A tradição hebraica formula explicitamente essa trilogia humana desde o início da Gênese, no momento da criação do homem por Deus: YHWH modelou primeiro o corpo do homem, o basar, com o limo da terra, depois lhe insuflou a vida, a alma vivente, o nefes, com seu próprio sopro, que é espírito, o ruah.
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A tradição helênica, em sua forma mais elevada que é o platonismo, ensina que o ser humano é composto de um corpo, o soma, de um espírito, o nous, e de uma alma que os religa, a psyché, divisão retomada pela tradição romana nos termos corpus, anima e spiritus.
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O pensamento cristão respeitou essa divisão tradicional, e são Paulo retomou com precisão a divisão mosaica, sendo que os mais autênticos padres da Igreja e os maiores doutores aceitaram a mesma concepção trinitária que faz do homem a imagem da Trindade Divina.
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Santo Ireneu expressou-a com força em seu tratado sobre a Ressurreição, afirmando que há três princípios do homem perfeito: a carne, a alma e o espírito, sendo o espírito o que salva e forma, a carne o que é unido e formado, e a alma o intermediário entre os dois.
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Embora a divisão ternária seja idêntica em todas as tradições, elas não se situam todas no mesmo ponto de vista, e assim que se aborda a parte imaterial do homem começam as discussões, sendo que a tradição cristã reconhece a parte espiritual do ser humano como uma graça santificante e um dom do Espírito Santo que penetra a alma em sua parte superior e assim a espiritualiza.
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Por isso os cristãos habitualmente dividem o homem em duas partes, alma e corpo, fórmula que supõe uma divisão tripartite da própria alma.
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Se os doutores espiritualizam a alma, é para escapar ao perigo de atribuir-lhe uma parte corporal, como havia feito Platão e os gnósticos.
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Santo Agostinho e mesmo são Boaventura supunham à alma um corpo sutil e espiritualizado, doutrina autenticamente tradicional afastada pela Igreja por receio de uma materialização da alma.
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A consequência prática dessa transformação foi que, em vez de espiritualizar a alma, os escolásticos fizeram descer o espírito para a zona psíquica do homem, colocando nela a divisão tripartite, distinguindo uma alma sensitiva, uma alma ativa-passiva referente à vontade e uma alma racional que sente, quer e conhece.
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Os gregos já haviam reconhecido em sua psyché uma alma irracional, uma alma razoável e uma alma espiritual.
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Quanto ao espírito, exerce duas funções: a de intelecto especulativo, que o faz participar da essência da verdade pela contemplação, e a de intelecto prático, que determina as regras das ações boas.
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Os escolásticos jamais abandonam o fio condutor da continuidade e da unidade do eu em sua análise, pois para sentir é preciso padecer ou agir, para agir é preciso conhecer, e o homem inteiro colabora a cada instante para toda a sua vida, suas sensações, suas ações, seu julgamento e seu conhecimento.
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Porque a alma, em sua parte inferior, está ligada ao corpo, ela sofre as paixões, que manifestam cada uma uma faculdade, um apetite, um desejo nascido de uma percepção sensível.
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Os escolásticos distinguem o apetite do concupiscível, o apetite irascível e o apetite razoável do que é bem, que manifesta a faculdade da alma racional, a vontade.
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As diferentes paixões se articulam segundo a divisão ternária dos apetites da alma e se engendram segundo uma ordem determinada, sendo o amor a primeira paixão, a segunda o ódio nascido da recusa do amor, e as demais o desejo do objeto amado ou a aversão do objeto odiado, encerrando o ciclo do concupiscível o prazer e a dor.
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A esperança do bem desejado inicia o irascível, com seu contrário o desespero.
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A esperança engendra a audácia; do desespero nasce o temor; a cólera segue a audácia que quer vencer o obstáculo e termina na alegria ou na tristeza conforme o resultado da luta.
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As paixões não são em si mesmas nem inteiramente boas nem inteiramente más, sendo poderosos motores de que a razão pode se servir, mas podendo degenerar em verdadeiras loucuras, como as definiu a psiquiatria moderna, se escapam ao seu controle.
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Entre as faculdades da alma e os atos do homem se introduzem os princípios interiores de ação, as virtudes para os atos bons e os vícios para os atos maus, sendo ambos habitus, isto é, caracteres permanentes e eficazes cuja segunda natureza durável recobre a primeira natureza.
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Aristóteles deixou a lista das dez principais virtudes morais: força, temperança, liberalidade, magnificência, honra, magnanimidade, mansidão, afabilidade, sinceridade e jovialidade.
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A tradição cristã reteve sete virtudes principais, distinguindo as quatro cardinais, prudência, temperança, força e justiça, e as três teologais, caridade, esperança e fé.
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Os sete vícios principais são, dos que interessam o corpo, gula, luxúria e preguiça, e dos que interessam a alma, inveja, cólera, avareza e soberba; os atos desordenados que deles resultam receberam o nome de pecados.
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Na parte puramente intelectual da alma reconhece-se o intelecto possível, em potência em relação a todas as coisas inteligíveis e cuja aquisição constitui a virtude intelectual, e o intelecto agente, que se manifesta especulativamente nas virtudes de inteligência, ciência e sabedoria, e praticamente nas virtudes de bom conselho, julgamento e prudência.
TERNÁRIO DO SER HUMANO
| EM HEBRAICO | EM GREGO | EM LATIM | EM FRANCÊS | FACULDADES | OPERAÇÕES |
| Bâsâr | Soma | Corpus | Corpo | Memória | Sensação | Lembrança |
| Néfès | Psique | Anima | Alma | Vontade | Paixão | Ação |
| Rûah | Nós | Spiritus | Espírito | Inteligência | Intuição | Julgamento |
TERNÁRIO DA ALMA
| ALMA | APETITES | PAIXÕES | LOUCURAS |
| Sensível | Concupiscente | Amor-Ódio; Desejo-Aversão; Prazer-Dor | Delírio de autoacusação |
| Razoável | (Razão) | Alegria-Tristeza | Mitomania |
| Ativo | Irascível | Esperança-Desespero; Ousadia-Medo; Raiva | Delírio de reivindicação; Hiperemotividade; Loucura erótica; Loucura perversa |