====== SEGUNDO ANEL ====== //[[.:start|JOGO DO GANSO]]// ==== A CONCHA ==== * A casa seguinte representa uma concha de São Tiago, chamada em certos dialetos de creusille ou crousille, significando cadinho, receptáculo no seio do qual o molusco se desenvolve e secreta sua pérola, por extensão a cavidade que recebe a matéria viva fluida e informe e lhe permite cristalizar seu fruto brilhante em torno do grão-semente que contém. * Desde sempre ela significa a feminilidade receptora e maternal, o engendramento nas paredes da matriz. * Certos mariscos são diretamente associados à vulva e usados em certas populações como símbolos de fecundidade. * Em um quadro de Crivelli existem representações da maternidade da Virgem, onde ela é figurada segurando o filho sob um dossel em forma de concha, ao centro do qual pende por um fio uma pérola em forma de ovo, imagem do engendramento do Verbo enquanto som primordial e palavra divina criadora. * O Sopro-Espírito, soprando na concha, produz o som primordial. * No Apocalipse, a Voz do Alfa e do Ômega é dita como a das Grandes Águas, Som jorrando do abismo que ordena os mundos. * A pérola é uma pedra preciosa viva, não tirada do mineral mas do animal que a engendra no interior de si mesmo, e falar de seu brilho é chamá-lo de seu oriente, o que evoca a luz original. * A concha, vivendo nas águas, refere-se ao psiquismo, cujas correntes e fluidos são regidos pela lua. * Quando a concha é assimilada à Virgem-Mãe, é enquanto encarna a anima mundi, a alma da criação. * É portanto na alma-concha que se deve ouvir a voz do Alfa e do Ômega insuflada pelo Espírito, se se quer que a incarnação divina nela se realize, tomando a sonoridade A-Om da primeira e da última letra do alfabeto grego, ou das iniciais da saudação angélica Ave Virgo Maria. * Esse som primordial é vocalizado pelos Orientais sob a forma Aum ou Om, dita conter todas as letras, as consoantes e as vogais. * Somente uma virgem pode receber a anunciação de seu engendramento, a enunciação do Verbo, sendo a pérola símbolo da pureza porque nasce de um receptáculo inviolado. * A alma que aspira a possuir a pérola deve retornar à virgindade e à inocência pelas purificações preparatórias e pela vibração sonora poderosa e terrível das Grandes Águas, que a limpa de um só golpe de seus pensamentos, imagens e afeições, golpeando-a com seu ritmo e submergindo-a inteiramente. * O som da concha detém por sua própria virtude a cacofonia do mental, os discursos da razão e o estrondo turbilhonante das paixões. * Vindo do silêncio do abismo divino, ele provoca naquele que o recebe o silêncio, de onde por sua vez poderá sair o Verbo, a Palavra criadora, o Nome de Verdade que dissipa todas as palavras vazias da linguagem humana. * Uma vez extintos os lampiões da mascarada do mental, a alma está pronta para receber a iluminação angélica portando o raio do Intelecto divino, sendo preciso abrir a casca da alma para nela encontrar a pérola do espírito: o oriente da luz que ilumina todo homem vindo a este mundo, e que reside escondida nas trevas que não a compreendem. * Conceber o Verbo é ao mesmo tempo compreendê-lo e engendrá-lo, ou seja, ouvi-lo. * A concha simboliza a orelha, e segundo as lendas da primitiva Igreja Maria concebeu o filho pelo ouvido, razão pela qual o jogador compreende que deve avançar pela renovação do entendimento, no duplo sentido da faculdade auditiva e da faculdade intelectiva. * É pelo ouvido que se comunica o novo nascimento, e que as palavras carregadas de verdade podem penetrar no silêncio estabelecido sobre os escombros do verbiage insensato, sendo o aprendizado do conhecimento, na escuta atenta, receber ensinamentos lapidares, palavras-germes que despertam na alma sua faculdade de conceber, ou seja, de compreender e ser fecunda. * Nenhum conceito seria expresso em palavras pelo homem se na origem de sua linguagem não existisse a potência de nomear as coisas segundo seu ser. * É esse verbo interior, raiz do conhecimento, que se deve permitir manifestar-se na receptividade virginal da alma, à imagem do Fiat proferido do seio da Imaculada Conceição. * O ouvido é o primeiro sentido que recebe o influxo celeste, o primeiro a ser regenerado para permitir a audição interior do Verbo, sendo o mais sutil dos cinco sentidos, correspondente ao éter entre os elementos