TRATADO DA RESSURREIÇÃO

GARCÍA BAZÁN, Francisco. Gnosis. La esencia del dualismo gnóstico. Buenos Aires: Ediciones Universitarias Argentinas, 1978

Próximo doutrinariamente ao E.V. encontra-se o tratado Sobre a ressurreição ou Epístola a Reginos. É um escrito breve, que tem a forma literária de uma carta, mas que pelo seu conteúdo se revela como uma exposição discursiva sobre o tema da ressurreição. O autor da carta não é mencionado no documento, mas trata-se de um mestre gnóstico, cuja orientação valentiniana está impregnada de platonismo alexandrino. O destinatário da epístola é mencionado, chama-se Reginos e vive na Palestina. O escrito é composto por uma introdução em que se detalha o motivo da carta (43,25-44,10); as dúvidas de Reginos com as respostas do mestre, algumas admoestações e a saudação final (46,3-50,16) e o centro do escrito em torno da noção de ressurreição, baseada em Jesus Cristo como o paradigma da realização essencial (44,13-46 2). É precisamente este o tema que permite o desenvolvimento do discurso. Aqui, a ressurreição, de forma muito gnóstica, é considerada pneumaticamente. Ou seja, tomando um dos aspectos paulinos que a declara como uma passagem da morte para a vida, nossa epístola aprofunda essa oposição entre a ausência ou presença da graça divina no coração humano, apresentando a ressurreição, mais especificamente, como o renascimento ou a captação da própria natureza espiritual que subjaz ao ser humano mutável, como seu fundamento imutável. Desta forma, é possível mostrar o mistério da ressurreição como uma realidade espiritual que ocorre durante a própria existência mortal, como uma iluminação da profundidade íntima que se dá na própria história individual, mas acima dela. Em uma palavra, o que eclesiasticamente se denomina uma “escatologia realizada”. Em outras palavras, a autognose é o fundamental e não precisa de forma alguma da pessoa humana, porque o importante é a automanifestação que ocorre no reencontro do Eu-Mesmo. Em nenhum momento o documento dá base para interpretar essa doutrina antropomorficamente, pois, segundo ele, se o homem está fatalmente condenado a algo, é precisamente a ser homem.