====== VICISSITUDES DOS TEMPERAMENTOS ESPIRITUAIS ====== * A natureza humana tende a enclausurar-se em alguma limitação, tendência intensificada numa época que destrói quadros de universalidade, de modo que o bhakta arrisca negligenciar a verdade objetiva e o jnânî arrisca negligenciar as perfeições humanas e o vínculo humano com Deus. * A distinção amor-conhecimento ou bhakti-jnâna estrutura duas alternativas: caridade-egoísmo e verdade-erro. * O bhakta é volitivo e afetivo e pode subestimar a verdade objetiva. * O jnânî é intelectivo e pode subestimar perfeições humanas e ligação humana com Deus. * A referência recai sobre tipos espirituais, não sobre realizações plenas. * O jnânî pode carecer de caridade como gênio intelectual preso à teoria, mas não como espírito realizado. * A bhakti comporta realizações mais elementares e fáceis por não ultrapassar necessariamente o humano. * A bhakti é concebível fora da intelectualidade estrita e, parcialmente, fora da ortodoxia estrita. * Uma perfeição bhaktica sem elemento intelectual equivale a corpo sem esqueleto fora do meio tradicional. * A civilização tradicional funciona como esqueleto externo que pensa pelo bhakta e neutraliza suas incartadas. * Sacrificar o próprio juízo só é legítimo quando existe inteligência garantida na ambiência tradicional. * Uma perfeição jnânica sem caridade ou sem serenidade equivale a esqueleto sem carne. * A beleza da alma, feita de paz e generosidade sem frouxidão, complementa a atividade mental derivada da intelecção. * Essa beleza é inerente ao jnâna na medida em que se identifica à gnose pura. * A confrontação mostra que o equilíbrio é externo e indiretamente intelectual no volitivo e interno e aparentemente moral no intelectivo, pois a ambiência tradicional se afirma por simbolismo e a caridade do jnânî é conformidade impessoal ao que preexiste no divino. * O caráter indireto do intelectual no bhakta liga-se ao predomínio do simbolismo tradicional. * O caráter apenas aparente do moral no jnânî decorre de não ser atitude psicológica individual. * A bhakti situa-se a priori no plano humano enquanto via. * O jnâna e o Intelecto situam-se além do ego como lugar e órgão da via. * A qualidade do jnânî não pertence propriamente a um indivíduo, mas ao sopro do Espírito. * Mesmo o contemplativo jnânico precisa de um quadro exterior simbolista e o bhakta precisa de uma ambiência interna análoga, de modo que a beleza funciona como complemento providencial do jnânî e o discernimento fenomenal como complemento necessário do bhakta. * A beleza requerida pelo jnânî é inteligibilidade, simbolismo vivido e harmonia, não agrado superficial. * A beleza permite descanso confiante da inteligência e atua como elemento indireto de equilíbrio. * A beleza privilegiada é a da natureza virgem mais que a dos templos por refletir espontaneidade, ilimitado e intemporalidade. * A natureza corresponde à liberdade primordial do Intelecto puro. * O espírito do jnânî é anterior a toda cristalização e é em toda parte e em parte nenhuma. * A ambiência interna exigida pela bhakti é a inteligência como discernimento racional e fenomenal. * Santa Thérèse d’Avila recusava a estupidez como norma para religiosas. * A primazia do bhakta é a perfeição da vontade, o que favorece subestimação da inteligência. * A vontade não prescinde da verdade que determina sentido e modos da perfeição. * A relação entre jnâna e bhakti pode ser descrita como via viril e via feminina, exigindo cada uma complementos duplos do polo oposto para evitar inquietação mental e sentimentalismo sem verdade. * A virilidade do jnâna requer complemento feminino interno e moral e complemento externo e estético. * A feminilidade bhaktica requer complemento viril externo e tradicional e complemento interno e mental. * O amor requer inteligência ou discernimento na tradição e eventualmente na alma conforme o nível da via. * A atividade intelectual requer beleza na alma e secundariamente na ambiência visível. * Deve-se evitar a inquietação mental com egoísmo inconsciente e a sua esclerose. * Deve-se evitar o sentimentalismo opaco que pretende suprir a ausência de verdade por virtudes. * O gênio intelectual não se confunde com acuidade lógica, pois a intuição intelectual é contemplatividade receptiva à Luz incriada e difere da razão que opera por lógica, sendo o gênio uma fissura sobrenaturalmente natural no receptáculo humano. * A razão percebe o geral e procede por operações lógicas. * O Intelecto percebe o principial e procede por intuição. * A intelecção é concreta em relação às abstrações racionais e abstrata em relação ao Concreto divino. * A lógica