e diretamente ligado ao conhecimento espiritual. * A luz visível é oriunda da propagação de uma onda primeiramente produzida por uma vibração sonora que é seu vetor. * Quem passa pela porta estreita do ouvido, acordando fé à evidência interior, tem conhecimento direto e imediato atestado pelo Verbo interior, enquanto quem se resolve a aderir apenas a partir da experiência exterior só tem um conhecimento indireto e por reflexo. * Aqui se traça a fronteira entre o saber profano e o conhecimento metafísico: o primeiro funda-se apenas na experiência dos sentidos grosseiros e na lógica da razão individual, procedendo por análise e síntese a partir dos elementos manifestados exteriormente, enquanto o conhecimento em espírito e em verdade provém do Intelecto supra-racional, raio do Verbo eterno presente no espírito e pelo qual descem as iluminações. * É a intuição intelectual que se deve descobrir como o eixo luminoso vertical que perfura o plano do mental em seu centro. * Esse plano é como um espelho: voltado ao mundo exterior absorve as sensações e lhes impõe uma combinação humana aleatória e falível; voltado ao raio do Intelecto Agente, é por ele iluminado e percebe diretamente a essência eterna das coisas em seu princípio criador. * A concha de São Tiago acrescenta ainda uma direção, um sentido, o da peregrinação de Santiago de Compostela, sendo São Tiago patrono dos companheiros passantes e dos compères do Ganso em sua função de passadora. * São Tiago é o mestre da via de peregrinação, da viagem iniciática, no sentido em que caminhar é absorver-se e engajar-se inteiramente na Via, deixando para trás todos os apegos terrestres. * Trata-se de banhar, lavar e destilar a Matéria dos Sábios no silêncio do laboratório, ir até o termo ocidental de suas forças, esgotar as impurezas e as escórias antes que o retorno possa ocorrer. * O retorno tem lugar no lugar do composto assim produzido, no Compost-El, o de Deus, ou em Compostela, no campo da estrela, sendo a estrela que então se ergue sobre o banho chamada em espanhol lucifero, a porta-luz. * É a estrela da aurora, a de Vênus, ou da natureza fecunda libertada de suas cadeias, que nasce de novo da espuma, do seio da concha, como a representaram Botticelli e muitos pintores. * O caminho de Compostela é a via láctea, o leite estelar, astral, que nutre o recém-nascido filosofal. * Se a alquimia encontra em São Tiago um patrono, a cavalaria errante e o guerreiro em particular lhe devem também uma devoção especial, pois essa milícia de solitários cuja vocação é libertar a luz original das trevas que a aprisionam deve regozijar-se ao ver o oculto tornar-se manifesto. * Acima dos pórticos das igrejas românicas que jaloeiam esse caminho na França encontra-se frequentemente uma estátua de cavaleiro, guardião da Via em seus múltiplos rostos, que barra a entrada aos malfeitores e verifica as senhas. * O cavalo, animal psicopompo que se reencontrará, evoca aqui a cabala ou a viagem através da linguagem e dos signos, que faz passar do sentido óbvio ao sentido oculto. * Essa cabala fonética, fundada no som primordial e seu uso nas cinco vogais, consiste em partir com a espada a casca da letra para liberar o espírito, que é sopro e som, e que sopra onde quer, sendo preciso abrir a casca da palavra para encontrar a pérola da coisa significada. * Rabelais chamava esse método de romper o osso para sugar a substantífica medula. * A significação iniciática dos jogos de palavras da cabala fonética é romper o encadeamento mecânico das imagens e dos conceitos ocos, invertendo as letras para subverter sua exterioridade e remeter à essência, relativizando as palavras estáticas e projetando-as na espiral do sentido. * As sílabas assim desmembradas são recompostas pela assonância musical em um sentido superior que voa como a flecha ao coração inefável da realidade, sendo essa a língua dos pássaros que Siegfried compreendeu e ouviu após ter matado o dragão da matéria vil e ter-se banhado em seu sangue. * A esse método aparenta-se também uma oração rápida e penetrante como o dardo que o Ocidente chama oração jaculatória e o Oriente mantra ou japa, repousando sobre a energia vibratória do som primordial. * Lança e cavalo estão presentes, e o guerreiro começa a aprender seu uso. * Outros conhecem essa arte de música, e são os cantores errantes