====== GVEI 443-467 A SUBJETIVIDADE NEGATIVA EM SUAS RELAÇÕES COM O MUNDO E COM O OUTRO ====== //[[gvei|SER E INDIVIDUALIDADE (GVEI)]]// * O aspecto subjetivo de descontinuidade do Nada substancial já foi revelado pela consciência negativa, e importa agora examinar o aspecto objetivo de indeterminação ou de alteridade radical que esse Nada apresenta enquanto aparece não mais como princípio constitutivo da subjetividade, mas como a própria trama do real para o qual ela se transcende. * O Nada não se manifesta objetivamente em estado puro à subjetividade cognoscente: o nada objetivo, como o nada subjetivo, só se manifesta à ocasião de uma apreensão da plenitude ontológica de aparências significativas e valorizadas. * Os dois aspectos de descontinuidade e de indeterminação do Nada são rigorosamente simultâneos e correlativos: a subjetividade só apreende seu próprio vazio à ocasião de sua transdescendência em direção ao vazio das aparências, e se é condenada a apreendê-las como vazias, é em razão de seu próprio vazio interior. * Os dois aspectos do Nada apresentam um caráter comum: são simplesmente visados e sentidos à ocasião de uma situação afetiva, e não intuitivamente apreendidos e contemplados como tais num ato positivo de conhecimento. * O nada da subjetividade é visado através dos conteúdos falsamente positivos que parecem constituir sua realidade substancial, como os estados de consciência enquanto manifestam o dinamismo das tendências e do caráter. * O cogito da consciência negativa interdita um retorno reflexivo sobre a positividade do sujeito, pois por definição o sujeito não comporta tal positividade: ele é essencialmente negatividade vazia, alteridade, e esse vazio é sentido e experimentado à ocasião do recuo reflexivo. * Contra Bergson, convém precisar que, embora o nada mesmo da subjetividade pressuponha um conteúdo positivo ao qual se acrescenta a própria negação, a negatividade da consciência é positivamente experimentada como negatividade, como vazio, como ausência fundamental, e não como uma espécie de suprapositividade. * O nada da subjetividade, positivamente embora indiretamente experimentado, não é positiva e intuitivamente conhecido, pois um ato de conhecimento verdadeiro incide essencialmente sobre o ser, e o não-ser pode estar implicado na atividade cognitiva sem jamais tornar-se como tal objeto de um conhecimento verdadeiro. * O Nada só se torna, ao nível da consciência negativa que desvela seus aspectos mais profundos, objeto de sentimento negativamente e indiretamente visado pela inteligência como um limite inacessível, mas positivamente experimentado nos sentimentos negativos como o pesar e sobretudo o desespero. * O aspecto objetivo de indeterminação do Nada é rigorosamente correlativo ao aspecto subjetivo, pois a subjetividade negativa só pode visar e experimentar o nada à ocasião de suas relações com o mundo porque ela própria se encontra identificada de forma mais ou menos rigorosa com um aspecto do Nada. * A esfera negativa não traz, em relação às estruturas panteísticas, uma nova modalidade de desvelamento do real: ao nível da consciência temporalista, ou se apreende essências encarnadas ou se apreende individualidades singulares. * A consciência negativa não será nem experiência imediata orientada sobre a plenitude singular das aparências, nem experiência mediata das existências encarnando essências específicas: será como uma mediação às avessas exercendo-se sobre o conteúdo das aparências singulares. * A experiência fundamental da consciência negativa pressupõe relações com as fontes subjetivas de significações inerentes à consciência temporalista, ou seja, com o desejo sob sua modalidade objetivante de vontade de potência e sob sua modalidade passiva e estética. * A consciência negativa visa, aquém das totalidades panteísticas das duas estruturas precedentes, a negatividade fundamental e o vazio que elas pressupõem, tanto do lado da subjetividade quanto do existente. * A consciência negativa se identifica com uma forma ou um aspecto da subjetividade que se situa precisamente aquém das esferas que estão na raiz das significações positivas atribuíveis ao existente. * A consciência negativa reconhece em si mesma a esfera dos desejos, dos instintos ou da