JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.
A concepção da relação do homem à religião é ela mesma correlativa de um certo tipo de cultura e de civilização.
Introdução
Para que haja evidência e virtudes naturais, é preciso que haja uma natureza. Esta natureza é aquela do homem ele mesmo. Mas ela não está nele senão em estado virtual. Ela demanda ser atualizada e então revelada. Esta revelação e esta atualização são em princípio obra da civilização, particularmente sob seu aspecto cultural. É a função essencial de uma cultura informar a alma humana conforme suas virtualidades naturais. Logos é preciso responder a várias questões: O que é a natureza humana e suas virtualidades? Como estas virtualidades podem ser atualizadas pelo meio? Como por outro lado o meio de cultura pode atualizar estas virtualidade, ou, mais precisamente, qual é o tipo de cultura requerido para atualizar as virtualidades da natureza humana? Em resumo, o que é a natureza humana, o que é sua atualização? o que se atualiza?
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A natureza humana se estrutura em três essências articuladas que, sem se justapor nem se superpor, constituem determinações particulares da essência individual.
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Aristóteles fornece o ponto de partida: o homem é animal racional.
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A essência genérica distingue o homem dos demais viventes pela atividade mental, que opera sobre conceitos, não sobre objetos diretamente.
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A essência sexual não se reduz a disposição anatomo-fisiológica, mas caracteriza um comportamento global.
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A essência singular corresponde ao caráter e ao temperamento próprios de cada indivíduo.
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Uma essência transindividual ou pessoal, projeção supra-terrestre da essência individual, caracteriza o ser sobrenatural do homem, sua realidade in divinis.
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A natureza humana inclui ainda dimensões que escapam à dicotomia razão-sexualidade, embora estas últimas as impliquem.
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O homo politicus e o homo religiosus pertencem igualmente à natureza humana.
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A classificação não é exaustiva; a análise das essências genérica e sexual acaba por integrar as dimensões política e religiosa.
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As determinações da natureza humana existem como virtualidades objetivas internas ao sujeito, não como possibilidades indeterminadas nem como traços meramente subjetivos.
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A razão e a sexualidade são vividas pelo sujeito como exigências que o constrangem de dentro.
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A razão obriga o sujeito a seguir princípios que ele experimenta como coerções.
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A sexualidade surge no sujeito como uma estranha que o concerne: corpo-objeto dentro do corpo-sujeito, querendo ser reconhecida por outrem como objeto.
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Toda sexualidade é perturbadora porque o corpo parece adquirir por ela uma realidade autônoma.
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A ausência de instinto no homem decorre de sua natureza mental, e é a cultura, não o meio biológico, que constitui o ambiente natural humano.
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Ao contrário do animal, que não aprende a fazer ninhos nem a migrar, o homem só sabe o que aprendeu.
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O milieu natural do homem é de ordem cultural: o universo psicofísico é todo ele apreendido sob modalidade cultural, como mundo de representações, significações, valores e símbolos.
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O homem está imerso na cultura como o peixe na água.
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A atividade mental, ao operar por distância em relação às coisas, exige que as determinações virtuosas da natureza humana sejam informadas por formas mentais fornecidas de fora.
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O mental é o meio de refração pelo qual o homem acede às coisas por meio de conceitos.
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Sem conceitos de si mesmo, o homem não opera sobre si mesmo e não se torna o que é.
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Não há homem sem cultura: a cultura é um mental objetivo, o intelecto em ato objetivo de uma civilização, de onde o mental humano extrai as formas inteligíveis que informam suas determinações virtuais.
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A essência singular é inacessível diretamente e só se manifesta de modo indireto, pela maneira única com que o indivíduo se apropria das determinações externas de seu meio.
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Sociólogos, culturólogos, biologistas e fisicistas reconstroem o indivíduo a partir dos preconceitos de sua perspectiva, mentindo à experiência comum.
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O sartrismo afirma que o homem se escolhe, mas, como observa Paul Ricoeur, há uma maneira de escolher que não se escolhe.
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A essência individual resulta do encontro entre o arquétipo pessoal (natureza in divinis no Verbo eterno) e o meio em que essa essência supra-individual se manifesta.
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O símbolo da cruz traduz essa estrutura: a vertical representa a projeção existencial do arquétipo; a horizontal, o meio; a essência individual é o ponto de cruzamento.