que mesclam canções e encantações, rondós e virelais, os trovadores, cujo mensagem de Amor está encerrado no trobar clus, inteligível somente aos súditos da corte desse deus, sendo eles os trovadores de verdade. * A poesia é a arte de exprimir o inefável e recriar o mundo em sua transparente virgindade original, indo beber na fonte viva da harmonia da manhã do mundo. * O ritmo do verso cria a vibração do sopro, a rima impõe a repetição sonora incantatória, e a inspiração nascida da iluminação interior produz as palavras justas e as imagens que golpeiam e penetram além da percepção ordinária. * Esses nobres viajantes se encontram portanto por trás da concha e do bordão de São Tiago, cajado que é a bengala do agrimensor e o eixo do caminho, zunindo algo que somente aqueles que têm ouvidos para ouvir podem compreender, como o que dizem os sinos na Páscoa. ==== A ESPADA E O FUSO ==== * A casa seguinte representa uma espada e um fuso entrecruzados, disposição que indica unir a atividade da arma guerreira à da ferramenta da fiandeira, apresentando ao guerreiro no caminho a chave operativa das realizações futuras. * Dois eixos estão ligados em sautor e barram o caminho àqueles que não se apoderam deles simultaneamente. * O masculino e o feminino aqui simbolizados devem ser reunidos para realizar a Obra, em sua função ativa e em seu processo dinâmico. * Da mesma forma que são precisas duas pernas para caminhar, duas mãos para agir ou duas colunas para sustentar um arco de abóbada, o princípio do equilíbrio do jogador e de seu êxito, bem como o da dialética motora que o fará progredir, são dados aqui. * Não há meio sem a direita e a esquerda, nem criação divina sem a Misericórdia e a Justiça, sem a Graça e o Rigor. * O jogo existe ele mesmo somente pela interação da regra e da fantasia. * Trata-se portanto ao mesmo tempo de cortar e tecer, de romper e disjungir, como de fiar e atar, sendo somente o paradoxo fecundo nessa via, conforme as metamorfoses do ganso mostram à vontade, do galinheiro ao firmamento boreal. * O conhecimento simbólico, ou a abordagem anagógica da unidade do real, procede também dessa maneira dupla. * O símbolo vela e revela ao mesmo tempo o que esconde e desvela, o que designa e o que protege, sendo a espada que rasga o véu que o fuso tece incessantemente. * Para o filósofo, a máxima da Obra é: solve et coagula, dissolver e coagular, espiritualizar o corpo e corporificar o espírito, sendo também ora et labora: orar e contemplar como agir e concretizar, aliando o não-agir ao labor. * O trabalho de laboratório pode ser considerado uma atividade inútil e passiva em relação à ação interior espiritual de colaboração com a obra do Artifex divino na oração. * É preciso distinguir para unir, diz o adágio escolástico. * A espada convida primeiro a distinguir, como a arma cortante dada à virtude para combater o vício, e mais ainda como aquela que separa a luz das trevas, luz por sua lâmina faiscante e verdade por sua dureza e seu fio cortante. * Explica-se assim a estranha figura da espada afiada de duplo gume saindo da boca do Homem-Deus, mostrada no Apocalipse de São João. * Ela é o atributo próprio do Verbo enquanto Agente da criação que separa a luz das trevas primordiais para fazer nascer a ordem do caos, e enquanto Juiz final que separa o puro do impuro. * Um nome verdadeiro é portador da potência de ser daquele que enuncia, sendo uma arma de duplo gume cujo manejo deve ser aprendido, e a arma mais forte do guerreiro é o Nome da Potência divina, ou Seus diferentes Nomes revelados preservados em sua sacralidade da confusão das palavras oriundas de Babel. * Há um espírito para cada coisa que porta um nome, mas uma coisa ou um ser não é somente portador de um nome, ela possui um nome, um verdadeiro nome, e ela é mais ou menos esse verdadeiro nome. * O nome é uma manifestação do espírito no mundo dos sons, e o ato de pronunciar um nome coloca em vigília o espírito ao qual ele corresponde. * Para quem se lembra de que esse jogo convida a um novo nascimento e portanto a uma recriação, os três primeiros dias da Gênese consistem em separar a luz das trevas, as águas superiores das inferiores, e as águas da terra firme para que o seco apareça do úmido, operações de discriminação que necessitam ao mesmo tempo o equilíbrio interior e o do mental. * O