A destruição construtivista e o processo de desessencialização da civilização moderna
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A ausência de evidências naturais inspiradoras da caridade caracteriza o mundo contemporâneo, no qual não subsistem mais evidências naturais, mas apenas construídas. Por definição, somente é naturalmente evidente aquilo que se dá como expressão da natureza das coisas, o que implica uma cultura essencialista sustentada na crença em um mundo arquétipo. Desde o século XVII, o movimento civilizacional moderno, identificado ao racionalismo, realiza uma vasta operação de desnaturalização, reduzindo toda compreensão à razão, a qual constrói o dado e, portanto, nega sua objetividade. Assim, o cartesianismo, o kantismo e o axiomático matemático exemplificam o esforço de substituição das evidências naturais por estruturas construídas e convencionais.
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As ciências humanas reproduzem o mesmo processo de destruição dos dados humanos, culminando na negação do próprio homem, como atesta a filosofia de Michel Foucault. A ideia de “natureza humana” passa a ser vista como produto histórico, ligado a uma estrutura cultural determinada. O estruturalismo, embora se pretenda uma objetivação científica, ignora a noção de natureza, desconhecendo o ponto de vista essencialista das civilizações tradicionais. A experiência da vida, segundo o autor, é necessariamente platônica, pois o homem só pode viver sua sexualidade e sua existência segundo o modo de uma essência.
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O processo de desnaturalização, estendido à experiência corporal, redefine o dado corpóreo como construção racional e técnica. A civilização industrial substitui o processo natural por um processo técnico, instaurando a ilusão de domínio absoluto. O universo real torna-se um universo fabricado, onde tudo é objetivação da potência humana. A técnica não domina o universo, mas cria um universo de dominação. Nesse mundo de concreto e pílulas, a realidade é o produto industrial, e o homem é cercado por testemunhos materiais de seu poder. No entanto, apesar dessa aparência de mutação, a natureza do homem permanece fundamentalmente a mesma.