====== CIÊNCIA CONTEMPLATIVA ====== //VERSLUIS, Arthur. Perennial philosophy. Minneapolis, Minnesota: New Cultures Press, 2015.// * O termo "ciência contemplativa" descreve com mais precisão do que "filosofia perene" as características definidoras da tradição aqui apresentada — a ascensão contemplativa e a transcendência — e transmite bem a união do contemplativo e do científico, frequentemente vistos como opostos. * A divisão entre contemplativo e científico é autoperpetuante: na medida em que se aceita que são separados ou opostos, assim o são na prática. * O que passa por "misticismo" na linguagem popular é vago e abarca fenômenos díspares; a "ciência" é popularmente caracterizada em termos materialistas e ratiocentricos. * Não há oposição real entre a prática contemplativa e a exploração científica, pois ambas buscam investigar fenômenos, desenvolver uma compreensão mais coerente deles e formular um quadro teórico sobre o cosmos e os seres humanos. * Plotino e a tradição Pitagórico-Platônica descreveram a ascensão contemplativa e a transcendência com rigor lógico e esforço de consistência, tornando o termo "ciência contemplativa" apropriado para eles. * A exploração científica contemporânea foca primariamente no que é externo, enquanto apenas muito recentemente a neurociência e a ciência cognitiva começaram a examinar a vida interior, permanecendo na periferia. * A diferença fundamental entre a ciência convencional e a ciência contemplativa está no método: a ciência convencional busca desvelar leis ou mecanismos que governam fenômenos externos com vistas a aplicações práticas, enquanto a ciência contemplativa exige o despertar existencial do indivíduo — o observador deve tornar-se capaz de ser ou reconhecer que é o observado. * A ciência, como amplamente entendida, não trata da transmutação existencial ou do despertar do indivíduo para a verdade. * A introspecção contemplativa é um processo muito diferente da análise discursiva de fenômenos externos, embora ambas possam ser discutidas logicamente. * As implicações da ciência contemplativa são radicais e revolucionárias: se tomadas a sério, transformam ou subvertem a maneira como se veem a educação, a política, a economia e a religião. * A ciência contemplativa aponta para a realização da verdade por cada indivíduo, e se alguns a realizaram, representam uma elite natural — anciãos culturais. * Qualquer sistema educacional precisaria ser reorientado para a realização da verdade e suas implicações. * Ralph Waldo Emerson, em seu ensaio "O Poeta," observou que se tende a considerar o mundo material como "autoexistente," fazendo com que as ciências não reconheçam que a terra e os corpos celestes são o "séquito" do Ser superior acessível ao ser humano, e que o conflito aparente entre ciência materialista e religião pode ser resolvido por uma ciência superior que avança na mesma medida que a elevação justa do ser humano, mantendo o passo com a religião e a metafísica. * Emerson aponta para "um tipo muito elevado de ver" que não vem pelo estudo, mas pelo intelecto sendo onde e o que vê, compartilhando o percurso das coisas através das formas e tornando-as translúcidas para os outros. * Emerson alude à compreensão Platônica de que acima do mundo material está o realm das ideias transcendentes, refletido no mundo visível. * O "ver superior" de Emerson é mais do que ver: é abrir-se ao que está além da própria consciência, permitindo que "marés etéreas" circulem pelo ser, de modo que a fala se torna trovão, os pensamentos se tornam leis e as palavras se tornam universalmente inteligíveis como as plantas e os animais. * O filósofo-poeta percebe com "a flor da mente" — frase dos Oráculos Caldeus, amados pelos Platonistas, e também aconselhada por Damascius. * Quem percebe dessa maneira não é apenas humano, mas, como Emerson coloca, um dos "deuses libertadores," livre "por todo o mundo" como o Druida. * Em A Nuvem do Não-Saber, lê-se que não há meio de obter o conhecimento contemplativo; ele vem apenas pela graça, pelo abandono do próprio ser — da egocentricidade —, e o texto adverte contra interpretações corporais do espiritual e contra mal-entendidos sobre o que significa "inward" (interior) ou "acima." * A obra não foi escrita para "tagarelas carnais, aduladores e detratores," mas apenas para os naturalmente inclinados ao trabalho contemplativo. * Nesse trabalho, a alma é "unida a Deus" porque não são dois. * O Livro do Conselho Privado, obra companheira de A Nuvem do Não-Saber e reflexo da tradição Dionisiana — Platonismo adaptado ao contexto cristão —, descreve a oração contemplativa como a percepção intuitiva, nua