gládio aparece então como o fiel vertical entre os dois pratos de uma balança e simboliza o Intelecto e a verdade dando o eixo espiritual para ordenar o pensamento. * O pensamento é etimologicamente uma pesagem que mede o peso dos elementos em relação a um número harmônico. * A via heroica pressupõe uma faculdade de julgamento segura, pois quanto mais se avança profundamente nesse caminho, mais as armadilhas e os falsos semblantes são numerosos e perigosos. * É vital saber penetrar com a ponta da espada o que se encontra diante de si, e ainda mais distinguir o verdadeiro do falso. * A regra do discernimento dos espíritos impõe-se aqui desde os primeiros passos, e somente a espada do Verbo interior pode iluminar a razão, facilmente enganada, e indicar a direção justa. * A espada evoca também a força, e mais particularmente o endurecimento e a concentração das energias espirituais pela ascese da disciplina do pensamento e dos desejos, esses fluidos psíquicos cuja atividade é na maioria das vezes errática, dispersante e submetida às impulsões do exterior. * Ordenados pelo eixo da retidão interior, da consciência luminosa, eles convergem em um poder criador quando a cidadela hermética está bem guardada das influências impuras. * A espada significa aqui o guarda do coração: a empunhadura é a virtude, a lâmina a vigilância, a ponta a atenção, e o gume a coragem. * Nessa guerra santa cada instante é o lugar de um combate e as forças demoníacas dissolventes rondham como um leão faminto, sendo que adormecer é arriscar ser devorado, ter medo é deixar-se submergir pela revolta interior, ceder às fraquezas é segurar a arma com mão frouxa, e apontar o estoque sem precisão é errar o alvo. * O verdadeiro guerreiro se mantém inteiramente no instante, de pé, as duas mãos segurando a espada erguida, e invulnerável mata o tempo e conquista a vida eterna, hic et nunc. * Todas as artes marciais fazem da rapidez e da precisão do golpe de sabre, ou do tiro da flecha, o selo do valor, signando a aptidão de estar reunido no instante. * O corolário é a atitude permanente de observação do sentinela e do vigia: observar o que se desenrola no exterior, mas mais ainda os movimentos que se formam no interior, sem jamais identificar-se com o que se passa, nunca absorver-se nem ser ocupado, ou seja invadido. * Quem vive o eterno presente não conhece nem passado nem passividade. * A observação central, a do coração, consiste em considerar o que não passa, o fundamento imutável de toda realidade, e isso é a meditação ou retorno ao meio. * Quem deteve assim a vagabundagem do espírito pela consciência constante do ser pode tornar-se um passador para aqueles que se aproximam, ancorado em Si mesmo e em conivência, pela raiz, com a vida de todos os seres, podendo fazê-los atravessar o rio do tempo. * Quando o eixo vertical da lâmina está fincado no centro do plano da consciência como um feixe de luz que atravessa tudo, as energias mentais se concentram e a vontade toda inteira é polarizada. * O guerreiro, graças a ela, corta então o nó górdio que lhe barra a passagem. * A prudência manda lembrar que a espada está suspensa na fivela do talabarte, e o conto do Graal indica que o talabarte da espada de Galaaz era formado por uma trança dos cabelos de sua irmã entrelaçada de fios de ouro. * A mãe terrestre do Verbo que disse ter vindo trazer o gládio, cortando os laços carnais ao colocar o homem contra seu pai e a filha contra sua mãe, ocupou sua juventude, segundo certos textos, a fiar e tecer o véu do Templo, o mesmo que a morte de seu filho rasgou. * É preciso atar os laços antes de poder rompê-los, e a ruptura daqueles que se tornaram entraves conduz a estabelecer-se em outros portadores de vida. * Atena, deusa da Sabedoria, da cidade e também da guerra, de elmo na cabeça e lança no punho, foi quem inventou a tecelagem, sendo sua tela de forma estrelada da Sabedoria, e a lança que porta assemelhando-se à roca que fia o destino, ao Axis Mundi ao qual está enrolada a cadeia preparada para a tecelagem. * Nos contos de fadas, picar-se com a ponta de uma roca suspende o curso do destino, como em A Bela Adormecida no Bosque. * A deusa que tem por atributo o fuso encarna a Sabedoria ordenadora enquanto suporte da manifestação divina, a potencialidade de sua expressão ad extra. * O polo feminino