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As palavras de Cristo – “se o grão de trigo não morrer, não dará fruto” e “quem quiser ser meu discípulo tome sua cruz” – exprimem a necessidade de crucificação da essência individual para a realização do arquétipo pessoal.
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A essência singular opera uma seleção entre os dados do meio, assimilando apenas o que está em acordo com suas determinações internas, e o mesmo vale para as essências sexual, religiosa e política.
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A natureza humana só é atualizável se o meio biocultural é capaz de fornece-lhe temas assimiláveis.
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As determinações externas do meio precisam estar acordadas com as determinações internas da alma.
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A metáfora resume o princípio: a água é o meio natural do peixe, mas há águas envenenadas.
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Somente uma cultura de tipo essencialista, tradicional e mitológico é capaz de constituir no homem virtudes naturais e de dar-lhe instintos.
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A objeção prévia a enfrentar é a de que todo aprendizado passa pelo conhecimento mental discursivo, ao passo que o instinto é direto e inconsciente.
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A resposta é que é a inteligência que conhece; o mental é apenas o meio de refração.
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A inteligência é, por definição, direta e intuitiva: diante de uma rosa, o sujeito tem consciência de estar perante a rosa em si, perante a essência da rosa.
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As representações culturais de origem ideológica não entregam nenhuma evidência natural, ao contrário das representações da cultura tradicional e simbólica.
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A chamada cultura moderna é descrita como mistura caótica de elucubrações estéticas e de psicossociologia.
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As essências culturais da civilização tradicional impõem-se quasi instintivamente e se transformam em normas interiores.
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Civilização tradicional é aquela fundada na Tradição, isto é, na transmissão de elementos de origem divina; o que tem começo no tempo é revolucionário, não tradicional.
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A civilização medieval é citada como exemplo de civilização tradicional no Ocidente.
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As formas culturais tradicionais constituem um cosmos noetos, um mundo inteligível cujas formas são essências ou ideias platônicas que iluminam o ambiente humano.
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As essências culturais não são fabricadas pela civilização, mas refletem arquétipos eternos e exprimem a natureza das coisas e a Vontade divina.
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Solo, raça, técnicas e modos de vida imprimem o estilo próprio de cada civilização, mas não produzem as essências culturais.
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Há um paralelismo entre a alma de um homem e a alma de uma civilização: assim como a essência individual resulta do encontro do arquétipo pessoal com o meio, as essências culturais resultam do encontro dos arquétipos celestes com determinado mundo humano.
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São os arquétipos do homem e da mulher que se refletem tanto na cultura quanto na essência individual; na cultura são revelados segundo seu protótipo simbólico; na essência individual são realizados.
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Goethe é evocado: um homem diante de uma mulher é o eterno masculino diante do eterno feminino.
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O meio cultural transmite seu ensinamento sob múltiplas formas simbólicas que dizem ao homem o que ele é e o que deve ser.
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A arquitetura e a escultura das catedrais, as lendas, os trajes, as culturas de ofício com seu simbolismo (incluindo o Companheirismo, ainda vivo), as tradições folclóricas com suas canções e costumes populares – todos veiculam uma sabedoria vinda do fundo dos tempos.
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As tradições folclóricas integram o ritmo mais íntimo da vida (amor, casamento, nascimento, morte, trabalho) aos grandes ritmos cósmicos e à vida coletiva.
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O poeta Rilke é citado: “Ah, dos ritos. Dai-nos ritos!”
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A Idade Média é apontada como a única época da história do Ocidente em que existiu uma verdadeira cultura popular.
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Sem as essências fornecidas pela civilização tradicional, o homem não pode viver suas determinações, apenas sofrê-las como um animal.
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Viver é escolher, e escolher é agir segundo um modelo; por isso o homem não pode viver sem essências.
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Os reproches ao platonismo global dos séculos passados provêm de uma concepção abstrata das essências e de ignorância das condições reais da vida.
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Sem ideia do que significa seu ser sexual, o homem não vive a sexualidade, apenas a sofre.
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As ciências humanas são incapazes de fornecer essa ideia; seria necessário um gênio sobre-humano, o gênio da própria espécie.
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Viver a sexualidade é viver o mito: não é “tu e eu”, mas a realização, através de “tu e eu”, de uma natureza que ultrapassa os indivíduos e da qual eles são responsáveis como de uma alta função.
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A civilização tradicional integrava a natureza humana à natureza cósmica por meio do símbolo, formando um homem verdadeiramente constituído em sua força e virtude.