razão, por referência à qual o existente desvelará estruturas significativas, mas centrando-se aquém dessa esfera positiva, vem a negar a profundidade e a validade de tal valorização. * Todas as significações que pode ter consciência de desvelar no mundo lhe aparecem como projeções gratuitas e contingentes de sua liberdade. * A estrutura positiva do desejo ou do instinto funda-se, aos olhos da consciência negativa, sobre o dinamismo vazio, gratuito e cego da subjetividade negativa, que lhe parece ser o fundamento último de toda significação possível. * A consciência negativa não pode aparecer a si mesma senão por uma ilusão como criadora de ser ou de valor: é de fato antes destrutiva do que criadora de valores, pondo em luz o aspecto negativo e limitativo de toda aparente positividade ontológica. * O que é visado aqui como real é o existente considerado ao mesmo tempo em sua pura determinação existencial, na limitação constitutiva de sua pura singularidade, e em sua indeterminação essencial, na ausência radical de significações que seriam constitutivas de sua estrutura ontológica. * As significações — as essências assim como os valores — aparecem como radicalmente separadas do existente, e essa ruptura ou descontinuidade funda-se na descontinuidade fundamental que separa a própria subjetividade de todo conteúdo essencial. * A indeterminação não é aqui a matéria que será informada pelas determinações constituídas pelas essências ou pelos valores, mas a própria trama dos existentes sobre a qual essas essências ou valores não terão nenhuma prise. * A perspectiva da consciência negativa é análoga à do Vedânta shankariano que também vê na crença nos nomes-e-formas constitutivos dos limites individuantes puras e simples superimposições sobre o fundo imutável do Ser universal, mas a consciência negativa opera uma inversão em relação a essa perspectiva metafísica. * O existencialismo dito ateu é como um platonismo às avessas: as significações e os valores que a consciência negativa projeta ou superimpõe ao existente não são participações degradadas às Essências imutáveis, mas aparecem à subjetividade como flutuando fora dela mesma e fora das aparências. * A subjetividade negativa encontra as significações que não decorrem daquilo que constitui sua própria intimidade existencial; ela só é esse movimento em direção a significações ou antes em direção ao existente através de significações. * Para compreender a natureza dessa experiência, é preciso dissipar uma das equivocidades que pesam sobre a descrição sartriana das relações entre a subjetividade e o em-si: a pura negatividade do para-si não pode ser pura e simples presença ao ser posto como plenitude, pois o fato de a subjetividade não ser o que conhece não confere à realidade visada o estatuto de uma realidade plena. * O esquema sartriano é demasiado simplista: o fato de a subjetividade não ser o ser implica correlativamente que o ser não participa da pretensa plenitude do em-si. * A realidade visada, sentida e experimentada, mas não diretamente e intuitivamente apreendida num ato positivo de conhecimento, é a indeterminação radical que toda realidade finita encerra na própria raiz de sua existência, quando a inteligência esgotou as determinações essenciais que lhe conferem estrutura e significação. * O Nada objetivo é visado como sendo algo que se situa precisamente além ou antes de tudo que aparece como objeto significativo de desejo ou de conhecimento, e é rigorosamente idêntico a um dos dois aspectos que a coisa em si do kantismo pode revestir: o aspecto do platonismo às avessas. * A coisa não pode ser senão visada: na esfera negativa, não se trata mais de um conceito-limite, mas de uma experiência-limite ou de uma experiência verdadeira do limite constituído pela raiz objetiva de toda limitação, pela indeterminação do Nada substancial. * Esse Nada é precisamente o que não pode ser posto em luz, não por fraqueza de nosso conhecimento, mas porque não há rigorosamente nada a conhecer ali, porque é o oposto radical da Luz, do Conhecer, do Ser e da Essência. * Sob sua forma objetiva e estática, o Nada apresenta o mesmo aspecto de coincidência dos contraditórios encontrado ao nível de sua forma subjetiva: é visado como o que a coisa se encontra