====== VALENTINO – IRINEU DE LIÃO ====== //ZOLLA, Elémire. I mistici dell'Occidente. 2. Milano: Rizzoli Editore, 1976.// ==== Contra Heresias – Nota de Zolla ==== Éon é aqui traduzido como duração, em Homero significa o humor do corpo, como lágrimas, suor ou medula e, por traslado, aquilo que é íntimo e gerador. Os velhos estão quase privados dele, ressequidos. A unção com óleo reabastecia o humor perdido no banho ou na sudação. O significado de duração junto a certas filosofias modernas permite se aproximar do significado que Eon ou Évora tinha junto aos antigos (existem várias representações esculturais segundo os caracteres que ao Éon Primigênio são conferidos no hino órfico acima referido). Heráclito (B 50, 52) o diz representável como menino que brinca. Diz Clemente de Alexandria (Stromata, VI, XVII): "Para que se saiba que o mundo foi gerado e não criado no tempo a profecia acrescenta, Gênesis, 4: Este é o livro da gênese: também das coisas criadas o dia que Deus criou o céu e a terra. Entretanto quando foram criados sugere uma criação indefinida e infinita, mas o dia que Deus criou (isto é: em que e para que Deus criou todas as coisas e sem o qual não foi feita coisa), aponta para a obra do Filho… porque o Verbo que ilumina as coisas escondidas e graças ao qual cada coisa criada assurgiu ao ser, é chamado dia". Dia para Homero equivale a: destino (vd. R. Onians). As durações fora do tempo ou séculos compreendem também este século, o évo presente no qual está contida a categoria do tempo. O que é pressuposto pelo tempo, o que lhe confere significado? A isto responde a genealogia da duração. Irineu confronta o Propator ou Abismo com a Noite do grego Antífanes e com o Oceano (que é habitado por uma serpente; a espinha dorsal tem forma de serpente) de Homero e com o Infinito de Anaximandro. Os alquimistas falam de Água do Abismo, Água permanente, Água-prata, Mar nosso, Mar Magno, fons perennis. De Noite e Silêncio nasceu Caos e de Caos e Noite Cupido, ou, segundo a teologia órfica, de Oceano e Tétis a estirpe dos deuses; Boccaccio soube reconstruir a teologia gnóstica implícita nestes mitos gregos na Genealogia deorum gentilium, da qual certas durações ou figuras foram retomadas por Shelley. A tradução desta genealogia de durações fora do tempo e do espaço nos termos místicos originários é facílima: o aniquilamento místico corresponde ao Abismo donde nasce a Percepção, como Atena de Zeus, em perfeito Silêncio e por conseguinte com perfeita Graça. Os gnósticos são, em relação aos cristãos das várias Igrejas, similares aos taoistas em relação aos confucianos. Em Zhuangzi (XI, C) se encontra a explicação mais adequada ou experimental da cosmogonia valentiniana: "Vos revelarei o fundo do Princípio. Sua essência é o mistério, a obscuridade, a indistinção, o silêncio. Quando não se olha nada, não se escuta nada, quando se cinge o espírito de recolhimento, a matéria (o corpo) se endireita espontaneamente. Sede recolhido, desapegado, não fatigueis o corpo, não movais vossos instintos, e podereis durar sempre. Segui-me em espírito para além da luz, até o princípio viril de todo esplendor, e além da obscuridade até o princípio feminino das trevas. Segui-me agora para além destes dois princípios, à unidade ou princípio supremo. Conhecê-lo é a ciência global que não consome, manter-se em repouso contemplando-o, eis o que faz durar em eterno". {{tag>Zolla EZMO}}