A história do pecado original narra a queda do “je” na psique, entendida como a tentativa da imagem (função cósmica do homem) de possuir a semelhança (relação vertical com o Princípio).
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O homem é criado à imagem e segundo a semelhança de Deus; a imagem define a função cósmica (relação horizontal), enquanto a semelhança diz respeito ao conteúdo da imagem, à pessoa espiritual (relação vertical).
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A serpente afirma que, comendo do fruto, Adão e Eva serão “como deuses”, quando já o são; o teomorfismo interior é apresentado como objeto exterior a ser possuído, e desejar possuir o que já se é introduz a dualidade e a perda da natureza.
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A manducação do fruto proibido opera a inversão da estrutura antropológica: o interior torna-se exterior, o superior torna-se inferior, atualizando-se a dualidade.
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Os dois árvores no centro do Paraíso simbolizam as possibilidades do mundo humano: a árvore da vida (comunicação com o mundo espiritual) envolve a árvore da ciência do bem e do mal (virtualidades inferiores).
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Ao comer o fruto, Adão, por ser senhor do cosmos, arrasta-o em sua queda, permitindo à serpente (forças sutis) desdobrar-se e tornar-se horizontal, separando a árvore da vida da árvore da ciência.
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A vida (comunicação com o espírito) perde-se, restando a conhecimento teórico; a ciência do bem e do mal, especulativa no Paraíso, torna-se a vida do homem decaído, que passa a ter consciência dualista.
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Os olhos se abrem para a consciência dualista e separativa, mas o olho interior do coração se fecha, e o homem vê que está nu, ou seja, torna-se objeto para si mesmo, expulso de si.
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A nudez interior do Adão primordial, coberta pela luz divina, é a que Maria permite reaver; a nudez exterior, a das “túnicas de pele”, é a exteriorização da nudez, a aparência corporal atual que manifesta a animalidade, não a humanidade.
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A queda original é a queda do “je” na psique, a passagem da consciência unitiva de ser à consciência distintiva de ter.