====== POTÊNCIAS DA ALMA ====== //ZOLLA, Elémire. Le potenze dell'anima: anatomia dell'uomo spirituale. Milano: Rizzoli, 2008// A noção de camadas planas verticalmente superpostas na vida da alma, e cuja mais alta está acima da consciência e do psicológico, não há nada mais importante. SIMONE WEIL, A CONSCIÊNCIA SOBRENATURAL === AS TRÊS PARTES DO HOMEM INFELIZ: O CORPO, A ALMA E A RAZÃO === O homem apreende com os sentidos aparências contingentes, limitadas pelo espaço e alteradas pelo tempo; e enquanto com a razão as vai classificando segundo as hipóteses gerais que melhor as enquadrem, de modo a poder dispor delas tecnicamente, com a alma ou psique vai sentindo por aquelas mesmas contingências atração ou repulsa. O corpo, a razão e a alma ou psique são as únicas partes ou funções que o homem geralmente reconhece em si: ele oscila entre o sentimento e a ciência, quando não restringe sua existência às sensações do corpo. A estas três suas partes ele rende até três respectivos cultos: o materialismo, o cientificismo ou racionalismo, que projeta diante de si sua sombra: a utopia do homem-máquina, e por fim o irracionalismo ou sentimentalismo. O ouvido naturalmente sente tanta repugnância por essas desinências pejorativas em fila quanto a alma deveria sentir por aquilo que elas designam. O homem comumente vive nesta prisão trilateral onde os manipuladores dos três cultos condicionam tão rigorosamente seus reflexos que sua interioridade se transforma em uma réplica fiel daquele triângulo carcerário. Mas esta reprodução interior do ambiente circundante não é de todo justa, se ele não raro demonstra desconforto e até angústia e não parecem fazê-lo feliz nem o bem-estar material, nem a perícia técnica, nem a complacência sentimental que lhe são sugeridos como paraísos, e é como se ele tivesse saudade de algo outro e diferente. Porém, se alguma vez o deixasse transparecer, ser-lhe-iam revolvidos em formas diferentes sempre aqueles mesmos três bens insuficientes ou ilusórios; talvez como talismã lhe fosse oferecida uma ideologia, ou seja, junto com algum declamatório sentimentalismo social, um simulado racionalismo. Aliás, ele não seria capaz de figurar para si uma religião que fosse outra coisa que não uma fantasia com intenções humanitárias, e se uma Margarida o interrogasse sobre sua fé, ele responderia como Fausto que acredita em um Deus como vaga imagem do universo, para o qual não tem um nome: senti-lo é tudo. Raramente ele sabe reconhecer na filosofia outra coisa que não um apêndice da ciência e na arte outra coisa que não uma sensação mais ou menos rara. De vez em quando ele também se dá conta de que está vagando entre os três muros de um calabouço, fechada toda saída para a liberdade, e ousa então perguntar para que serve adorar a ciência; ele é respondido que ela promove novas técnicas, concedendo satisfações sensíveis e até sensacionais a todas as necessidades. Mas as necessidades, corporais ou psíquicas, ele se apercebe, nem elas têm um valor absoluto, mostrando-se, aliás, mutáveis e ambíguas e, por fim, desesperadoras quanto mais se as venerar, e ele exclamará com Fausto (v. 3348): Não me tornei, portanto, o fugitivo, o sem-lar? O desumano que sem propósito nem quietude, como uma cascata que despenca de penhasco em penhasco enfureceu-se avidamente em direção ao abismo. Ou talvez ele não saberia responder de forma tão lúcida, talvez já tenha se fechado há muito tempo em uma espécie de aturdimento sonhador, como é o destino de quem não tem nenhum propósito em um mundo sem origem e sem fim. Mas mesmo que ele chegue a entender que desolação paira sobre ele, caso persista em venerar o corpo e adorar a razão científica, em vez de quebrar o triângulo, ele se abandonará a declamações sobre os "valores" sentimentais, como a esperança ou o otimismo ou a filantropia indistinta ou alguma imprecisa utopia. Quem escapa da angustia infernal e triangular? Quem confessa que os três lados não definem o homem inteiro, mas apenas o atrofiado; que entre aquelas três paredes não só não há paz, mas nem se concebem propósitos que a prometam? Para que viver, de fato? Para produzir e consumir mercadorias materiais ou, como se costuma dizer, culturais, ou seja, metade sentimentais e metade científicas? E qual seria, em tal angústia, o modelo de uma perfeição humana? Aquele que produz bens científicos e consome os sentimentais e políticos? Tal é a oleografia moralista tão frequentemente incutida. Ou será perfeito aquele que, sem produzir, consome montes de mercadorias, como sugere o sonho sentimental fabricado pela máquina publicitária, populoso de Narcisos estupefatos entre as mercadorias como antigos santos em êxtase entre os anjos? É muito provável que o homem, reduzido a entulhar os cinco sentidos de fantasias pré-fabricadas e a razão de informações sem discernimento nem fim, acabará por pedir conselho e socorro a algum psicólogo. E este a que modelo o conformará? A que não frase sobre o homem, mas ideia exata do homem? Que fim poderiam a sensibilidade, a técnica, o sentimento jamais propor-se?