====== GNOSE NÃO É NÃO IMPORTA O QUÊ ====== * A atribuição generalizada das características do gnosticismo e de outras contrafações pseudofilosóficas à gnose representa um equívoco que ignora a distinção fundamental entre a sofia perene e movimentos como o espiritismo, o teosofismo e os pseudoesoterismos do século XX. * A confusão é frequentemente ratificada por teólogos interessados em desqualificar a gnose ao imputar-lhe os erros das imitações que a circundam. * A existência de uma impostura baseia-se necessariamente na imitação de um bem preexistente, o que não autoriza a transferência das falhas da cópia para o original. * A gnose define-se essencialmente como a via do intelecto e da intelecção, distinguindo-se das místicas voluntaristas e sentimentais por fundamentar-se na inteligência e na metafísica pura. * O método operacional da gnose envolve a distinção entre Atma e Maya, somada à consciência da identidade potencial entre o sujeito humano, jivatma, e o Sujeito divino, Paramatma. * A estrutura da via compreende a doutrina, focada na compreensão, e a técnica, focada na concentração. * Instrumentos como o mantra, de caráter transformador, e o yantra, de caráter visual, balizam o progresso da potencialidade até a atualidade plena no estado de jivanmukta. * O gnosticismo manifesta-se em diversos contextos religiosos como um tecido de especulações delirantes e mitomaníacas que perverte a relação entre conceitos exotéricos e esotéricos. * A presença de simbolismos de interesse nessas correntes não valida sua orientação, dada a natureza perigosa da mistura doutrinária que as caracteriza. * A utilização de símbolos pode servir tanto para a elevação quanto para o desvio espiritual conforme a intenção e o rigor da aplicação. * A distinção entre a intelecção e a iluminação reside no caráter ativo da primeira frente à passividade da segunda, o que impede que a experiência fenomenológica da iluminação seja tomada como método ou ponto de referência na via gnóstica. * A hermenêutica gnóstica, exemplificada pelo comentário das Upanishads, difere das interpretações exegéticas baseadas em iluminações subjetivas que se distanciam do sentido literal das fórmulas sagradas. * A iluminação ocorre no clima da gnose de forma orgânica, mas não deve ser confundida com a operação intelectual que rege o processo. * O conceito superior de iluminação transcende a dicotomia entre atividade e passividade ao identificar-se com a Atividade divina que coincide com a extinção dos elementos passionais humanos. * A receptividade ao influxo celeste pressupõe a neutralização das obscuridades que separam o homem de sua Essência divina imanente. * O espírito humano deve participar simultaneamente dos mistérios da perfeição ativa e da perfeição passiva conforme a ordem divina. * O conhecimento intelectual do Absoluto, para além da face do Deus pessoal, exige como contrapartida necessária o conhecimento de si, estabelecendo uma correlação entre o macrocosmo divino e o microcosmo humano. * A inscrição no templo de Delfos sobre o autoconhecimento e a sentença evangélica sobre o Reino de Deus interior confirmam essa dimensão introspectiva da via. * O acesso à Ordem divina é condicionado pela exploração da própria subjetividade profunda. * A gnose habita o cerne de todas as grandes tradições religiosas de maneira análoga à presença do éter nos elementos sensíveis ou da inteligência nas faculdades mentais. * A impossibilidade de detectar traços imediatos da gnose em certas formas religiosas não anula sua existência necessária como núcleo essencial. * Cada religião contém em si a possibilidade desta via intelectual como seu fundamento último. * A primazia da inteligência na via da gnose não ignora a eficácia prática da moral sentimental para a gestão de grandes coletividades, exigindo que a perspectiva gnóstica integre a virtude intrínseca como esplendor da verdade. * O realismo da gnose aceita a natureza dos homens como eles são, sem renunciar à exigência de uma inteligência que seja simultaneamente conceitual e existencial. * A totalidade do sujeito é requerida em face da unicidade do objeto absoluto. * A gnose apresenta-se como a única solução para os impasses do alternativismo confessional e dos sofismas voluntaristas, conforme demonstra a crítica à negação das causas naturais no pensamento asharita. * Ibn Roshd rebate as teses de Ghazali ao afirmar que a negação das naturezas específicas e das causas implica necessariamente a negação do intelecto. * A percepção das causas é a função própria da inteligência, sendo o nome das coisas dependente de suas qualidades inerentes. * O pensamento metafísico integral concilia a causalidade divina imanente, que é vertical e centrifuga, com a causalidade cósmica, que é horizontal e concêntrica. * A incompreensão asharita ilustra a falha em perceber que a causalidade natural não exclui a intervenção sobrenatural imanente. * A relação entre o Sujeito absoluto e a subjetividade da criatura segue o mesmo princípio de coexistência de planos distintos. * A faculdade mental falível do registro e da elaboração distingue-se radicalmente do coração-intelecto, que projeta na consciência uma visão infalível da realidade. * A certeza lógica, passível de substituição, contrapõe-se à certeza ontológica que se identifica com a própria essência do ser. * O conhecimento gnóstico repousa sobre o que o sujeito é, e não apenas sobre o que ele pensa.