Em toda linguagem, manifesta-se a condição de nosso ser, permitindo avaliar a qualidade dos órgãos e sentidos, como o olho, o tato, a audição e o gosto, que, assim como a agilidade das mãos ou a gourmandise, contribuem para desatar a língua.
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A perfeição ou o defeito de um aparato corporal se faz ouvir na fala.
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A relação entre o desenvolvimento motor e a fala é exemplificada pela criança que, se anda tarde, fala menos rapidamente e pior.
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A preocupação intelectual excessiva tende a se fixar em fórmulas monótonas e defeitos de retórica que traem tanto a fadiga do corpo quanto a obsessão do espírito, sendo o ideal o equilíbrio encontrado no dançarino ou no clown.
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Clichês, repetições e ênfase são sinais de um desequilíbrio.
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O perfeito domínio do corpo é apresentado como modelo para a expressão.
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A palavra está ligada não apenas ao corpo, mas também às coisas que o prolongam, pois o corpo, como coisa privilegiada, confiou à palavra seu segredo, que é também o segredo do mundo.
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O homem nasce no meio das coisas, e o corpo estabelece essa relação.
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O segredo do mundo é comunicado através da palavra, por intermédio do corpo.
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O corpo possui uma sabedoria que supera a consciência, pois seu instinto é tão seguro que se confunde com a razão, acumulando um passado imenso e servindo como testemunho privilegiado do mundo e da memória.
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Desde o nascimento, o corpo é tão velho quanto o mundo.
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Por meio do corpo, a fala se torna veículo da memória e do passado.
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Conhecer e falar são atos equivalentes a lembrar, e termos como hereditariedade, sensação, tradição e conhecimento designam aspectos de um mecanismo comum.
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Materialmente, o corpo é uma sensação global e duradoura que se mantém enquanto persiste sua ressonância perfeita com o ritmo universal.
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O primeiro homem, em seu balbucio, possuía tanto conhecimento quanto Shakespeare, pois o estado de civilização é, por definição, o estado primitivo do homem.
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A língua incipiente do homem primitivo já buscava expressar um conhecimento total do universo.
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A ideia de que a civilização é um estado primitivo não é um paradoxo, mas uma definição.
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Embora seja interessante o estudo histórico das contribuições da vida social para o aperfeiçoamento do instrumento verbal inato, a sociedade do homem não se restringe ao meio social, mas abrange toda a natureza.
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A família, o trabalho e a vida social são aperfeiçoamentos ocasionais da palavra.
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A palavra é a participação humana no canto plano universal.
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A vida das coisas é conhecida porque o homem é seu desejo ou dor ativa de estar com elas, movido por uma sede de conhecimento e uma cobiça do mundo, como as figuras mitológicas que se encarnaram ou se metamorfosearam por amor às coisas terrestres.
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O homem desce à terra impulsionado pela cobiça do mundo.
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A relação com o mundo é de desejo e metamorfose, como nas fábulas.
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Uma palavra verdadeira é um ato de assentimento e união ao mundo, uma resposta amorosa que continua o gesto do corpo, e os grandes séculos de expressão artística coincidem com os séculos de fé, não por acaso, mas por uma lei.
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Ao falar, o homem não expressa apenas sua primeira pessoa e seu pensamento, mas também escuta as coisas, pois as palavras foram recolhidas por ele em seus lábios inspirados, no meio da fala contínua que acompanhava sua paixão de viver.
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Essa visão se distancia daquela dos filósofos que concebem a origem da linguagem como uma tarefa arbitrária e inexplicável imposta pelo homem para traduzir a essência do mundo.
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A ideia de um homem mudo que um dia decide criar palavras para expressar uma essência desconhecida é rejeitada.
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A perspectiva apresentada se opõe à noção de uma invenção consciente e utilitária da linguagem.
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Reafirma-se a concepção platônica de que a mimese não exprime a essência das coisas, mas as reproduz.
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A mimese é um ato de reprodução, não de tradução de uma verdade essencial.
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A autoridade de Platão é invocada para fundamentar essa distinção.
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A palavra, como canto espiritual da sinfonia mimética que é o homem, não traduz a verdade do mundo, mas reproduz seus atos, com o homem imitando as coisas por meio de gestos e palavras que correspondem à ideia que esses gestos fazem nascer.
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Nessa correspondência originária reside o mistério profundo da linguagem, uma união surpreendente e natural que os hindus atribuíam a uma convenção divina que confere sentido imediato às modulações do sopro.
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Em um universo profundamente conhecido por sua alma, mas onde sua razão chegava sempre nova, o homem primitivo, como uma criança, imitava as coisas para nomeá-las, enviando-lhes uma mensagem de simpatia por meio do movimento, elemento comum entre ele e o mundo.
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A nomeação das coisas era um ato de imitação, uma forma de torná-las favoráveis.
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O movimento era o intermediário universal que permitia a mimese das atitudes e gestos das coisas.
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Essa pantomima ancestral é repetida cotidianamente, pois por trás de toda palavra subsiste o gesto que ela substituiu, como um suporte necessário, fazendo da palavra a extremidade sensível e sonora de um gesto inibido.
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O espectador exterior é, no íntimo, um ator secreto, segundo Nicole.
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A palavra necessita, para nascer, de afecções motoras, ideias ativas e desejos (motions), não de imagens estáticas.
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O homem não é um contemplador impassível da natureza, mas reage em cumplicidade com as coisas, repetindo continuamente o movimento do mundo com uma docilidade que o sustenta e o consome.
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O filme do mundo sofre uma perpétua sobreimpressão da alma humana.
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A vida é um vibrar em sintonia com o mundo, uma vibração que, embora canse, é a condição da existência.
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Mesmo na inatividade aparente, viver é fatigante, pois se vive a própria vida ou a dos outros, e as emoções, mesmo mais brandas, se multiplicam, compensando em número a falta de intensidade.
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A experiência da vida é sempre ativa, seja por ação própria ou por empatia.
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A quantidade de emoções compensa sua possível menor potência.
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É por meio da ação interior, das atitudes que os músculos esboçam e retêm, que o homem, mesmo imóvel, toma a medida do mundo, constituindo esse processo o primeiro estágio materialmente tangível do pensamento, eternizado por Rodin em seu “Pensador”.