A fórmula fundamental do islã, o testemunho (shahada) de que não há divindade senão a Divindade (la ilaha illaLlah), deve ser traduzida de modo a conservar sua aparência de pleonasmo ou paradoxo, e não simplesmente como não há Deus salvo Allah.
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A primeira parte da fórmula, chamada o despojamento (al-salb) ou a negação (al-nafyi), nega de maneira geral a própria noção de divindade (ilah).
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A segunda parte, a afirmação (al-itbat), afirma essa noção por isolamento, de modo que a fórmula postula uma ideia que ao mesmo tempo nega como gênero, sendo o contrário de uma definição.
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Essa paradoxo é análogo às fórmulas taoistas o caminho que pode ser percorrido não é o verdadeiro Caminho e o nome que pode ser nomeado não é o Nome verdadeiro: em ambos os casos uma ideia é oferecida provisoriamente ao pensamento para em seguida subtrair-se a todas as suas categorias.
A fórmula não há divindade senão a Divindade contém simultaneamente dois sentidos opostos: distingue o outro-que-Deus de Deus em Si mesmo e ao mesmo tempo relaciona o primeiro com o segundo, expressando a distinção mais fundamental e a identidade essencial e resumindo assim toda a metafísica.
A incomparabilidade perfeita de Deus exige que nada possa confrontar-se com o incomparável em nenhum aspecto, o que equivale a dizer que nada existe diante da Realidade divina e tudo se anula nela, conforme o hadith qudsi: Deus era e nada com Ele; Ele é agora como Ele era.
O afastamento extremo (tanzih) implica necessariamente seu contrário: como nada pode opor-se a Deus sem ser outra divindade (ilah), qualquer realidade não pode ser senão um reflexo da Realidade divina, de modo que todo sentido positivo atribuível à noção de divindade se transpõe in divinis.
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As transposições são da ordem de não há realidade senão a Realidade, não há força senão a Força, não há verdade senão a Verdade.
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As coisas reabsorvem-se em Deus quando se reconhecem as qualidades essenciais de que são constituídas: tal é o ponto de vista do simbolismo (tashbih), complementar do tanzih.
Os mestres sufis denominam al-Ahadiyya a Unidade indivisível, derivada de ahad (um), e al-Wahidiyya, derivada de wahid (único) e traduzível por Unicidade, a aparição da Unidade em seus aspectos universais.
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A Unidade suprema e incomparável (al-Ahadiyya) é sem aspectos e só pode ser objeto do Conhecimento divino imediato e indiferenciado, não podendo ser conhecida ao mesmo tempo que o mundo.
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A Unicidade (al-Wahidiyya) é correlativa do Universo: nela o Universo aparece divinamente, e em cada um de seus aspectos inumeráveis Deus se revela de modo único, integrando-se todos na Natureza única divina.
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A distinção entre Unidade e Unicidade divinas é análoga à distinção védica entre Brahma nirguna (Brahma não qualificado) e Brahma saguna (Brahma qualificado).
A Unidade é ao mesmo tempo indiferenciada e princípio de distinção: como al-Ahadiyya corresponde à Não-Dualidade (advaita) hindu; como al-Wahidiyya é o conteúdo positivo de qualquer distinção, pois é por sua unicidade intrínseca que cada ser se distingue dos demais, e não apenas por suas limitações.
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As coisas distinguem-se por suas qualidades, e estas, no que têm de positivo, podem transpor-se no universal segundo a fórmula não há perfeição senão a Perfeição divina.
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As Qualidades universais ligam-se à Unicidade divina como aspectos possíveis da Essência divina imanente ao mundo, comparáveis a raios que emanam do Princípio sem jamais dele se desprenderem e que iluminam todas as possibilidades relativas.
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São os conteúdos incriados das coisas criadas, e por sua mediação a Divindade é acessível, com a ressalva de que a Essência suprema (al-Dat), em que suas realidades distintas coincidem, permanece inabordável a partir do relativo.
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Sua expansão simboliza-se pelo sol, cujos raios se veem mas que não se pode olhar diretamente por causa de seu brilho ofuscante.
Os aspectos principiais do Ser são também as modalidades fundamentais do conhecimento, de modo que as Qualidades universais estão no Intelecto como estão na Essência, comparáveis em ambos os casos às diversas cores contidas na luz branca, cuja brancura é na realidade uma ausência de cor — analogamente à Essência, que sintetiza todas as qualidades mas não pode ser conhecida no mesmo plano que elas.
O que os sufis ensinam sobre as Qualidades divinas é análogo ao que os contemplativos ortodoxos dizem das Energias (energeia) divinas, consideradas igualmente como incriadas mas imanentes ao mundo.
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As Energias não podem desprender-se da Essência (ousia) que manifestam e, no entanto, são distintas dela, o que só se concebe por uma intuição que distingue a Natureza divina unindo-a e a une pela distinção, segundo São Gregório Palamas.
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A mesma verdade exprime-se na fórmula sufi que define a relação das Qualidades com Deus: nem Ele nem outro que Ele (la huwa la gayruhu).
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São Gregório Palamas afirma que a Essência é incomunicável, indivisível e inefável, vai além de qualquer nome e entendimento, e que apesar de nunca se manifestar fora de sua ipseidade, sua própria natureza implica um ato supra-temporal de revelação pelo qual ela de alguma maneira torna-se acessível à criatura, que se une à Divindade em Suas Energias.
Os Nomes divinos são necessariamente em número limitado, pois são qualidades resumidas em tipos fundamentais e promulgados pela Escritura sagrada como meios de graça susceptíveis de ser invocados, enquanto as Qualidades divinas, cada uma única, são em multidão indefinida.
Os Nomes ou Qualidades, considerados como determinação, são as relações universais (nisab kulliyya) não existentes em si mesmas e portanto virtuais e permanentes na Essência, manifestadas apenas quando seus termos implícitos como o ativo e o passivo se definem.
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As Qualidades ou Nomes divinos não existem senão enquanto o mundo existe.
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Todas as qualidades do mundo reduzem-se logicamente às Qualidades universais, ou seja, às relações puras.