SEGREDO DA SENHORIA E A IMITAÇÃO DE CRISTO

ALLARD L'OLIVIER, André. L'illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977

I

Deus criou para a sua própria glória, para comunicar o que Ele é de modo sobreabundante. “Eu era um tesouro oculto, quis ser conhecido e criei o mundo.” A Essência divina é cognoscível — por visão — apenas em modo existencial (é então que a criatura se extingue no desvelamento do puro existir divino, do qual, existencialmente, não pode distinguir-se) ou por sua identificação essencial a um Arquétipo divino, cabendo-lhe trabalhar, com a Gratia de Deus, para tornar-se o Aspecto segundo o modelo do qual foi criada: desde então, quando morre, “tal qual em si mesma enfim a Eternidade a transforma”. A Essência divina, enquanto totalidade dos Aspectos divinos, é incognoscível — ou melhor, como essa totalidade dos Aspectos é o próprio Verbo, essa Essência só é cognoscível pela Revelação do Verbo, no véu da carne, isto é, por meio de Cristo-Jesus. Mas todo homem foi criado à semelhança de um Aspecto divino, isto é — estes termos são correlatos — de uma Qualidade, de uma Possibilidade, de uma Forma, de um Arquétipo, de uma Ideia divina. Cada Ideia divina é uma possibilidade criatural, e cada homem que vem ao mundo tem por dever único “realizar” em si essa Ideia arquetípica, santificando-se: é então, e somente então, que se torna capaz de suportar o desvelamento existencial. Não, certamente, que uma essência humana, com suas estruturas individuais particulares, seja de modo absoluto uma Ideia divina encarnada; isso não é. Mas todo homem foi criado à imagem e à semelhança de Deus: à imagem, porque só existe a partir do Ipsum esse divino; à semelhança, porque sua essência, embora criada ex nihilo, provém de um Arquétipo divino. Quando o homem se santifica, sua essência, que é um nada existencial, harmoniza-se ao Arquétipo divino de que é reflexo. Então, a criatura individual torna-se capaz de suportar o Existir divino na medida mesma em que sua essência individual, suspensa no Arquétipo divino, é, em sua individualidade mesma, sustentada acima do nada.

Cada criatura é — ou é chamada a ser — um espelho em que Deus se contempla segundo um de seus Aspectos. Nada existe que não provenha de Deus, e a criatura que, na ilusão de sua autonomia existencial, se volta egoisticamente sobre si mesma, não possui, na realidade, nada que não seja de origem divina. É, pois, com razão que Deus exige que a criatura abandone-se a fim de tornar-se o espelho perfeito no qual Ele poderá contemplar-se segundo um de seus Aspectos. Assim, quando uma criatura, tendo concluído a longa marcha que é chamada a cumprir neste mundo em si mesmo ilusório, chega à visão existencial de Deus, o servo (a criatura) interroga: “Quem és Tu?”, e lhe é respondido: “Eu sou tu, porque não tens outra existência senão aquela que é Minha, que Eu te dou e que Me deves. Mas tu és o servo e Eu sou o Senhor. E restauro-te criatura segundo um de Meus Aspectos. Eu, que te vejo e que, ao ver-te, te existencio, tu, criatura individual com tua alma e teu corpo, o que vejo ao ver-te, sou Eu.”

Certamente, o homem a quem tal linguagem é dirigida em regime de Graça ou de Clemência não é uma criatura ilusória. Para um cristão, o Segredo da Senhoria de que fala Jili não é outra coisa senão a geração eterna do Verbo no seio da Unidade divina. Ora, convém supremamente — embora Deus não esteja sujeito a nenhuma necessidade — que esse Verbo, por quem, para quem e em quem tudo foi feito, seja, por um mistério diante do qual a inteligência se inclina, imerso naquilo mesmo que foi assim feito. O conteúdo criado contém o conteúdo criador. Tal é, para um cristão, o Segredo da Senhoria; mas, igualmente, esse segredo é o de todos, aqui, alhures, no passado ou no futuro. O Segredo da Senhoria é o mesmo para todos, mas cada um o compreende e o recebe na medida em que pode e na medida que permitem as funções vicariantes do Salvador às quais, estranho por força das circunstâncias à Revelação histórica e pública, está ligado.

Agora, sei. Criatura individual, sou, por Cristo imerso nesta criação, justificado no sentimento que tenho, apesar de tudo, de existir. Esta criação não é vã. Deus olha com um olhar favorável, um olhar que não aniquila a criatura, apenas aquela criatura essencialmente identificada a um de seus Aspectos. Todo Aspecto é também um Arquétipo, uma “forma” divina. E todos os Arquétipos, todas as “formas”, todas as Ideias divinas estão “contidas” no Verbo, por assim dizer, o Verbo sendo, no seio da União divina, o conjunto de todos os Aspectos divinos, isto é, o próprio Pensamento divino, segunda Pessoa da Trindade. O Pai olha com um olhar favorável apenas a criatura em que Ele vê, ao contemplar-se, tal ou qual Aspecto de Seu Verbo.

