MITO REVOLUCIONÁRIO (1969)

Hitler et les sociétés secrètes. Enquête sur les sources occultes du nazisme, 1969

[…] Sabe-se que a concepção soreliana do mito se inspira na psicologia de Bergson. Para este filósofo, um “ato livre” do homem consiste essencialmente em um daqueles “momentos únicos em que se toma posse de si mesmo, em que se recoloca na duração pura”. Criamos então um mundo totalmente artificial de imagens situadas à frente do presente, já formadas por movimentos e que dependem de nós. Embora artificiais, essas imagens, essas representações ideais, contribuem de forma decisiva para mudar a direção de nossa vida psicológica e orientar nossos atos.

J.F. Neurohr aproxima esses “momentos únicos vividos” bergsonianos do que a filosofia alemã moderna chama de ein Erlebnis. Sorel parece ter aplicado essa psicologia da ação à sociedade e à história. “Esses mundos artificiais”, diz ele, “geralmente desaparecem de nossa mente sem deixar lembranças, mas, quando as massas se entusiasmam, então podemos descrever um quadro que constitui um mito social”. ” Para o famoso autor de Réflexions sur la violence, “a greve geral é o mito no qual o socialismo se encerra por completo, ou seja, uma organização de imagens capazes de evocar instintivamente todos os sentimentos que correspondem às diversas manifestações da guerra travada pelo socialismo contra a sociedade moderna. As greves geraram no proletariado os sentimentos mais nobres, mais profundos e mais motivadores que ele possui; a greve geral agrupa todos eles em um quadro geral e, por sua aproximação, dá a cada um deles o máximo de intensidade; apelando para lembranças muito dolorosas de conflitos particulares, ela colore com uma vida intensa todos os detalhes da composição apresentada à consciência. Assim, obtemos essa intuição do socialismo que a linguagem não poderia dar de maneira perfeitamente clara — e a obtemos em um conjunto percebido instantaneamente” Reflexões sobre a violência, 1906, reedição Rivière, Paris, 1946, p. 182.

Uma nota que segue este texto de Sorel acrescenta: “É o conhecimento perfeito da filosofia bergsoniana. ” Vemos, assim, que se trata de uma concepção pragmática, antidetermista, anti-intelectualista, antimecanicista, da psicologia mítica, individual e coletiva. Grupos sociais ou nações inteiras, em momentos de crises graves ou revoluções, seriam animados por uma organização viva de imagens, feita da negação do presente, mas também de seus sonhos, de suas aspirações, de suas forças dinâmicas. Esse mito revolucionário não seria uma descrição das coisas, nem como elas são, nem, sobretudo, como serão na realidade, uma vez ocorrida a mudança, mas expressa um conjunto de vontades.

Um mito, no sentido soreliano, distingue-se essencialmente de uma utopia composta e elaborada por um filósofo ou por um cientista que pretende “pensar pelo proletariado”. É uma organização imaginária motriz, uma “ideia-força”, que possui um grupo social a ponto de levá-lo a se tornar uma potência criadora da história. Sorel dá o exemplo dos “protestantes da Reforma, alimentados pela leitura do Antigo Testamento. Desejando imitar as façanhas dos antigos conquistadores da Terra Santa, eles partiram para a ofensiva e queriam estabelecer o reino de Deus pela força”.