Os arquétipos ou ideias platônicas, possibilidades imutáveis contidas no espírito, não podem ser apreendidos de modo imediato pelo entendimento e não devem ser aplicados a conceitos gerais nem ao campo psicológico do inconsciente coletivo, falsa interpretação que confunde a indivisibilidade da luz espiritual com a impenetrabilidade do fundo obscuro e passivo da alma.
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Os arquétipos estão acima e não abaixo do entendimento, e só quando se produz a união da alma com o espírito o conteúdo deste cristaliza em símbolos no entendimento e na imaginação.
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No Poimandres do Corpus Hermeticum descreve-se a revelação do espírito universal a Hermes-Thot como uma visão de luz convertida em Todo ilimitado, identificada como o espírito, a forma primitiva, a origem e o princípio de tudo.
É símbolo tudo o que no plano da alma e do corpo reflete os arquétipos espirituais, tendo a imaginação certas vantagens sobre o pensamento abstrato por ser mais dúctil e apoiar-se na relação inversa entre os campos corporal e espiritual, conforme a lei da Tábua Esmeralda: o que está abaixo é igual ao que está acima.
A contemplação hermética da Natureza visa não a natureza mensurável e sujeita a causas temporais, mas as propriedades essenciais das coisas, comparáveis aos fios verticais da urdidura de um tecido, enquanto a trama horizontal representa a qualidade material determinada pelo tempo e o espaço.
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Uma visão do cosmos baseada num legado espiritual pode ser exata no sentido vertical mas imprecisa no sentido horizontal da observação analítica.
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Os quatro elementos alquímicos não são componentes químicos das coisas, mas definições qualitativas fundamentais da matéria em si: a verificação analítica da composição da água em hidrogênio e oxigênio não dá nenhum indício sobre a essência do elemento água, ao passo que a experiência direta e sensorial do elemento desperta um eco que ressoa em todos os planos do conhecimento.
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A ciência moderna analisa as coisas para possuí-las e manejá-las, visando antes de tudo a técnica, enquanto a essência não se descobre mediante um simples detalhamento, como entendeu Goethe ao afirmar que aquilo que a Natureza não quiser revelar à luz do dia não se lhe poderá arrancar com alavancas ou parafusos.
O mais antigo esquema do Universo, em que a Terra aparece como disco sob a abóbada celeste, é o de significado mais amplo e profundo, representando o Céu o polo ativo e masculino da existência e a Terra o polo passivo e feminino.
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O movimento giratório do céu revela um eixo fixo e invisível que corresponde ao espírito sempre presente em todas as fases do mundo.
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A trajetória do Sol marca uma cruz simétrica que aponta para os quatro pontos cardinais, dividindo em frias e quentes, secas e úmidas todas as propriedades que determinam a vida.
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O movimento solar, visto em conjunto, plasma-se na figura de uma espiral de duplo giro, representada no yin-yang chinês e na vara de Hermes com duas serpentes enroladas em torno do eixo do mundo.
O esquema ptolomaico, em cujo centro aparece a esfera terrestre rodeada pelas órbitas celestes e pelo empíreo exterior sem estrelas, apresenta o símbolo do envolvimento no espaço: quanto mais ampla a órbita do astro, mais puro e próximo da origem divina o estado de existência correspondente.
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O empíreo sem estrelas, que comunica seu movimento ao céu das estrelas fixas e se move com maior velocidade e exatidão, representa o primum mobile e o espírito divino que tudo envolve.
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Dante adotou a interpretação tolemaica do Universo, já representada em escritos árabes, e um manuscrito hermético anônimo latino do século XII de provável origem catalã descreve a ascensão pelas esferas como subida através de estados espirituais em que a alma passa de uma percepção fragmentária e sujeita às formas a uma apreciação indiferenciada e imediata em que sujeito e objeto são uma mesma coisa.
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As órbitas celestes são completadas do lado da Terra pelas órbitas concêntricas dos quatro elementos: fogo, ar, água e terra.
O esquema heliocêntrico do Universo não é uma descoberta renascentista, pois Copérnico apenas retomou uma ideia já exposta na Antiguidade; visto como símbolo, é o complemento indispensável do sistema geocêntrico, podendo a origem divina do Universo conceber-se tanto como o espaço infinito que tudo envolve quanto como o centro irradiador de todas as manifestações.
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O pensamento racionalista utilizou o esquema heliocêntrico como prova de que o antigo esquema geocêntrico era um erro, gerando a paradoxo de uma ideologia que faz da razão a medida de toda realidade mas traça um esquema em que o homem aparece como mota de pó, enquanto o conceito medieval fundado na revelação e na inspiração situava o homem no centro do universo.
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Na visão de uma cosmologia fiel à tradição, o esquema heliocêntrico tem apenas significado esotérico, o mesmo que Dante apresenta em sua descrição teocêntrica do mundo dos anjos: visto de Deus, o homem está não no centro mas na borda externa da existência.
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O esquema heliocêntrico é correto do ponto de vista físico-matemático porque encerra algo extra-humano, cingindo-se ao campo material e quantitativo e constituindo o contraponto da visão que apresenta o homem sub specie aeternitatis.
Nenhum esquema do Universo pode ser absolutamente correto, pois a realidade em que se centra a observação é relativa, dependente e infinitamente múltipla, e a crença incondicional no esquema heliocêntrico criou um grande vazio espiritual ao despojar o homem de sua dignidade cósmica.
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A incorporação do Sol a uma multidão de bilhões de outros sóis, situados a anos-luz de distância, desfez todos os esquemas do Universo no sentido literal: o homem perdeu a sensação de fazer parte de um todo logicamente ordenado, pelo menos nos países do Ocidente.
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Se o conhecimento científico marchasse paralelamente a uma interpretação espiritual das aparências, poderia ver na progressiva dissolução de todos os sistemas a prova de que qualquer visão do mundo é apenas uma alegoria relativa.
Existem duas formas diametralmente opostas de contemplar o mundo: a científica, que estuda a inesgotável multiplicidade dos fenômenos e tende a se decompor à medida que acumula experiências; e a espiritual, que se orienta para o centro espiritual, assenta-se no caráter simbólico das aparências e tende a simplificar o que retém de essencial.
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A visão mais completa que o homem pode alcançar é simples no sentido de que sua riqueza interior não admite sinais distintivos.
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Um texto hermético em língua síria descreve um misterioso espelho colocado num templo sob sete portas que simbolizam os sete céus planetários: nele a alma descobre a vergonha que encerra, purifica-se, imita o Espírito Santo, transforma-se em espírito e reconhece a Deus e é reconhecida por Ele, numa visão que identifica o espelho ao Espírito divino, origem de tudo, e o preceito délfico conhece-te a ti mesmo ao reconhecimento espiritual de si no Espírito.