se situa em relação à intuição como esta em relação à gnose efetiva, sem comparabilidade estrita. * O gênio pertence ao receptáculo e não ao Intelecto como tal. * O gênio é descrito como fissura na opacidade humana. * A necessidade de esforço de caridade no intelectivo, sobretudo em condições que enfatizam teoria e carecem de cultura moral tradicional, decorre do fato de que a ausência de virtude pode cindir homem e inteligência, cuja presença depende da graça. * O vínculo indireto entre conhecimento e virtude não implica insuficiência do Intelecto. * A ausência de virtude pode produzir cisão entre homem e sua inteligência. * O homem pode ser porta-voz do Espírito por graça, salvo absorção do eu pelo Si. * Não há pacto de segurança entre homem e Deus fora da estação suprema. * A inteligência pode retirar-se e quem se obscurece é o homem. * O mental se desgasta quando a alma não repousa em Deus, enquanto o Intelecto permanece intacto. * A metafísica está além da caridade, mas o metafísico sem caridade compromete a doutrina por rebatimento do vício. * Santa Teresa do Menino Jesus atribui a queda de Pedro à confiança em si sem a fórmula com ajuda de Deus. * O risco é confiar na presença da luz e não na luz como tal, pois a presença depende da graça. * O Intelecto é simultaneamente dom e essência pessoal, conforme a potência da graça. * O homem pode ter a Verdade e pode ser a Verdade. * A objeção de que a caridade deve ser superada na gnose é respondida pela distinção entre virtude positiva e virtude negativa, segundo a qual o jnânî busca liberdade de egoísmo e mantém a alma na virgindade do ser fundamental sem substituir Deus por obras. * A caridade positiva é necessária enquanto o sentido da virtude negativa não foi compreendido. * A pergunta do jnânî é se há liberdade de egoísmo. * A virtude do jnânî é negativa como teosofia apofática. * A virtude intrínseca é o ser fundamental e consiste em abster-se dos vícios da natureza caída. * A abstinência pode assumir forma de afirmação volitiva conforme circunstâncias. * A moralidade que adiciona obras ao ser tende ao individualismo. * Obras e virtudes podem ocupar o lugar de Deus na perspectiva moral. * A via jnânica é impessoal ao ver virtude como qualidade existencial da natureza primordial do criado. * O ser fundamental é camada ontológica mais profunda que o plano da queda. * A virtude permanece ligada à contemplação e se retira do jogo de oposições morais. * Superar virtudes não equivale a privação, mas a libertação de limitações individuais. * O que mais conta para Deus é a qualidade da contemplação, entendida como modo de ser. * O espírito bhaktico distingue a priori Deus e ego e tende a situar Deus no próximo e o diabo no eu, simplificação que, fora do contexto tradicional, abre caminho a esquecimento das potências de ilusão e a confusão entre verdade e Deus. * A redução do diabo ao ego implica abolição prática do demônio. * O esquecimento do demoníaco abre porta a otimismo pueril. * O otimismo se mistura ao progressismo e aceita encolhimento e falsificação modernos. * A satanização do ego induz divinização simplista do outro. * Deus é substituído pelo próximo e surge altruísmo como fim em si. * O altruísmo perde contato com a verdade metafísica e com a espiritualidade verdadeira. * A distinção entre verdade e erro se apaga, restando ego como erro e Deus e próximo como verdade. * A incoerência obriga a excetuar certas manifestações do ego e acrescenta nova ilusão. * A incoerência obriga a confundir noções de verdade e de Deus e favorece desprezo pela inteligência. * A aceitação do Anticristo por humildade ou gentileza torna-se proximidade possível. * A depreciação da inteligência substitui suposto orgulho intelectual por orgulho contra o Intelecto. * A deriva desemboca em pecado contra o Espírito. * As posições de situar diabo no ego e Deus no próximo são válidas como remédio moral dentro de contexto, mas exigem discernimento dos espíritos, pois a inteligência é dom de Deus e a espiritualidade feminilizada como totalidade conduz à dissolução. * As posições valem no plano moral e contra egoísmo natural, não fora dessa polaridade. * A inteligência distingue o homem dos animais e é dom como a caridade. * A caridade não é possível sem inteligência. * Simplicidade deve ser acompanhada de prudência como exigência complementar. * O discernimento dos espíritos é necessário num mundo em decomposição. * O subjetivismo moral isolado implica sentimentalidade e caráter feminino. * A feminilidade integral corresponde a parte e não a totalidade. * A feminização da espiritualidade indica desequilíbrio e via de dissolução. * A