GEOSOFIA MONTE SAINT-MICHEL

ALLEAU, René. Enigmes et symboles du Mont Saint-Michel. Paris: Julliard, 1970

O Monte Saint-Michel aparece assim como uma fronteira monumental entre a terra e o mar, mas também entre espaços diferentes, entre durações distintas, entre a evolução linear e irreversível do tempo histórico e o desdobramento cíclico e circular do tempo mítico. É nesse sentido que sua forma triangular evoca o fiel de uma balança invisível, a da “psicostasia” ou da “pesagem das almas” e a do Arcanjo “psicopompo”, representado no grande portal de nossas catedrais e que, no fim dos tempos, deve se manifestar visivelmente em nosso mundo, assim como o fez desde a origem, durante o combate primordial da Luz contra as potências das Trevas.

Neste lugar sagrado, como La Varende sentiu profundamente: “Tudo é enigma, interrogações. Que mundo é esse situado lá no alto, acima dos homens e das hospedarias, esse mundo, acima da terra, que se expande nessas inúmeras janelas, nessas passagens, nessas salas cujos tetos se opõem e se projetam? Uma vida fervorosa dele emana, uma vida atormentada, aérea e tempestuosa… E a impressão de irrealidade nos toma e nos assusta; o castelo se torna uma formidável projeção de sonho…” Mas de que sonho se trata? Ou de que realidade desconhecida?

Seriam sonhadores esses construtores que deviam estudar, segundo a regra de São Bento, a arquitetura, a pintura, o mosaico, a escultura e todos os ramos das artes, das ciências e das técnicas de seu tempo? Esses abades cujo primeiro dever era traçar o plano dos monumentos e de todas as construções das comunidades que eram chamados a dirigir e que, terminado esse trabalho, participavam diretamente dos trabalhos dos canteiros?

Durante a construção da abadia do Bec, em 1033, o fundador e primeiro abade, Herluin, por mais que fosse um grande senhor normando, participou como simples pedreiro, carregando nas costas a cal, a areia e a pedra. Outro normando, Hugo, abade de Selby, em Yorkshire, também se impôs essa tarefa quando, em 1096, reconstruiu em pedra os edifícios de seu mosteiro, antes feitos de madeira. Vestido com um casaco de operário, misturado aos outros pedreiros, ele compartilhava todos os seus labores. Os monges mais ilustres por sua origem se destacavam pelo zelo nessas humildes tarefas. Hezelon, cônego de Liège, do capítulo mais nobre da Alemanha, renomado por sua erudição e eloquência, tornou-se monge em Cluny, durante a construção da grande abadia, e trocou seus títulos, prebendas e reputação mundana pelo nome de “Pedreiro” (Cementarius), emprestado, acredita-se, de sua ocupação habitual. Enquanto simples monges eram frequentemente os arquitetos-chefes das construções, por exemplo, na abadia de Moutierneuf, em Poitiers, os abades muitas vezes se reduziam ao papel de operários.

No século IX, a comunidade de Saint-Gall, tendo trabalhado em vão um dia inteiro para extrair da pedreira uma das enormes colunas de um só bloco que deveriam servir à igreja abacial, e todos os irmãos estando exaustos, foi o abade Ratger que, persistindo sozinho nesses esforços sobre-humanos, conseguiu, invocando São Galo, fazer o monólito se desprender finalmente. Quando o edifício foi concluído, com suas admiráveis dependências, o entusiasmo forçou até os mais invejosos a exclamar: “Vê-se bem no ninho que tipo de pássaros o habitam!”

Sonhadores? Ou monges-cavaleiros lutando contra a gravidade do mal e da ignorância, no limite de uma realidade mais profunda, para que o homem pudesse ver mais longe e viver mais alto? Como entender suas mensagens se ignoramos o código sutil que as transmite sob véus de pedra: a antiga “língua dos pássaros”, jargão hermético dos iniciados, ensinado pela heráldica em seu período mais elevado, principalmente no século XIII, essa medieval “renascença das Luzes” que vinham então do Oriente?