SOCOA, Michel de. La Part de Fortune. Paris: Éditions Traditionnelles, 1983.
* A astrologia é uma ciência tradicional, e não uma ciência de observação nem uma ciência oculta, pois ambas essas categorias são invenções modernas, enquanto a astrologia remonta bem antes da história, sendo as pretensos tradições astrológicas, segundo René Guénon, simplesmente fragmentos de um conhecimento perdido e doravante incompreendido.
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Os pesquisadores do fim do século XIX que quiseram reabilitar a astrologia tentaram apresentá-la como ciência de observação para separá-la do ocultismo, mas o dilema estava mal colocado.
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Guénon observa que todos os obras astrológicas conhecidas pertencem a períodos de decadência tradicional, seja o fim da Antiguidade greco-latina ou o fim da Renascença.
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A obra completa mais antiga conservada é a de Cláudio Ptolomeu, astrônomo e astrólogo da Escola de Alexandria do século II da era cristã, conhecida como os Quatro Livros, que constitui o testamento da astrologia antiga e parece ser uma compilação de tudo o que se conservou de fragmentário dos astrólogos anteriores, da escola caldeia à escola grega, de Berose a Manílio, assim como dos discípulos de Ptolomeu como Fírmico Materno.
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A enorme obra de Morin de Villefranche, a Astrologia Gálica de 1661, em vinte e seis livros, resume e encerra toda a tradição astrológica medieval, a da Renascença e a dos astrólogos árabes e italianos, como Haly, Junctino e Cardano.
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Essa filiação contínua mostra por quais deformações a ciência astrológica chegou dos caldeus até os dias atuais.
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A hipótese de que a astrologia seja uma ciência de observação seria insuficiente para explicar sua criação, pois em seu objeto primeiro e em seu princípio ela não se ocupa particularmente do homem, sendo essencialmente a ciência dos ciclos planetários e estelares.
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A aventura terrestre do homem é comandada pela física do globo, portanto a história depende da geografia, que por sua vez decorre da geologia, que ela mesma só se explica em ligação com a história do sistema solar.
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O movimento periódico de maior envergadura que religa a Terra ao ciclo solar é a precessão dos equinócios, de cerca de 26.000 anos, que sozinha pode dar conta das eras glaciais passadas e futuras.
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Como todo movimento ritmado se reflete nos harmônicos de períodos cada vez mais breves, a física incita a pensar que a história humana obedece a leis periódicas dependendo em parte dos ciclos planetários.
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A ciência astrológica é cósmica e remonta bem antes da história, sendo portanto uma ciência tradicional dependente essencialmente de princípios, e é precisamente esses princípios que mais faltam nas obras de Ptolomeu, onde se encontra uma sequência de aforismos sem que o leitor possa discernir os grandes princípios que os comandam.
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Para compreender a astrologia e aplicá-la seria necessário conhecer a ciência de seus símbolos, pois ela usa, como toda técnica especializada, uma língua particular, um sistema especial de símbolos.
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Somente remontando aos elementos simbólicos primeiros será possível compreender e corrigir as receitas dos autores antigos, que são apenas consequências fragmentárias e incompreendidas dos princípios.
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É o que se tentará mostrar a propósito de um dos elementos mais incompreendidos e ignorados da tradição astrológica: a parte da fortuna.