ser em verdade no coração mesmo das aparências pelas quais se manifesta, aquém de todas as determinações significativas que pode parecer revestir ao olhar do conhecimento. * A consciência negativa visa, no coração do que se poderia chamar a transdescendência do desespero, o que a coisa se encontra ser para si mesma, em sua intimidade existencial, em sua singularidade mais radical. * Essa intimidade singular se revela ser simultaneamente e paradoxalmente a exterioridade mais radical, a indeterminação mais absoluta: uma totalidade às avessas, objeto de uma espécie de êxtase negativa. * Encontra-se aqui não mais uma integração do individual na plenitude do Universal, mas uma identificação rigorosa da individualidade radical do existente com o indefinido, a Potencialidade pura, que não é outra coisa que a Matéria primeira ou a Substância universal sob seu aspecto estático. * A indeterminação desse indefinido é manifestamente análoga à do Ser puro, mas trata-se de uma analogia inversa e não paralela, e ainda menos de uma pura e simples identidade, como Hegel acreditou ao identificar Ser puro e Nada. * A indeterminação em questão é ausência de limite, mas de um limite posto sob seu aspecto platônico, essencial, de princípio de inteligibilidade e de plenitude ontológica, enquanto a ausência de limite do ser universal e infinito é a ausência dos limites vistos sob sua forma negativa de empobrecimento e dispersão. * O Nada é visado como o que é radicalmente Outro, como a Alteridade em si: outro que tudo o que é inteligível e significativo, e essa alteridade se identifica à disjunção radical entre o existente e as significações. * Essa indeterminação radical, essa pura alteridade, aparece não apenas como aquilo para o qual retornará a aparência uma vez abolida, mas como o que já constitui sua realidade profunda, sobre a qual a sucessão das significações não tem nenhuma prise. * A aparência vista sob esse aspecto exclusivamente cosmológico e substancial reveste a mesma inconsistência que do ponto de vista metafísico: tudo que um existente manifesta não são senão puros fantasmas projetados não à superfície do ser, mas à superfície dessa radical indeterminação de pobreza que constitui o aspecto objetivo do Nada. * O Nada não é mais afetado pelas formas do que o é o Ser universal ou o Um, e esse processo da manifestação sucessiva das formas que deixa a matéria impassível, segundo a bela descrição de Plotino, corresponde à experiência-limite que a subjetividade temporalista efetua no coração da transdescendência de seu desespero. * A indeterminação radical visada no coração da intencionalidade da consciência negativa aparece ao mesmo tempo como fundamento da separação dos existentes, de sua descontinuidade radical, e de sua uniformidade ou de sua confusão: é a uniformidade do vazio e a indistinção do caos, reflexo inversamente análogo à Unidade infinita. * A experiência-limite da consciência temporalista corresponde rigorosamente a certos aspectos do mundo contemporâneo em que a estrutura negativa encontra ocasião de se atualizar, pois o homem moderno que vive normalmente na objetivação inerente à esfera lógica encontra-se por isso mesmo desindividualizado por sua integração em estruturas coletivas crescentemente vastas e abstratas. * A quantificação progressiva dos diversos aspectos desse mundo corresponde, no plano histórico, à proximidade sempre crescente do polo substancial da manifestação que caracterizava as estruturas não objetivantes. * O reino da quantidade que domina os principais aspectos da vida ordinária do homem contemporâneo pressupõe uma desessencialização suscetível de favorecer o eclosão da consciência negativa. * A mecanização e a industrialização modernas são uma forma concreta de projeção subjetiva sobre a natureza que tende cada vez mais a se superpor a ela em vez de prolongá-la e inserir-se em seus ritmos fundamentais. * A mecanização que oblitera o sentimento das realidades naturais e dos grandes ritmos cósmicos dá ao homem moderno a ilusão de ser ele mesmo o criador ou o informador, o dator formarum, o Demiurgo da Natureza. * Quando uma reflexão purificante o conduz a tomar consciência do caráter factício de suas próprias criações e que não é mais capaz de reencontrar o sentido