da manifestação, a partir da matéria prima indiferenciada, encarna a presença divina sob o véu da natureza, sendo a beleza que dela emana tradução do irradiar dessa presença na forma substancial. * Ela é a potência de vida que, ao receber a irradiação luminosa que manifesta o Verbo, engendra e porta todos os seres. * Segundo a Escritura, a vida é a luz dos homens, o que implica que em nosso plano de realidade o acesso à luz é operado por sua incarnação na vida. * O conhecimento se dissolve se não é fixado em palavras, e a importância das letras que bordam a renda do pensamento e dão forma e medida ao conceito torna-se clara: se a linguagem é o tecido da Sabedoria criadora que encerra a realidade em sua rede de signos, arranjar as letras e as palavras é um ato cosmogônico. * Os hieróglifos assim traçados e caligrafiados têm um valor fundador. * O bispo traça com a ponta de seu báculo as letras do alfabeto hebraico e grego entrecruzadas em sautor no solo de uma igreja a ser construída, para delimitar e consagrar o espaço do lugar sagrado. * É seguindo as malhas espaciais e temporais desse tecido da Sabedoria que se pode seguir o fio do Pensamento divino que determina o destino dos dez mil seres, sendo possível compreender a ordem do universo somente se se segura as duas pontas da cadeia e se tem a visão clara do desígnio que se trama nesse entrecruzamento indefinido de relações solidárias. * O iniciado se mantém no ponto de vacuidade entre as malhas da rede, ali onde domina o destino. * O conhecimento verdadeiro realiza a união entre o sujeito e o objeto a partir de dois movimentos simultâneos: perceber a essência pela intuição intelectual e compreender a substância pela experiência vital que reúne e relaciona o conjunto corporalmente à totalidade do ser cognoscente. * Esse ato de conhecimento unitivo repousa sobre a potência do amor, agente universal e elo entre todas as coisas, sendo o símbolo do lago de amor o derradeiro nó no qual se resolve a espiral dos fios enrolados em torno do fuso. * Então o guerreiro sabe que deve ser macho e fêmea ao mesmo tempo. * Compreende que não é somente à destruição que convida o fio da espada. ==== O CAVALO ==== * A casa seguinte representa um cavalo de pelagem cinza, sendo que após ter recebido as armas para combater e aprendido seu manejo, o guerreiro, na sexta casa do jogo, recebe sua montaria, por meio da qual avançará verdadeiramente, sendo as etapas precedentes apenas preparação indispensável. * O cavalo é o veículo indispensável à longa rota: sua força, velocidade e resistência levarão o cavaleiro ao objetivo se ele souber bem montar. * O cavalo é também um passador, um psicopompo, desde que entre o animal e seu cavaleiro nasça um entendimento perfeito. * Antes de montá-lo é preciso adestrar e domar, sendo a docilidade do cavalo o preço dos esforços obtido ao dominar em si a alma animal, mantendo-a na mão, e assim é a si mesmo que o guerreiro primeiramente passa o freio e exercita com as rédeas dadas a dirigir a impetuosidade dos elãos instintivos. * Nada seria pior do que aniquilar a selvagem impulsividade de uma besta de sangue, arriscando matá-la ou torná-la uma triste rossinante. * Saber freá-la consiste ao contrário em utilizar suas energias tão preciosas e aumentar sua potência evitando o esgotamento dos galopes em todos os sentidos. * O cavalo é o próprio corpo do guerreiro, ou antes seu corpo agora regenerado, rejuvenescido, pleno de nova seiva, com forças incomensuravelmente acrescidas ao quebrar o que as entravava ou as dispersava. * Uma primeira mudança de estado vai se realizar no ser, cuja aparência exterior não é mais a de um bípede andando pesadamente mas a de um centauro saltitante, leve e rápido como a flecha. * Aquele que outrora corria nos bosques ou se barrava de ferro encontra o assento ou a base justa ao descobrir seu centro de gravidade e nele apoiar-se. * A convergência do centro de gravidade, tanto no sentido exterior quanto no interior, produz paradoxalmente uma nova leveza do corpo e da alma, esse alívio provindo da liberação de suas energias outrora aprisionadas nos laços da angústia, bloqueadas nos falsos pontos de apoio da individualidade. * Ordinariamente o indivíduo, ansioso por sua própria segurança, conta apenas com suas próprias forças para vencer a adversidade e proteger a