Professor de Filosofia argentino com estudos primorosos sobre o Gnosticismo, Plotino, Sankara, e René Guénon.
É possível sustentar que as relações do pensamento filosófico e da reflexão teológica com o fenômeno religioso universal, alargadas de modo crescente durante a segunda metade do século, foram obscurecidas em suas tentativas de compreensão por três obstáculos teóricos que poderiam ser enunciados como: 1) o preconceito existencialista de inspiração heideggeriana; 2) o preconceito cristão, e 3) o nascente preconceito pós-moderno. Os três preconceitos manifestam peculiar caracterização: suas próprias raízes culturais. Geram, também, as correspondentes consequências.
A primeira das pressuposições indicadas, apoiando-se no valor exclusivo do existente histórico, deixa de lado e desacredita a realidade da experiência do tempo cíclico, da filosofia como forma de vida tradicional e da possibilidade da metafísica como sabedoria universal. As três limitações aludidas gravitam poderosamente nos pensadores que militam nesta corrente e enfraquecem suas propostas metodológicas e hermenêuticas em relação a nosso tema, como acontece de modo notório com H.-G. Gadamer e com P. Ricoeur.
O segundo dos conceitos subjacentes a que se faz referência, ao confinar a noção de “religião” dentro dos limites rígidos da interpretação ortodoxa da religação, da fé e da história salvífica, deixou na sombra as possibilidades maiores da experiência religiosa e cultural ecumênicas, que teria sido firmada nos séculos anteriores ao concilio de Nicéia (325), quando as tendências cristãs protocatólica, gnóstica e judeo-cristã se difundiam comunitária e livremente pela área das culturas greco-romana e do antigo Oriente Próximo.
A terceira das parcialidades, por sua vez, encerrando o ser humano em uma pretensa emancipação total de sua natureza, que repousa em sua intrínseca contingência e no pertinente exercício de suas potências humanas, contribui com o empreendimento intelectual em que se comprometeu apenas com alguns elementos desigualmente valiosos e amiúde soluções ilusórias em sua crítica dos preconceitos anteriores, uma vez que, graças à sua persistência na rejeição de todo fundamento e de todo grande relato ou discurso nele fundamentado, cai pela enésima vez na armadilha paradoxal de Epimênides, pois: “Não existe fundamento, além da afirmação fundamental de que não existe fundamento”.
A posição sustentada neste livro apoia-se nos opostos da tarefa pensante. Rastreando por meio da investigação apoiada no método histórico-crítico e descritivo, da universalidade, peculiaridade, natureza experiencial e tradicional dos fatos religiosos e metafísicos, justamente por sua presença naqueles exemplos que os preconceitos indicados e outros deixaram de lado, para dedicar-se às polêmicas estéreis às quais um limitado ângulo de visão os convidava, procura mostrar que a problemática do sagrado e de suas vicissitudes demonstra suas próprias características.
O mito e a história não se opõem, mas são os dois modos irredutíveis entre si, mas complementares, do modo como os seres humanos foram capazes de viver finita e temporalmente a realidade do sagrado, tendo produzido a partir de suas concepções culturas e civilizações que quiseram conservar essas vivências.
Apenas a experiência libertadora da mística resgata desta dualidade de opções, mas quando se expressa com os recursos que encontra e gera, de novo recai nas oposições da existência temporal.
Indianos e gregos, de um lado, religiões do livro, incluindo os cristãos (católicos, gnósticos e judeo-cristãos), do outro, assim o ratificam.
As posições habitualmente consideradas “filosóficas”, com seu desajuizado apêndice “pós-modernista”, e as posições “cristãs”, com suas excrescências salvífico-heresiológicas, muito pouco podem contribuir para o tema em profundidade, pela rigidez do enfoque, e menos ainda as “ciências”, conforme sua sistematização moderna, que nada têm que ver com o real da realidade, embora o tenham com a utilidade bem entendida que sempre prestaram com seu limitado conhecimento para a captação do real a que nos referimos.