II

O que foi dito sobre o Olho do Coração, sobre a unidade da região superior da alma e de Deus que nela reside, é a expressão da Verdade tal como aprouve a Ele manifestar-se à minha fraqueza — ou, antes, ao meu nada. Conhece-te a ti mesmo. O verdadeiro conhecimento de si concede à criatura a ciência de seu nada. Santa Catarina de Sena não cessa de insistir na necessidade de conhecer-se como nada, mas acrescenta que tal conhecimento deve acompanhar-se de um movimento de toda a alma para Deus, na fé, conforme: “Eu sou aquele que é, e tu és aquela que não é.”

A união a Deus, chamada transformante, exige o recolhimento de todas as potências da alma perfeitamente unificadas e orientadas para Deus. A unidade ruysbroeckiana da região superior da alma e de Deus não basta de modo algum para assegurar a salvação: “ela é essencialmente em nós, diz Ruysbroeck, quer sejamos bons ou maus, mas sem nossa cooperação, não nos torna nem santos nem bem-aventurados.” A santidade e a bem-aventurança que confere a união transformante são adquiridas por uma união estreita de toda a alma a Deus (fusão sem confusão). Essa união restaura a semelhança perdida; exige a entrega completa da criatura nas mãos de Deus e a destruição do amor vão que essa criatura desordenada tem por si mesma e pelas coisas do mundo; exige também uma imitação tão perfeita quanto possível de Cristo-Jesus. Quer se volte para Deus, quer d'Ele se afaste, o homem está, de qualquer modo, destinado a sofrer. A revolta contra o sofrimento e o julgamento feito a Deus por causa do sofrimento são destituídos de sentido. Deus existe, e o sofrimento existe, e não é porque o sofrimento está no mundo que Deus não existe, sob o pretexto de que, se Deus existisse, não poderia tolerá-lo. O sofrimento está no mundo porque o homem se afastou de Deus. É porque o homem volta as costas a Deus que sofre. Toda a criação foi submetida ao homem, e o homem deveria ser submisso a Deus. A insubmissão do homem tem por consequência a insubmissão da criação ao homem, e de tal insubmissão provêm todos os sofrimentos. Mas por que o homem é insubmisso e esquecido? Por causa do pecado original que o destituiu. “Certamente, diz Pascal, nada nos fere mais rudemente do que essa doutrina; e, todavia, sem esse mistério, o mais incompreensível de todos, somos incompreensíveis a nós mesmos. O nó de nossa condição dá seus giros e voltas nesse abismo; de sorte que o homem é mais inconcebível sem esse mistério do que esse mistério o é para o homem.”

O meio de operar a restauração de tal maneira que todo o homem — corpo e alma — seja salvo (e a própria criação geme na expectativa dessa restauração) é imitar o Cristo e, se necessário, até a morte na cruz que Deus nos reservou. A imitação de Cristo restaura a semelhança perdida. O sofrimento, que de todo modo existe, deve ser assumido, e ele só é devidamente assumido mediante a destruição da vontade própria. A vontade própria é uma vontade viciada, cuja causa é o amor desordenado que a criatura tem por si mesma e pelas coisas do mundo. Assumido na humildade — pois é precisamente de humildade que se trata quando se fala da destruição da vontade própria — o sofrimento torna-se o veículo que conduz ao Pai pelo Filho. Todo sofrimento suportado que não é reconduzido ao sofrimento assumido por Cristo é estéril e vão. Reconduzido aos sofrimentos de Cristo e unido a eles, todo sofrimento aproxima-nos de Deus; é nesse sentido que se diz que ele é meritório e que apaga o pecado. O pecado é afastamento de Deus. Tudo o que afasta de Deus é pecaminoso. Ora, a vontade própria afasta-nos de Deus na medida em que ignora a vontade de Deus, a qual é que nos tornemos “deuses” pela imagem e semelhança. A necessidade de destruir a vontade própria não significa de modo algum que se deva renunciar a toda vontade e tornar-se apático, mas, antes, que a vontade humana deve, com o auxílio da Graça, conformar-se à vontade de Deus — que é, em última instância, fazer de nós santos e bem-aventurados. Fazer a vontade de Deus, com o auxílio da Graça, exige uma tensão constante da vontade, a qual trabalha para destruir não a natureza humana, mas aquilo que, nessa natureza, se opõe à união com Deus: combate incessante, que só termina com a morte. Todo sofrimento assumido em união com Cristo aproxima-nos de Deus. Por isso, ao fim, o sofrimento já não se distingue do amor: ele é desejado, não por si mesmo, mas porque Cristo, enquanto homem-Jesus, foi um homem de dor (pois, como Verbo, foi impassível). O santo sofre, mas, por assim dizer, alegremente. Sabe que o sofrimento o modela — o barro nas mãos do oleiro — de modo tal que se assemelhará a Cristo e herdará com Ele o Reino.