frágil construção do eu. * Assim esteriliza todas as energias que provêm de além dos limites do que a individualidade humana apreende, correntes que só se tornam novamente fecundas quando o guerreiro, toda a medo vencido, abandona a falsa segurança dos suportes humanos. * O jogador verdadeiro deixa-se portar pela montaria, que escuta e capta pelos ouvidos os fluidos naturais, pressente o obstáculo e se guia com clarividência segura na noite, sendo a intuição que assim ilumina a razão. * O afrouxamento da atitude e dos gestos do corpo traduz a descrispação interior que consiste em confiar-se ao que, em Si, fora do alcance do eu, sabe o que é bom. * É assim que as águas mortas se transmutam em águas vivas para obter a Água Pôntica: liquefazer o chumbo pela energia telúrica interior ao homem, uma das fórmulas do Mercúrio Universal. * O cavalo encarna a energia de vida divina que irriga o cosmos como a água mercurial, e vencer a avareza do chumbo devolve a vitalidade e o equilíbrio da saúde ao permitir novamente aos fluidos circular livremente, dissolvendo os nós que interrompem os circuitos do que os Chineses chamam Khi, ou força vital universal. * Essa dissolução recentra as atividades e a maneira de realizá-las. * O corpo não é mais esse objeto exterior, esse obstáculo material, mas ao mesmo tempo o guia e o servidor, o sujeito e o instrumento da obra, o templo do Espírito Santo no qual e pelo qual tudo se realiza. * A essa etapa do percurso trata-se apenas de libertar as energias ctonianas enterradas e recalcadas, que são o suporte e o fundamento, para procurar o assento inabalável, o equilíbrio e a potência que permitem prosseguir a viagem, sendo na medida em que são receosamente ignoradas e relegadas à sombra que elas são ameaçadoras. * Elas têm o rosto de Medusa, de corpo de cavalo e cabelos de serpentes enroladas, nó de víboras dos fluidos vitais reprimidos, que enquanto mantidos ocultos no inconsciente pela angústia de ser vulnerável aí, não são dominados. * A forma monstruosa da Górgona petrifica aqueles que a abordam de frente, tornando o corpo inerte, pesado, maciço, bloqueando e esterilizando a alma vital. * Perseu, armado pelos deuses com uma ajuda sobrenatural, não afronta o olhar de Medusa mas o escudo liso da Sabedoria-Atena, arma divina que não faz senão devolver a forma tal qual é ao seu nada ilusório. * Coroado do gorro de Plutão como vencedor dos infernos, e dotado do saco para enterrar o rosto do monstro, símbolo da capacidade de integrar as dimensões obscuras infra-humanas, Perseu lhe corta a cabeça, princípio de sua existência autônoma. * Do pescoço jorram, imediatamente libertados, Pégaso e Crisaor, nascidos da união da Górgona com o deus das águas primordiais, Netuno. * O mito indica claramente a maneira de converter e transmutar as energias em seu aspecto positivo, dinâmico e vivificante, sendo a leveza de Pégaso e a luminosidade da Espada de Ouro tiradas da espessura e da negrura caóticas. * O chumbo flui em fusão, a água sai da rocha, como a fonte das Musas jorra da montanha sob o casco de Pégaso. * As energias cósmicas dominadas pela força divina se convertem de destrutivas em fecundadoras, decuplicando os meios daquele que as capta: assim os limbos infernais dão à luz os instrumentos para a conquista do Céu. * O cavalo alado e a espada de ouro são dados simultaneamente como forças indissociáveis e complementares, e certos guerreiros a esse estágio de sua transformação os recebem dos anjos, em sonho ou em visão, como o presente divino que substitui a alimária esquálida e o espeto enegrecido e lascado do eu humano. * Libertar Andrômeda, ou a natureza cativa do abraço devorador do dragão das forças materiais informes, não é então mais que um jogo de criança. * A esse estágio, o guerreiro não tem outra escolha, para suportar o encargo divino que lhe foi posto sobre os ombros pelo accolade, que não seja repousar sobre uma força que o ultrapassa. * A primeira fase desse abandono começa pela liquefação do corpo que só pode evitar sucumbir abrindo-se a todos os fluidos que o sustentam, alegrando-se e religando-se a todos os seus prolongamentos cósmicos ao dissolver sua carapaça petrificada. * Essa extensão da modalidade corporal ordinária ocorre tão logo, renunciando a se crisparem em um esforço absurdo, o viajante percebe em prática