substituição de formas por cores e de ritmos por sons descreve a dissolução. * A feminilidade é necessária na espiritualidade, mas deve ocupar lugar próprio. * O humanitarismo laico e antitradicional confunde-se com caridade por sentimentalismo e se funda na ideia de que o homem é bom, invertendo o axioma tradicional e convertendo ressentimento contra Deus em ataque às religiões e seus representantes. * A crença na bondade humana se acompanha de suspeita de maldade divina ou de negação de Deus. * O deísmo científico é inoperante e não freia o ressentimento moderno. * O ressentimento se dirige a sacerdotes e religiões tidas como invenções interessadas. * O axioma tradicional afirma Deus como fonte de toda bondade. * O homem é dito mau por vontade não conforme ao ser divino e por falso instinto de conservação. * Muitos homens são bons por acidente na ausência de circunstâncias que ativem covardia, ferocidade e perfídia. * Há camada pré-satânica boa, mas soterrada sob carapaça da queda. * Só amor de Deus ou gnose rompe a crosta produzida pela queda. * Virtude puramente humana é desafio a Deus e pretende provar superioridade humana. * O homem não cria o bem nem destrói o mal, apenas desloca bens e males. * O prometeismo ateu e demagógico destrói valores mais altos e gera males maiores. * O santo queima raízes do mal em certa ambiência conforme a Providência. * A impossibilidade de reencontrar no homem a inocência da natureza virgem revela miséria consciente que exige explicação, e os males terrestres são inevitáveis porque o mundo não é Deus, sendo a superação possível apenas no Absoluto. * A imagem de Moisés descreve o homem como erva que cresce e murcha. * A consciência humana torna a miséria incompatível com normalidade de mera erva. * Se o homem fosse bom, seria incoerente a necessidade de proteção contra si mesmo. * Se não houvesse Deus e religião fosse humana, faltaria base para culpar religião por estragar o homem. * A fonte do mal não pode ser animalidade, pois animal não alcança perversão humana. * A inevitabilidade do mal deriva do hiato entre efeito e Causa. * Sofrimento e morte exprimem o hiato inevitável do termo relativo. * Só no Absoluto há escape da fatalidade, não pela eliminação do mal como tal. * A atitude otimista equivale a escolher o mundo sem querer que ele seja mundo. * A prioridade do Reino de Deus é apresentada como condição para o resto. * A influência moderna sobre a bhakti não doutrinal conduz a deformações teológicas e a dilapidação inconsciente de herança tradicional, gerando erros e perda de senso de proporções. * Em certos reformadores hindus, salvar a honra de Deus levou a reduzir Deus à alma coletiva. * A experiência subjetiva mal definida preserva resíduo de lugar para Deus. * A liberdade moderna aplicada por ancestrais teria eliminado toda espiritualidade em poucos séculos. * O espiritualista moderno vive de herança desprezada e a desperdiça. * O modernismo destrói bases doutrinais e introduz preconceitos e erros. * Resultam confusões e falta de sentido das proporções. * A doutrina do kali-yuga e do Kalki-Avatâra é apresentada como critério de ortodoxia e barreira contra o evolucionismo, exigindo rejeição da ideia de evolução da verdade e de doutrinas reveladas como produto evolutivo. * A doutrina é universal sob símbolos diversos e não pode ser ignorada por revelação alguma. * A doutrina exclui evolucionismo como princípio universal. * O rechaço abre porta a traições e corrupções. * Evolução pode existir dentro de limites sem ser lei que afete o imutável. * Evolução e degenerescência podem coexistir em planos distintos. * Deve-se rejeitar a ideia de que a verdade evolui e de que doutrinas reveladas evoluem. * O verdadeiro jnâna coincide com ortodoxia por definição, enquanto a bhakti necessita de ortodoxia para a vida coletiva e continuidade tradicional, pois o amor não pode ser experiência autossuficiente nem transcender dogmas por baixo. * A bhakti não pode ser arte pela arte nem fim em si. * Tudo ser amor não implica que amor seja qualquer coisa. * Retirar substância metafísica do amor elimina verdade e eficácia. * O desprezo por hierarquias, símbolos e instituições divinas é efeito do achatamento. * Dogmas limitam, mas têm valor positivo por conteúdos e por oportunidade humana. * A Sapiência e Misericórdia divinas previram a função social e psicológica dos dogmas. * Nem todo amor é impecável, e entusiasmo pode encobrir desenvoltura estéril. * É preciso apoio formal para ultrapassar formas, pois o além-forma exige ponto de apoio formal. * A máxima evangélica sobre chegar ao Pai pelo Filho é invocada. * O sannyâsî abandona