de uma realidade cósmica que transcende o homem, o real não é mais para ele que essa massa amorfa e indiferenciada. * As descrições sartrianas em A Náusea, onde toda forma diferenciada aparece como em excesso, gratuita e acrescentada à massa amorfa do existente bruto, e a proposição de que todo existente nasce sem razão, se prolonga por fraqueza e morre por encontro, traduzem admiravelmente a cumplicidade entre a angústia existencial e a concepção mecanista do homem quantificado. * A quantificação do homem-número, denunciada por Gheorghiu em A Vigésima Quinta Hora, é como um prelúdio predestinado à eclosão do desespero, e explica-se pelo caráter cada vez mais abstrato e artificial das funções do indivíduo contemporâneo e das coletividades às quais se encontra integrado. * A consciência negativa pode surgir tanto a partir das formas mais extremas da estrutura objetivante quanto a partir da estrutura estética: na primeira, o indivíduo se encontra praticamente reduzido ao que o individualiza de forma negativa, ou seja, à condição individuante constituída pela quantidade. * A falsa profundidade da individualidade estética significa simplesmente que a existência perdeu seu último revestimento, sua última determinação essencial constituída pela própria quantidade, restando como raiz mesma da quantidade o existente em sua indeterminação radical. * A objetivação quantificante procede da mesma potência dissolvedora e separativa encontrada na raiz da temporalidade negativa, e testemunha a unidade das formas mais extremas da consciência temporalista: o homem contemporâneo é como desintegrado pelo dinamismo do Vazio, que o divide e o projeta para fora de si mesmo. * Nas duas estruturas panteísticas, a subjetividade humana não atingia a subjetividade singular das outras consciências, pois o Outro se encontrava integrado em uma Totalidade na qual também se integrava a consciência que dizia Eu. * A consciência negativa chegava a uma espécie de apreensão negativa de sua subjetividade singular, encontrando-se literalmente encerrada nela, mas ao mesmo tempo rejeitada para fora de si mesma, pois não é outra coisa que esse vazio interior da negatividade. * O Outro aparece verdadeiramente como outro que si mesmo, no coração da impotência a se integrar em qualquer Totalidade. * Uma apreensão positiva do Outro como tal pressupõe sempre uma identificação ao menos implícita com ele, o que é ao mesmo tempo uma negação mais ou menos completa de sua alteridade: tal é o processo encontrado ao nível das estruturas panteísticas. * Ao nível da esfera objetivante, algo de essencial concernente à outra consciência escapava ao esforço de conhecê-la, algo que constituía esse modo de ser em virtude do qual o Outro tem ele mesmo consciência de sua própria intimidade singular. * A impotência de apreender a intimidade singular de outrem era correlativa da impossibilidade para minha consciência de apreender sua própria intimidade singular permanecendo no plano das estruturas panteísticas. * A consciência negativa não pode comungar com outrem no culto dos mesmos valores, pois essências e valores aparecem como projeções contingentes não enraizadas na ordem objetiva do mundo. * As outras consciências são precisamente visadas como aquilo com que minha própria subjetividade singular não pode constituir um todo: a consciência negativa que visa a razão como aquilo a que não pode identificar-se, visa por isso mesmo as outras subjetividades humanas como situadas aquém dessa natureza, ou seja, como também solitárias. * Em As Moscas, Oreste, reconhecendo sua impotência a assumir um destino partilhável com outros seres que daria sentido a seus atos, busca ensinar aos Argivos o caminho de sua liberdade, ou seja, de sua irremediável solidão. * O fracasso da incompreensão e o fracasso do amor com o ciúme constituem formas pelas quais a consciência negativa visa a subjetividade singular das outras consciências, na primeira forma de apreensão da alteridade. * Nessa primeira forma, a subjetividade ainda não realizou plenamente a negatividade constitutiva de seu próprio ser: permanece centrada numa visão do mundo onde o tempo pode ainda ser criador e onde a esperança tem lugar. * Na vergonha ou na humilhação, a subjetividade sofre de parecer aos