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O teatro, especialmente o auto-sacramental de Calderón, define a alegoria como um espelho pedagógico capaz de traduzir “o que é por aquilo que não é”, estabelecendo uma função coletiva e social distinta do símbolo iniciático, e antecipando mecanismos de personificação que a publicidade moderna utiliza para fetichizar a mercadoria numa pseudo-eucaristia de consumo.
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No século XVIII, Johann Joachim Winckelmann, fundador da arqueologia científica, tentou sistematizar a interpretação dos monumentos antigos no seu *Ensaio sobre a Alegoria*, comparando-a à ideografia egípcia e chinesa, e criticando os tratadistas anteriores como Valeriano Bolzani e Cesare Ripa por basearem-se em conjecturas frágeis.
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A análise crítica das interpretações alegóricas de Boudard e Winckelmann revela, contudo, a perda das chaves cosmológicas e astronômicas; o exemplo da alegoria da “Febre” (mulher deitada sobre um leão) foi erroneamente explicado por eles através de teorias humorais ou zoológicas, quando na realidade referia-se à passagem do sol pelo signo de Leão e à influência da Canícula em agosto, demonstrando o esquecimento das bases naturais do simbolismo antigo.
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*PS: ALLEAU, René. A ciência dos símbolos: contribuição ao estudo dos princípios e dos métodos da simbólica geral. Isabel Braga. Lisboa: Edições 70, 1982.*