CONSTITUIÇÃO DO HOMEM SEGUNDO O MÉTODO FILOSÓFICO

JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.

Introdução

Chegamos agora às determinações antropológicas da caridade. Trata-se de mostrar como, no próprio homem, o psíquico deve ser distinguido do espiritual, distinção que condiciona a compreensão e a manifestação, na ordem humana, do Mandamento do amor. O amor, de fato, é o lugar privilegiado do encontro e da cooperação entre o psíquico e o espiritual; pode, portanto, ser também o lugar privilegiado de sua confusão.

A antropologia que vamos expor é orientada pela consideração do destino espiritual do ser humano. No entanto, ela não renuncia de forma alguma a se considerar objetiva e científica no sentido mais rigoroso do termo. Isso porque o homem, na realidade, não é uma máquina (desejante ou não) que pode ser descrita externamente. E preocupar-se com seu destino espiritual não é acrescentar uma superestrutura ideológica a uma estrutura humana considerada exclusivamente científica.

Mas o homem é um ser em devir, como toda criatura, e a verdade desse ser é a verdade que se realiza nesse devir, é o sentido do devir e o termo para o qual ele tende, assim como a verdade mais objetiva da semente é a árvore em que ela se transformará. E como, neste caso, é o homem que, na antropologia, se propõe a conhecer a si mesmo, resulta que não há conhecimento do homem que não seja ao mesmo tempo transformação e realização de si mesmo. De acordo com a bela expressão da Idade Média, o homem, na terra, é dito estar in via, em caminho. Como, então, poderíamos estudá-lo validamente, ignorando sistematicamente o objetivo de sua viagem?

Isso é uma evidência, mas que hoje parece completamente ignorada.

Os teólogos modernos se voltam para as ciências humanas para pedir que as instruam sobre o homem. Depois disso, esperam “integrar teologicamente” esses dados objetivos, ou seja, acrescentar ao homem natural que eles definem uma dimensão espiritual: “Do ponto de vista do conteúdo, a grande tarefa da teologia hoje é incorporar a antropologia”, declara o padre Congar. A reflexão filosófica mostra que tal afirmação não tem muito significado. Não se integra teologicamente uma antropologia constituída não apenas fora de qualquer teologia, mas contra qualquer referência a Deus. Essa afirmação, de uma ingenuidade assustadora, confere às ciências humanas uma objetividade ilusória. O marxismo ou a psicanálise não se contentam em descrever o homem, eles também pretendem construir o homem, realizar um projeto sobre o homem: sua teoria é também uma práxis. O mesmo se aplica a todas as formas de sociologia e psicologia. E esse objetivo não é oculto, mas abertamente declarado.

Aliás, seria sobrenaturalismo querer acrescentar ao homem uma dimensão espiritual sem raízes em seu próprio ser. Ou, inversamente, cairíamos na naturalização do sobrenatural, que viria apenas para responder aos desejos ou às necessidades do ser humano. Não existe uma antropologia profana autônoma à qual o teólogo possa acrescentar o complemento espiritual que lhe falta. Não se trata de acrescentar um “suplemento de alma”, segundo a fórmula de Bergson. Não se acrescenta alma ao ser humano como se acrescenta açúcar ao mingau. É preciso compreender o sobrenatural na própria natureza, como o destino que ela carrega em si e que deve realizar. O homem é precisamente esse ser “desnaturalizado” que, segundo a expressão de Amiel, “é apenas o que se torna, verdade profunda, mas se torna apenas o que é, verdade ainda mais profunda”. Ora, se há um dado objetivo da análise filosófica, é bem esse, saber que a natureza atual do homem não é totalmente sua verdadeira natureza. Como veremos em um capítulo posterior, se a teologia escolástica pôde integrar a antropologia de Aristóteles ou a de Platão, foi porque elas faziam jus a esse dado irrefutável.

O método filosófico deve, portanto, entrelaçar dois temas: o da busca de si mesmo que conduz à realização do ser por meio de sua transformação – tema alquímico – e o da descrição objetiva da estrutura antropológica – tema doutrinário. Na primeira seção, seguiremos o caminho do autoconhecimento. Constatando que é impossível seguir esse caminho sem conhecer a paisagem que ele atravessa, abordaremos o tema doutrinário; e, como o homem é antes de tudo um ser entre todos os outros seres do cosmos, dedicaremos a segunda seção à doutrina cosmológica; a terceira seção tratará da doutrina antropológica. Finalmente, na quarta seção, retornando ao tema alquímico inicial, chegaremos ao fim do caminho do conhecimento interior, ao mistério da pessoa.

Seção I Eu-mesmo e eu-outro

Seção II Os três graus da criação

Seção III A tripartição antropológica

Seção IV O eu e o eu. A egologia negativa.