O que se chama fato é a interpretação de uma observação, como afirma Eddington, e a física não estuda qualidades inescrutáveis da matéria, mas registros de aparelhos que não têm mais relação com essas qualidades do que um número de telefone com a pessoa do assinante, asserção aplicável igualmente às matemáticas, conforme enunciado por Hilbert.
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O fenômeno é deformado tanto ao ser percebido quanto ao ser expresso, pois só se retém da coisa considerada o que se mede em unidades de observador, e há tantas unidades quantas consciências, tornando toda expressão pessoal e não suprimindo as demais possibilidades.
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Reduzir tudo a movimentos elimina do mundo, como fez Descartes, o que lhe confere valor, ou seja, cores, perfumes, sons, o sabor dos frutos e toda a fecundidade do mundo sensível, sem a qual o próprio espaço não existiria, pois desde Einstein sabe-se que ele existe apenas pelo que nele se encontra.
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O símbolo, como um taumaturgo, ressuscita um tempo e um sentimento apagados, mas as imagens de palavras ou formas jamais são compreendidas em sua integridade tal como foram pensadas ou vividas por seu autor, sobretudo quando séculos os separam do receptor.
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Cada um é prisioneiro de seu tempo, e as próprias matemáticas são históricas.
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O espírito do homem é limitado por sua língua materna; ele vive e pensa no interior do mundo que sua cultura explora e lhe permite nomear.
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Uma encarnação sempre nova deve reanimar toda expressão geralmente admitida para ser compreendida por quem a recebe.
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Entre a noção lógica de que todo homem é mortal e a morte súbita da própria mãe há o choque de uma revelação perturbadora que transforma por magia.
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Kierkegaard expressou isso magnificamente ao dizer que só compreende a verdade quando ela se torna vida em si.
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A nebulosa intuitiva da ideia mãe jamais poderá resolver-se em simples lógica, pois subsistirá sempre algo de tradicional, anterior e dado, e a parte exprimível e aparente é, como a de um iceberg, o sinal de alerta de uma realidade incomensurável e invisível.
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Os próprios símbolos têm seus limites, mas antes de serem fixadas, as imagens mentais constituem o guia interior e a matéria mesma da vida, e essa gesticulação patética que anima em segredo a consciência só pode nascer para a existência se se recebeu a iniciação de um sistema de signos suscetível de ser compreendido e se, como Orfeu, se tem a capacidade de libertar o próprio canto.