Nos estados de sono profundo, a atividade lógica é amortecida e o sonho, formalmente, deixa de existir, restando apenas o jogo isolado das sensações interiores, fora de qualquer compreensão.
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O fato de o sonho ser posterior às sensações que pretende explicar demonstra que a interpretação é seu elemento essencial, como nos exemplos de Descartes, que sonhou com um duelo a partir da picada de uma pulga, e de Maury, que sonhou com sua guilhotinação a partir de um golpe no pescoço.
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A sensação física é a causa eficiente do sonho.
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A interpretação lógica é projetada retroativamente, tornando a sensação também uma causa final.
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A atividade do espírito no sonho revela-se como uma razão automática, que divaga quando não pode mais retornar à realidade da terra.
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É possível duvidar que o mesmo mecanismo opere na vigília, mas o sonho, mesmo patológico, é revelador, pois a doença opera pelo mesmo mecanismo da saúde.
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Existem indivíduos que, em estado de vigília, apresentam os mesmos fenômenos interpretativos de forma hipertrofiada: são os delirantes interpretativos, que constroem raciocínios falsos sobre bases reais.
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O delirante, como o sonhador, é um lógico formidável que quer tudo explicar, construindo sistemas para legitimar tudo o que o perturba.
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O homem normal, em vigília, também interpreta incessantemente, mas a diferença crucial está na elasticidade de sua razão, em sua humildade adaptativa, que o distingue do louco sistemático.
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O homem normal também se desvia, mas retorna constantemente, submetendo sua razão errante ao olhar implacável da realidade que o reorienta.
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A saúde do espírito reside no equilíbrio entre ardor e despojamento, entre ímpeto e submissão, devendo o espírito ser um instrumento disponível e ingênuo, sem apego excessivo a ideias particulares.
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O homem de uma única ideia permanece paralisado em uma atitude fixa, como o sonhador que repete o mesmo sonho todas as noites, qualquer que seja a causa desencadeante.
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A palavra é o pensamento discursivo, por trás de cuja espontaneidade existe uma deliberação automatizada, sendo o juízo uma síntese, o que estabelece a mesma relação entre pensamento e palavra que entre o mundo das sensações e o da razão, e que os gregos nomeavam “logos”.
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O termo grego “logos” designa tanto a palavra quanto a razão comum.
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A palavra é um juízo de juízos, uma integração.
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Lógica e linguagem são nomes para uma atividade de mesma natureza, um mecanismo interpretativo que define o encontro de todas as experiências particulares, sendo ambas fenômenos de frequência.
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A vida é vivida como artistas, mas a fala é resignada como a de sábios, cabendo à razão conciliadora estabelecer o vínculo entre a vida única e a palavra comum.
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A razão está sempre pronta a justificar tudo, mesmo pelo absurdo.
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Essa função de ligação é a razão de ser da própria razão.
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A palavra é ainda mais retrospectiva que o pensamento, pois falar é inserir a visão do mundo nos gestos dos antepassados, sendo a língua uma pátria onde ressoa a voz reconhecível dos ancestrais.
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Na escala de uma vida, falar é contar suas memórias, pois o gesto ou verbo banal do automatismo une instantaneamente a todos os gestos e estados de alma análogos, passados e futuros.
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Os sonhos são fluxos e refluxos de uma maré espiritual, retornos ou antecipações, e as descobertas traçam o caminho das analogias por onde as ideias virão bater à porta.
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Não é possível imaginar o impossível nem criar o desconhecido, sendo até mesmo o mentir uma impossibilidade, pois o que é pessoal e singular no homem, como a mentira, mais o trai e revela suas limites.
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A mentira, por ser pessoal, é quase uma confidência de si mesmo.
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O silêncio é um espaço de liberdade, enquanto a palavra abre a porta para a prisão vindoura.