====== Perspectiva Metafísica ====== //VIVENZA, Jean-Marc. Le dictionnaire de René Guénon. Grenoble-France: Le Mercure dauphinois, 2002.// * A unidade doutrinal expressa por Guénon nunca se manifestou no Ocidente com tal precisão, tendo permanecido confinada a pequenos núcleos esotéricos extremamente fechados. * Embora a metafísica fosse objeto de estudo atento na história ocidental, ela sempre esteve submetida à autoridade do ponto de vista religioso. * O problema central reside no fato de o Ocidente medieval ter situado a metafísica em total dependência da teologia. * O acesso à universalidade da metafísica no Ocidente deu-se apenas através do filtro limitador da religião, diferentemente do Oriente, onde esse acesso é quase natural. * O ponto de vista religioso, por ser exotérico, introduz um elemento sentimental ou afetivo que influencia a doutrina e impede a penetração da substância própria da metafísica. * A influência do elemento sentimental representa uma grave ofensa à pureza intelectual da doutrina e uma decadência em relação ao pensamento metafísico. * Guénon propõe um ultrapassamento teórico como primeira exigência para um retorno efetivo aos princípios, permitindo ir além das formas e do apego afetivo para alcançar a "metafísica verdadeira". * A metafísica pura é universal e intrinsecamente independente de todas as formas particulares, não sendo nem oriental nem ocidental. * É necessário, paralelamente à compreensão da universalidade da metafísica, libertá-la das determinações redutoras que marcaram sua história no Ocidente. * Desde Aristóteles e sua visão do "ser enquanto ser", a metafísica ocidental foi identificada com a ontologia. * O ser, por ser uma determinação, constitui uma limitação, não podendo ser o princípio mais universal ao qual a metafísica se reduziria. * Guénon afirma a necessidade de ultrapassar o ser, de ir além dessa última limite arbitrariamente imposta à natureza da realidade, abordando o domínio do além-do-ser. * A metafísica ocidental, além de teoricamente incompleta, mostra-se incapaz de propor um ultrapassamento da própria ordem teórica. * Diferentemente das doutrinas orientais, a teoria no Ocidente é apresentada como autossuficiente, em vez de ser ordenada para uma realização correspondente. * A metafísica parcial conhecida no Ocidente deve, portanto, abrir-se imperativamente para a "conhecimento supra-racional intuitivo e imediato". * O domínio da intuição intelectual é o domínio dos princípios, estando em contato com a ordem universal por meio do "intelecto transcendente". * Essa faculdade é "não-humana", não se tratando de uma capacidade individual ou de raciocínio humano clássico. * O homem pode atingi-la não em sua condição humana, mas enquanto ser que, em um de seus estados, é simultaneamente mais do que um ser humano. * O objeto real da metafísica, ou a própria conhecimento metafísica, é a tomada de consciência efetiva dos estados supra-individuais. * O desprendimento dos conceitos limitadores da metafísica ocidental é de suma importância para possibilitar o acesso a um nível superior de compreensão que conduz à perspectiva central da metafísica verdadeira: a "realização".