O árabe clássico antigo comportava mais de cinco mil palavras relativas ao camelo, cada uma reservada a um dos múltiplos aspectos de sua anatomia, aparência, sexo, idade, pelagem, costumes, gritos, situação de tempo e lugar, crescimento, saúde, vícios, doenças ou desempenho.
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Uma única palavra do vocabulário camélino podia responder simultaneamente às perguntas sobre quem era o sujeito, onde estava, com quem, por que ali chegara, como e em que momento.
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O vocábulo correspondente tornava-se um verdadeiro nome próprio que, em dado momento, só podia aplicar-se a um único indivíduo, à maneira das condições de nomeação a um cargo concebidas para um único candidato que as reunisse todas.
Cada família tinha sua própria linguagem, assim como ocorre hoje, quando um diálogo entre pessoas íntimas, surpreendido por um estranho que conhece a língua, lhe permanece praticamente incompreensível por não estar iniciado em todas as implicações de cada palavra para os membros daquele grupo.
Uma especialização tão estreita, vinculada a uma realidade personificada, excluía toda generalização e impedia a expressão do movimento e da mudança, o que só foi facilitado pela passagem do nome próprio ao vocábulo comum, isto é, pela transformação do nome em símbolo.
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O trabalho em comum deve ter facilitado essa transferência, e o uso das ferramentas impôs um manejo igualmente mais flexível da língua.
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A origem artesanal da maioria dos verbos testemunharia em favor dessa hipótese.
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A primeira fala parece misturada a uma ação em que as palavras substituíram os antigos gestos porque a voz alcançava mais longe e podia atingir aqueles que não se via.
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O simbolismo em sentido estrito apareceu quando a palavra, mal saída da ganga da frase, foi utilizada para transmitir um sentimento ou uma ideia.