O verdadeiro casamento das duas forças da alma só pode consumar-se no ponto em que o espírito transcendente incide em seu plano comum, o que significa que o eu que a psicologia moderna considera núcleo da personalidade é, segundo todas as tradições espirituais, precisamente o muro que separa a consciência da luz do espírito puro.
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O casamento químico não é uma individuação no sentido de um processo pelo qual o eu imprime sua forma peculiar e limitada a uma série de impulsos coletivos.
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A consciência humana só pode exercer verdadeiro poder sobre o tempestuoso mar do inconsciente se nela atua uma força criadora procedente de uma esfera superior à da consciência individual, esfera que em si é uma luz diáfana e perfeita, inacessível à observação psicológica.
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A psicologia, como toda ciência empírica, está submetida ao pensamento racional e não pode sair de si mesma para penetrar em sua própria fonte de luz, do mesmo modo que não se pode iluminar o Sol com um espelho.
A consciência individual encontra-se entre dois campos do inconsciente: um inferior, potencial e amorfo; outro superior, que só visto de baixo aparece impenetrável, mas que na medida em que atua no campo psíquico doma e assimila a força natural do inconsciente inferior.
O processo alquímico tem significado duplo e ambivalente: o desenvolvimento das forças primordiais da alma, o enxofre masculino e o mercúrio feminino alcançado mediante a concentração espiritual, pode refletir o espírito inacessível ao pensamento na medida em que abarca campos instintivos e naturais.
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A Natureza em seu aspecto inacessível ao pensamento é o reflexo inverso do espírito criador, conforme a lei da Tábua Esmeralda segundo a qual o que está abaixo corresponde ao que está acima.
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A receptividade feminina alcança seu apogeu e enlaça diretamente com o ato masculino triunfante apenas no espírito, onde as forças primordiais realizam sua plenitude.
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A presença imediata do espírito num homem atua sobre todo o ambiente espiritual e, por meio deste, sobre as circunstâncias materiais, o que pode explicar certos fatos miraculosos no âmbito dos santos.
Completando o esquema em forma de cruz, a parte superior do mastro vertical indica a origem da luz espiritual; o extremo inferior mergulha na escuridão da natureza inconsciente; os braços medem o desenvolvimento das duas forças psíquicas polares.
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Mediante a reconciliação ou casamento dessas forças, desaparece também a oposição entre cima e baixo à medida que a escuridão é dissipada pela luz.
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As duas serpentes que sobem ao mastro da cruz e se encontram no travessão para converter-se numa serpente única erguida na cruz simbolizam como a Natureza escura se converte em Natureza iluminada.
O casamento das duas forças psíquicas conduz finalmente às bodas do espírito e da alma, e como o espírito é Deus nos homens segundo o Corpus Hermeticum, essa última união é afim ao matrimônio místico.
O símbolo do matrimônio está estreitamente unido ao da morte: o Rei e a Rainha morrem no momento das bodas e são enterrados juntos para ressuscitar rejuvenescidos, pois todo enlace pressupõe a extinção do estado anterior diferenciado.
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Uma antiga tradição associa sonhar com casamento a presságio de morte e sonhar com enterro a augúrio de casamento.
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No casamento entre homem e mulher, cada contraente renuncia a uma parte de sua individualidade; na morte, à separação inicial segue a união do corpo com a terra e da alma com sua essência original.
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No casamento químico, o mercúrio incorpora-se ao enxofre e vice-versa: ambas as forças morrem como antagonistas, e a lua da alma, variável e refletora como espelho, une-se ao imutável sol do espírito, quedando ao mesmo tempo extinta e iluminada.