ritos ritualmente e não legitima abolição arbitrária. * A ausência de castas para o sannyâsî não implica pregação de abolição das castas. * O espiritualismo moderno na Índia negligencia bases humanas garantidas pelo sagrado e oferece atalhos e yogas sem garantias tradicionais, que exigiriam preparação ancorada na tradição para não se tornarem inoperantes ou nocivos. * Atalhos espirituais existem e podem ser possíveis. * Esses atalhos exigem intelecção pura e técnica sutil e rigorosa. * Exigem preparação intelectual e condicionamento psicológico enraizados na tradição. * Sem tradição, tornam-se inoperantes e podem levar a fim contrário. * Protagonistas de certos yogas oferecem via científica e não sectária a inaptos. * A via é apresentada como depurada de superstição e escolástica e perde garantia tradicional e razão suficiente. * Pode haver casos em que, apenas na bhakti, irregularidades sejam atribuídas à Misericórdia em época caótica, mas em geral as graças não compensam nem justificam o vírus progressista que falsifica os espíritos. * A questão do saldo entre vantagens e inconvenientes é remetida ao juízo de Deus. * Na maioria dos casos, vantagens não compensam os danos. * Graças eventuais não justificam nem sancionam a falsificação progressista. * O bhakta ingênuo pode ser vítima mais que responsável quando falta ambiência tradicional. * A simplicidade sem prudência aumenta riscos e os transfere a outros. * A imagem de crianças tomando-se por adultos descreve o perigo coletivo. * No polo cristão, a reação contrária declara técnicas inoperantes e tudo dependente de graça e caridade, mas atribuir virtude salvadora a técnicas reveladas é legítimo, pois a prática normal purifica ou é abandonada pela dificuldade de fato. * Acrescentar que tudo depende da graça enuncia evidência trivial. * A analogia de atravessar uma rua ilustra a trivialidade de invocar predestinação para um ato possível. * Expressões hindus são elípticas sem serem simplistas. * O alvo da crítica é o esquecimento do clima humano indispensável, não a elipse verbal tradicional. * Asiáticos modernos generalizam categorias de sua ambiência e as atribuem ao homem como tal. * A falta de experiência e de comparação produz erro de óptica. * Subestima-se o quanto o mundo da máquina e da demagogia molda psicologicamente os modernos ocidentais. * Uma lógica ingênua e impecável mostra-se ineficaz diante dessas condições. * As falhas do néo-bhaktismo exigem lembrar que ortodoxia e heterodoxia não coincidem com piedade e mundanidade, e que a decadência procede por reações que caricaturam verdades e depois as abolem por baixo. * O paradoxo entre verdade doutrinal e virtude é terreno de sedução e hipocrisia. * O mal se compraz na indignação do herético contra vícios do ortodoxo. * O mal se compraz na condenação farisaica de valores espirituais incompreendidos. * A modernização do Ocidente e do Oriente decorre em parte dessas oscilações. * A decadência primeiro caricatura o legítimo e depois reage abolindo o conteúdo positivo. * A heresia absolutiza verdades parciais. * A época absolve o erro por conter alguma verdade parcial. * O colapso das civilizações orientais relaciona-se ao predomínio de mundanos fascinados por uma civilização moderna mundana, enquanto contemplativos ocidentais podem reencontrar o cristianismo intemporal por via asiática, e a fuga dos males coletivos deve ser por cima e não por baixo. * A maioria dos homens é mundana e se fascina por uma civilização mundana. * A teocracia torna o modernismo atraente como falsa liberdade e universalidade. * O modernismo explora aspectos acidentais de constrição, rotina e estreiteza da tradição. * A sinceridade moderna pode ser cinismo sem caridade. * A ilusão impede distinguir trivialidade e nobreza. * Preferir cão saudável a santo leproso é imagem da cegueira valorativa. * Males coletivos das velhas civilizações são inevitáveis. * A saída deve ocorrer por elevação e não por rebaixamento. * O espiritualismo contemporâneo deveria reconhecer que a caridade não pode prescindir da verdade, pois a verdadeira caridade oferece bem sem mistura, nutrição adequada e consciência de responsabilidades, levando em conta fraquezas humanas e perigos previstos pela sabedoria tradicional. * A verdade é bem precioso para o ser dotado de inteligência. * A caridade procura oferecer alimento ajustado, mesmo dogmático ou dualista. * A caridade não se lança em idealismo de curto alcance e de duplo fio. * A caridade considera necessidades e riscos que derivam da natureza humana. * A sabedoria tradicional prevê melhor que sonhos generosos as condições da integridade espiritual.