde quer. * A contradição do postulado mística natural e de seu complemento, o sobrenatural judaico-cristão, reside na inversão dos termos, chamando natural uma sabedoria que transcende a natureza e chamando sobrenatural fatores que permanecem no domínio fenomenal. * Sabedorias estrangeiras são acusadas de irrealismo por não se limitarem ao fenômeno. * Especulações no limite do exprimível são tratadas como sonhos abstratos. * Tal juízo implica incompetência metafísica. * O fenômeno passa a operar como deus ex machina em detrimento da verdade supra-fenomênica. * Petição de princípio substitui a evidência e os direitos do que é essência. * A falsidade do postulado aparece em fissuras lógicas disfarçadas de análise objetiva. * A hipótese de mística natural transforma diferenças tradicionais em desvios diante de uma religião única e leva a interpretações depreciativas de outras formas, como ao tratar sutras mahâyânicos como artifícios poéticos sem causa proporcional. * A impressão do Cântico dos Cânticos sobre um monge budista é ignorada como problema de receptáculo. * Sutras mahâyânicos são reduzidos a fantasia estética. * A potência moral e espiritual do Grande Veículo, sua vitalidade e profundidade artística não se explicam por fantasmagorias. * A amplitude histórica e cultural do efeito reflete qualidade do motor primeiro. * A alegação de incompatibilidade entre karma e misericórdia de Amitâbha é respondida pela analogia com a predestinação e a redenção cristã, indicando que tensões desse tipo não são exclusivas. * Predestinação decorre do conhecimento divino do destino das criaturas. * Predestinação opõe-se tanto quanto se opõe o karma à misericórdia. * A potência redentora do Cristo não é anulada pela predestinação. * A preferência por uma perspectiva em que Deus prime o paraíso, contra a perspectiva budista em que o Nirvana prime o Buda, deriva de horror antimetafísico ao nada e do desejo de manter o humano no divino, absolutizando homem e história. * No Budismo, o Budha aparece como expressão do Nirvana. * A expressão é qualificada como ilusória em certo registro. * No judaico-cristianismo, o paraíso pode reduzir-se a Deus de certo modo. * A rejeição da primazia do Nirvana liga-se ao desejo de não perder contato com o humano. * Busca-se instalar o humano e o individual no Divino e colocar o Absoluto num humano sublimado. * A absoluidade do homem e da história produz humanização e historicização do Absoluto. * O argumento do milagre sustenta que sinais sobrenaturais de causa divina, ocorrendo na natureza, corroboram verdade e santidade em diversas religiões e não podem ser verdadeiros num lado e falsos em outro sem absurdo da condição humana. * Não se trata de prodígios lendários, mas de sinais com causa divina. * Deus favorece seus eleitos por sinais que fortalecem a fé dos fiéis. * Hônen Shônin, do Amidismo japonês, apresentou luminosidade e leitura noturna sem luz. * Fenômenos análogos foram observados na grande Teresa em séculos posteriores. * Hônen teve visões de Buddhas e Bodhisattvas, às vezes compartilhadas pelo entorno. * Místicos do Ocidente viram o Cristo e a Virgem com clareza análoga. * Curações, levitação e bilocação aparecem como fatos recorrentes em várias religiões. * A semelhança e a quantidade de milagres inter-religiosos exigem sentido e excluem assimetria de verdade sob pena de absurdo.