CONSTITUIÇÃO DO HOMEM SEGUNDO O NOVO TESTAMENTO

JEAN BORELLA. La Charité profanée. Subversion de l’âme chrétienne. Paris: Éditions du Cèdre, 1979.

Parece-nos que a doutrina que acaba de ser exposta fornece a chave da antropologia neotestamentária. Não será inútil, contudo, demonstrá-lo, ao menos de modo sucinto, pois é evidentemente impossível empreender um estudo exaustivo. Para tanto, seria necessário entrar em debates extremamente longos e justificar, a cada passo, nossas interpretações perante o tribunal, muitas vezes discordante, de todos os exegetas que trataram dessas questões. Ora, constatamos que a maioria dos exegetas que lemos não extrai sua interpretação antropológica do texto estudado, mas antes interpreta os textos das Escrituras conforme sua própria concepção antropológica, isto é: ou a da Igreja Católica — o que constitui o melhor dos casos; ou a de nosso tempo — o que não tem grande valor; ou ainda aquela que, segundo seu ponto de vista, os evangelistas deveriam ter tido — e esse é o pior dos casos. Existem, entretanto, concepções antropológicas das quais tais exegetas não têm a menor ideia, e que poderiam, a nosso ver, iluminar os textos.

Saber o que o texto sagrado diz acerca do homem não tem qualquer interesse se nele se vê apenas uma curiosidade cultural ou etnológica. A única questão que importa é saber qual é a constituição do homem — antropologia estrutural — e se é realmente dele que a Revelação nos fala — exegese. Sem dúvida, a Revelação passa por uma contingência cultural. Mas essa cultura reflete, na realidade, uma doutrina universal que se encontra, sob formas diversas, em todas as civilizações terrestres, exceto na civilização moderna da Europa ocidental. Talvez tenha chegado o momento de conceder algum crédito à objetividade científica das concepções antropológicas da Sagrada Escritura e de pôr em questão as concepções dos europeus, quer se trate da antropologia implícita do homem comum, quer, o que é ainda pior, da antropologia explícita e fundamentalmente antirreligiosa das ciências humanas, como a psicanálise.

Considerada em seu conjunto, a antropologia neotestamentária é tripartida. Tal fato é evidentemente contestado pela maioria dos exegetas, pois lhes parece ou em contradição com o ensinamento da Igreja, ou ininteligível para o espírito moderno. Existem, contudo, numerosos textos que expressam, de modo incontestável, uma tripartição antropológica. Por que razão teriam eles menos valor que os textos, igualmente numerosos, nos quais se manifesta uma antropologia bipartida? Parece-nos, entretanto, de extrema importância, para a teologia, levar em consideração uns e outros.

A questão, aliás, é relativamente simples de resolver. Se se compreendeu bem o que foi exposto no capítulo precedente, entender-se-á que, de todo modo, sempre se pode chamar alma àquilo que não é corpo. Ora, uma vez plenamente admitido e verificado esse ponto em todas as culturas, resta reconhecer que a tripartição e a bipartição não correspondem ao mesmo contexto. Quando a Escritura chama o homem a reunir todos os elementos de seu ser para dirigir-se a Deus, enuncia geralmente uma tripartição de elementos. Ao contrário, quando chama o homem a dividir-se, isto é, a renunciar, em si mesmo, ao que não lhe pertence verdadeiramente, enuncia geralmente uma bipartição, opondo simplesmente a alma ao corpo. O primeiro ponto de vista tem valor mais doutrinal que o segundo, o qual possui antes valor metódico ou ascético. Com efeito, o homem é mais verdadeiramente ele mesmo quando é considerado em seu estado de reunião amorosa diante de Deus, na perfeição de sua natureza, do que quando luta dolorosamente no mundo para vencer a imperfeição de sua condição pecaminosa. Tal é o princípio a que nos referimos: tripartição doutrinal, bipartição metódica — princípio que recordaremos quando necessário.

Deixaremos de lado, no presente estudo, a questão do vocabulário antropológico do Antigo Testamento. Trata-se de uma questão mais complexa, dada a abundância dos textos, e preferimos tratá-la adiante, numa espécie de capítulo-dossiê, no qual forneceremos algumas referências para o estudo da tripartição antropológica entre gregos, hebreus e cristãos. Por ora, desejamos sobretudo destacar alguns pontos fundamentais. Estudaremos primeiramente a antropologia dos Evangelhos e, em seguida, a de São Paulo. 1) Antropologia dos Evangelhos segundo o Mandamento supremo


* O mandamento supremo, ao enumerar as faculdades humanas que devem participar do amor a Deus, fornece implicitamente uma antropologia cristã fundamental, retomando o Shema Israel transmitido por Moisés.