e cega, do ser de Deus como o próprio ser e a própria fonte do praticante, sem palavras. * A percepção é do que se é, não do que se é elementarmente, do próprio ser nu, anterior a palavras ou conceitos, sem fragmentação ou divisão mental. * Através disso, atinge-se a mais alta perfeição de união com Deus em amor consumado, que não pode ser expressa em linguagem, apenas aludida. * A transcendência é a verdade, distinguida não pelo que é, mas pelo que não é — essa é a essência da via negativa no centro da filosofia perene, presente em Meister Eckhart, John Tauler, no autor de A Nuvem e do Livro do Conselho Privado, em Jacob Boehme, que se referiu à transcendência como nichts (nada) e como ungrund (sem-fundo), e em Ralph Waldo Emerson. * A via negativa é central tanto no Platonismo quanto em Dionísio Areopagita, Meister Eckhart e no autor anônimo de A Nuvem do Não-Saber. * Referir-se à verdade está fora de moda na contemporaneidade, onde muitos intelectuais afirmam que a verdade é relativa, que cada indivíduo tem a sua, e que chegar à verdade geraria uma elite — o que é, por definição igualitária, mau; mas se é possível conceber a verdade, então é pelo menos possível que ela exista, e ela é cognoscível pelo que não é — pela negação. * A verdade não é objeto, não é sujeito, não é percebida pelos sentidos, não é construto mental. * Abandonar conceitos equivocados sobre a verdade é outra maneira de descrever a ciência contemplativa. * A ciência contemplativa exige o abandono de preconceitos e noções sobre quem se é em relação ao mundo — não se trata de adicionar novos conceitos, mas de abandonar conceitos errôneos —, e embora incorpore análise discursiva e raciocínio até certo ponto, está além deles. * O raciocínio é fundamentalmente dualístico, baseado na relação de eu e outro, sujeito e objeto. * A ciência convencional não pode alcançar a experiência contemplativa porque esta envolve mudanças de consciência que estão além do que pode ser medido ou quantificado. * A experiência contemplativa é verificável, e nesse sentido o termo "ciência contemplativa" é apropriado: é uma ciência no sentido etimológico de scientia — saber —, verificada por numerosos autores ao longo de gerações e milênios, e constitui um conjunto de observações e proposições metódicas sobre um assunto específico tanto quanto qualquer ciência do mundo externo. * Friedrich Nietzsche, altamente crítico do monoteísmo e especialmente do Judaísmo e do Cristianismo, intuiu algo da vida interior: afirmou que os Brâmanes, Platão e "todo estudante do esotérico" sabiam que onde a fé é exaltada a razão e o conhecimento são desacreditados e a verdade se torna um caminho proibido. * Em Além do Bem e do Mal, Nietzsche distinguiu o exotérico — ver as coisas de baixo para cima — do esotérico — ver de cima para baixo. * A ciência contemplativa é hierárquica: há um acima e um abaixo, há sábios e tolos e os que estão entre eles, e seu propósito não é o conhecimento pelo conhecimento, mas a conquista da sabedoria por meio da ascensão contemplativa, que envolve transformação e iluminação existenciais individuais. * A visão de um ponto de observação inferior pode ser muito diferente da de um superior. * A ciência contemplativa conduz experimentos, busca processos e princípios verificáveis e desenvolve compreensão sistemática a partir deles — é empírica, assim como a ciência externamente orientada. * Enquanto a ciência externamente orientada centra-se em objetos, a ciência contemplativa centra-se na percepção e na consciência do sujeito com vistas a responder a questões últimas de significado. * A filosofia perene pode ser considerada a cabeça das ciências porque a ciência contemplativa é simultaneamente autoconhecimento e conhecimento do que transcende o eu, e o imperativo délfico "conhece-te a ti mesmo" é paradoxal porque o que se vem a conhecer está além do que se pode chamar de "eu." * A injunção délfica gnôthi seautón é paradoxal porque em última análise o que se conhece está além do "eu." * A filosofia perene trata dos mistérios últimos: quem realmente somos e como podemos compreender e realizar a verdade, a beleza, a bondade e a sabedoria — a coroa de todas elas. * A ciência contemplativa é uma maneira de descrever o propósito e o significado humanos sem um contexto religioso específico, mas está historicamente embutida em diferentes contextos religiosos — grego, da Europa Ocidental, britânico e americano —, e ao concentrar-se nos elementos mais fundamentais da filosofia perene, é possível ver como ela poderia ser aplicada em outros contextos religiosos e o que tem a oferecer para o futuro. {{tag>Versluis AVPP}}