olhos de outrem o que este estima que ela é, mas se identifica ao menos em certa medida com esse ser ao qual a prende o olhar de desprezo do Outro. * A separação não é radical pelo fato de a outra consciência conservar um sentido em relação a mim: representa um valor que me é recusado mas que reconheço como valor. * No aspecto mais profundo dos reportes que a subjetividade negativa pode manter com as outras consciências, a outra consciência só pode ser visada numa solidão tão radical quanto a minha. * A ponta extrema do trágico e do desespero não é tanto a fuga da outra consciência enquanto ela não me ama ou se mostra incapaz de me compreender, mas antes a descoberta, no coração mesmo da comunhão ilusória que a outra consciência crê estabelecer com os outros ou comigo, de sua própria subjetividade singular e negativa. * A subjetividade desesperada se encontra tão radicalmente separada das outras consciências quanto do existente em geral: a experiência pela qual a subjetividade visa aqui a outra consciência é análoga àquela pela qual visava a pura alteridade do existente bruto. * A outra consciência não pode ser objeto de intropatia, intuição ou qualquer conhecimento positivo, pois seu ser é visado como pura negatividade: é visada como radicalmente separada de minha própria negatividade singular e do mundo das essências ou dos valores em que ainda pode se comprazer. * Não ponho aqui a outra consciência como vivendo num mundo inacessível e impenetrável que guardaria por isso uma espécie de prestígio e valor a meus olhos: a viso precisamente como não podendo ter verdadeira intimidade ou segredo, como identificando-se a essa impotência de ter tal conteúdo que lhe conferiria uma verdadeira interioridade substancial. * A outra consciência é radicalmente outra que eu, ou radicalmente separada de mim, apenas porque se encontra em definitiva separada de mim por um nada, ou mais profundamente por esse nada quase substancial que viso como constituindo seu ser. * Uma espécie de comunhão negativa — verdadeira imagem às avessas da comunhão das almas no amor-caridade — se estabelece aqui entre as consciências, fundada sobre uma espécie de identidade negativa e às avessas das subjetividades em presença. * Essa solidão em comum se funda sobre a impossibilidade radical de me acordar com a outra consciência concernente à adesão a certos valores, não por divergência de nossos universos espirituais respectivos, mas pela impossibilidade de fundar validamente uma adesão a qualquer ordem de valores. * A outra consciência, embora radicalmente separada de mim por sua identificação com sua recusa de se identificar com qualquer coisa, se encontra rigoureusamente idêntica a mim, como confundida comigo, na confusão vazia e caótica de uma unidade que é a contrafação da Identidade principial visada na perspectiva metafísica. * A individualidade é apreendida aqui em seu limite mais extremo como o que separa totalmente os seres e como o que os identifica de forma negativa, pelo fato mesmo da ausência de um conteúdo que lhes conferiria significação e densidade ontológica. * A subjetividade de outrem se revela aqui tão rigorosamente indeterminada quanto a minha, embora se encontrem tão radicalmente separadas quanto possível: as consciências são ao mesmo tempo radicalmente confundidas por sua indeterminação de pobreza e radicalmente separadas pela ausência de um universo concreto ou espiritual em cuja adesão poderiam comungar de forma positiva. * A subjetividade tal como se apreende aqui não é puramente espiritual: é antes como um aspecto do que se deve chamar a Matéria, na significação rigorosamente metafísica tomada da tradição platônica, ou mais precisamente o reflexo mais longínquo da Essência na Substância universal. * Não há razão para estabelecer entre o aspecto subjetivo e o aspecto objetivo do Nada uma ruptura análoga à que o dualismo cartesiano estabelece entre o Pensamento e a Extensão. * É a mesma trama ontológica que se encontra na origem e ao termo desse movimento negativo de transdescendência, quer se trate da própria consciência, de outra consciência ou de qualquer existente em geral: o nada aparece sempre como o avesso ou o resíduo de uma realidade significativa, dele profunda e irremediavelmente separado.