que o caminho e o bastão o carregam. * Deus somente é sua força, tanto na graça celeste quanto na potência imanente terrestre da vida física que emana Dele. * Após a mortificação e a decantação da espessa envoltória fossilizada, a primeira regeneração obtida se chama o soltar dos cavalos, ou seja a liberação dos centros de forças de baixo, o reconhecimento e a integração harmoniosa do psiquismo inferior animal, o retorno a uma sã animalidade. * É a vitalidade de Dionísio que permite o irradiar de Apolo, como o fogo, a luz. * Antes de pretender, por essa via do ganso, acessar o jardim dos estados angélicos, é preciso ainda amar a besta que é o ganso que nos conduz e entrar em simpatia com todas as formas vivas do mundo sensível que animam o homem. * A ruptura por Adão do estado paradisíaco de unidade com o Princípio teve por consequência a revolta dos animais contra o homem, que então se tornaram selvagens e ferozes, sendo o primeiro grau da redenção transmutar sua selvageria em docilidade, a coice em cabriola. * Na história do mundo, a primeira aliança concluída entre o Criador e o gênero humano exilado do Éden foi a da natureza, simbolizada pelo arco-íris, que consistiu em dissolver pelas águas do dilúvio os corpos secos e as almas áridas para recolher na arca as espécies animais vivas. * O Mestre do Mundo revelou-se primeiro aos pastores dos rebanhos e quis que seu jovem corpo fosse aquecido pelo boi e pelo asno, nascendo em um estábulo. * O tecido da pelagem do cavalo cinza entrelaça os pelos negros aos brancos, e compreende-se que cavalo cinza passa de dia a noite, de morte a vida. ==== O GANSO DO SEGUNDO ANEL ==== * Aqui se encontra novamente o ganso, que parece recitar uma cantilena: Derramem grandes águas, Lâmina fora da bainha, Esvazieis o novelo, Soltem os cavalos, Batam com o casco, Espuma nos focinhos. * Parece que o ganso começa a falar, pela primeira vez cantarolando em meia voz máximas, meio-caminhos. * O cavalo Bayard falava aos quatro filhos Aimon, e o ganso diz suas quatro verdades ao viajante que não vai por quatro caminhos: discurso de galinheiro, ou melhor, base do curso da rota. * Sobre as três marcas do pé de ganso se estabeleceu e conquistou o Fundamento: a fundação e a base do edifício, sendo esse o regime da lua, ou seja da Obra crescente. * Na alma ainda noturna, a luz se concentra e se reflete pela virtude do astro mestre das águas e dos fluidos. * É Diana a Virgem que deve suplantar Hécate a assassina: o jogador superou seu terror branco por sua retidão cândida. * O guerreiro ainda está na infância nessa fase da espiral, banhado, lavado, esfregado e aprendendo a caminhar, sendo seu crescimento ao sabor da montada e da descida das águas. * Ela amansa os movimentos dos fluidos vitais, da seiva e do sangue, e permite ao jogador compreender e utilizar a força universal que os anima. * O homem é aqui passivo: recebe o influxo do espírito, suas armas e sua montaria, decantação, destilação, concentração, incubação. * A concha simbolizava a pureza receptiva, a virtude do silêncio e da contemplação; a espada e o fuso indicavam o aprendizado das regras da ação e a virtude de justiça ou equilíbrio entre as duas polaridades do mundo; o cavalo mostrava como agir e avançar apoiando-se na base da estabilidade dinâmica. * Assim se adquire a virtude de Temperança que permite cavalgar os tigres. * Ao abrir a concha, dá-se entrada ao espírito que, pela irrupção de seu fogo, separa o sutil do espesso. * O tratamento que tritura as escórias deixa escapar as energias materiais ao mesmo tempo grosseiras e sutis, que é preciso ora dissolver ora coagular para delas fazer uma montaria. * Assim é ensinado à criança da Arte o justo comportamento e a regra do saber viver: espiritualizar o corpo desfazendo a massa compacta e informe do novelo, e corporificar o espírito fiando e tecendo na rotação do fuso. * No orifício das trevas traspassadas, a vida nova começa a germinar corporalmente, pois não há, nessa via, compreensão que não seja substancial e tangível. * O Vivente se encontra na força vital, e o Todo-Poderoso nas raízes dos poderes criadores e destruidores encerrados em toda a sua obra, sendo que o artista que bem conhece a arte e considera seus arcanos na lua terá conhecido por isso que deve imitar a natureza em seu movimento, em seu jogo cósmico.