====== DIVERSIDADE DA REVELAÇÃO ====== * A unicidade da Verdade não implica unicidade de Revelação ou de Tradição, porque a Verdade está além das formas e a Revelação é formal, e forma implica limitação, diferenciação e pluralidade. * A forma introduz número, repetição e diversidade. * O princípio formal, inspirado pela infinitude da Possibilidade divina, diversifica a repetição. * A diferença dos receptáculos humanos determina a diferença das formas da Verdade. * A humanidade divide-se há milênios em ramos distintos, constituindo humanidades relativamente fechadas. * Os receptáculos espirituais podem ser grupos variados submetidos a condições mentais homogêneas. * O coletivo humano não é absoluto, e indivíduos podem ultrapassar esses quadros. * As Revelações não se contradizem realmente por não se aplicarem ao mesmo receptáculo. * Deus não dirige o mesmo mensagem a receptáculos de caracteres divergentes. * Contradição só ocorre no mesmo plano. * Antinomias aparentes equivalem a diferenças de linguagem e símbolo. * Contradições pertencem aos receptáculos humanos, não a Deus. * A diversidade do mundo depende de seu afastamento do Princípio divino. * A exclusão relativa entre Revelações decorre do fato de que Deus fala em modo absoluto, mas essa absoluidade concerne sobretudo ao conteúdo universal, sendo relativa e simbólica quanto à forma. * A forma simboliza o conteúdo e a totalidade humana a que ele se destina. * Deus não compara Revelações de fora, como um sábio. * Deus situa-se no centro de cada Revelação como se ela fosse a única. * A Revelação fala linguagem absoluta por causa da absoluidade de Deus. * A absoluidade da Revelação é absoluta em si e relativa pela forma. * A linguagem das Escrituras é divina e ao mesmo tempo humana, de modo que só pode ser divina de maneira indireta, revelando a desproporção entre intenção celeste e expressão mortal. * Palavras e lógica humanas não alcançam a intenção celestial. * A linguagem humana não considera as coisas sub specie æternitatis. * O Verbo incriado rompe a palavra criada e a ordena para a Verdade. * A transcendência divina manifesta-se diante das limitações da lógica humana. * O homem ultrapassa tais limites pela conhecimento metafísico, fruto da intelecção pura. * O amor toca as essências e também ultrapassa limites. * Reduzir a Verdade divina aos condicionamentos terrestres ignora a desmedida entre finito e Infinito. * A exigência de unicidade ligada à absoluidade da Revelação não pode realizar-se como fato absolutamente único, pois só a Realidade é única em sentido pleno, ao passo que os fatos comportam unicidades relativas que coexistem com a diversidade. * Deus, Substância universal e Espírito divino imanente são únicos sob diversos graus. * A Revelação pode ser fato relativamente único. * Se não houvesse unicidades factuais, a diversidade seria absoluta, o que é contraditório. * Unicidade e diversidade devem manifestar-se, ambas de modo relativo. * A diversidade não abole a unidade substancial que a sustenta. * A unidade deve ser contradita por diversidade no próprio plano de existência. * O fato único ocorre na parte, não na totalidade de um cosmos. * Um fato é único por representar Deus para certo meio, não por existir absolutamente. * A existência repete o símbolo fora do quadro providencial onde ocorre o fato único. * A diversidade contradiz a unicidade fora desse quadro para indicar que só o Verbo incriado não-manifestado é absolutamente único. * A objeção de que uma Revelação é única no mundo quando ocorre é respondida pela distinção entre unicidade de fato e unicidade de princípio, e pela extensão da diversidade tanto no tempo quanto no espaço. * A diversidade não precisa ser simultânea, podendo ocorrer por sucessão temporal. * Um fato pode parecer único por certa duração sem ser único em sentido absoluto. * Unicidade espacial não implica unicidade temporal, e inversamente. * Não é possível afirmar unicidade absoluta de gênero por não se poder medir tempo, espaço e modos desconhecidos. * A questão envolve o gênero ou a qualidade, não a particularidade. * A analogia do sol mostra que uma unicidade válida num sistema pode ser desmentida por multiplicidade em escala maior, sem perder sua eficácia providencial no domínio próprio. * O sol é único no sistema solar, mas não no espaço. * Outros sóis são visíveis como estrelas, não como sóis. * A unicidade do sol é contrariada pela multiplicidade das estrelas fixas. * A unicidade vale no sistema determinado pela Providência. * A parte manifesta unicidade e representa a totalidade para o espírito humano limitado às formas. * A parte é totalidade sob o aspecto da eficácia espiritual. * A diversidade observável em raças, línguas, ciências e artes torna coerente a diversidade religiosa, já que a diversidade de receptáculos humanos implica diversidade formal dos conteúdos divinos, sem alteração da essência. * Não existem raças falsas contrapostas a raças verdadeiras. * A multiplicidade de línguas é aceita como legítima. * A diversidade de ciências e artes é igualmente reconhecida. * A diversidade religiosa concerne à forma e não à essência. * Cada religião apresenta-se necessariamente como a religião no próprio plano, assim como cada raça e cada língua se apresentam como o homem e a língua, e a prática explícita de uma religião implica implicitamente todas. * Em cada raça, o homem aparece como homem tout court. * Em cada língua, a língua aparece como a língua no próprio terreno. * A comparação relativizante explícita não faz sentido diante do fim a atingir. * Dizer religião implica religião única no plano respectivo. * Praticar explicitamente uma religião implica praticar implicitamente todas. * A diversidade étnica e a vastidão geográfica tornam altamente improvável uma religião única para todos e tornam provável a necessidade de pluralidade, sendo absolutos apenas a metafísica pura e a oração pura. * A religião única enfrenta contradição entre reivindicações de absoluidade e universalidade e impossibilidade psicológica e física de realização. * Há antinomia entre essas reivindicações e o caráter relativo de toda mitologia religiosa. * Metafísica pura e oração pura são absolutas e universais. * A mitologia é indispensável para que a verdade essencial se enraíze numa coletividade humana. * A mitologia contém verdade e eficácia em seu conteúdo intrínseco. * A religião, como fato sobrenaturalmente natural, prova-se extrinsecamente pela universalidade humana, e a pluralidade e ubiquidade do fenômeno religioso sustentam a religião como tal. * A universalidade do fenômeno religioso funciona como argumento a favor da religião. * A planta orienta-se infalivelmente para a luz como imagem de orientação verdadeira. * O homem não se engana ao seguir a Revelação e a tradição. * Há instinto infalível nos animais e instinto sobrenatural nos homens. * O homem pode contrariar a natureza, violando-a ou ultrapassando-a.