Como as verdades doutrinais admitem desenvolvimento indefinido e a civilização muçulmana absorveu heranças pré-islâmicas, os mestres podiam empregar noções oriundas desses legados, nomeadamente as de Empédocles e
Plotino para a cosmologia, e reconhecer a validade das doutrinas de
Platão, tal como os Padres gregos o fizeram sem deixar de ser essencialmente apostólicos.
A ortodoxia do sufismo manifesta-se não apenas na conservação das formas islâmicas, mas também no seu desenvolvimento orgânico a partir do ensinamento do Profeta e na sua capacidade de assimilar formas de expressão espiritual que não sejam essencialmente estranhas ao islã, inclusive em matérias secundárias relacionadas com alguma arte.
Embora tenham existido contatos entre os primeiros sufis e contemplativos cristãos, como o demonstra a história do sufi Ibrahim ibn Adham, o parentesco entre o sufismo e o monaquismo cristão oriental não se explica apenas por interferências históricas, mas pela natureza do próprio mensagem de Cristo.
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Segundo Abd al-Karim al-Yili em al-Insan al-Kamil, o messagem de Cristo descobre aspectos interiores e esotéricos do monoteísmo de Abraão.
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Os dogmas cristãos, redutíveis ao dogma das duas naturezas de Cristo, resumem em forma histórica o que o sufismo ensinará sobre a união com Deus.
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Os sufis consideram o Senhor Jesus (Sayyidna Isa) o tipo mais perfeito do santo contemplativo entre os enviados divinos (rusul): oferecer a face esquerda a quem golpeou a direita é o desapego espiritual por excelência.
Apesar das semelhanças entre o sufismo e a contemplação cristã, os caminhos tradicionais são como raios de um círculo que convergem num ponto único sem jamais coincidir, exceto no centro onde cessam de ser raios, distinção que não impede ao intelecto situar-se por antecipação intuitiva nesse centro.
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A via dos sufis difere muito da dos contemplativos cristãos, a despeito de todas as semelhanças.
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A pessoa de Cristo não se situa para os sufis na mesma perspectiva que para os cristãos.
O sufismo compreende sempre, como elementos indispensáveis, uma doutrina, uma iniciação e um método espiritual, sendo a quintaessência da doutrina proveniente do Profeta, mas continuamente manifestada pela boca dos mestres graças a uma certa inspiração.
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A doutrina é prefiguração simbólica do conhecimento a ser conquistado e, em sua manifestação, fruto desse mesmo conhecimento.
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O ensinamento oral é superior, por seu caráter imediato e pessoal, ao ensinamento obtido dos escritos, que desempenham papel secundário de preparação, complemento ou auxílio à memória.
A iniciação sufi consiste na transmissão de uma influência espiritual (baraka) conferida por um representante da cadeia com origem no Profeta, que em geral é o próprio mestre, responsável também por comunicar o método e os meios de concentração espiritual adequados às aptidões do discípulo.
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O quadro geral do método é a Lei islâmica, embora sufis isolados, em razão do caráter excepcional de seus estados contemplativos, tenham deixado de participar do ritual ordinário do islã.
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Os suportes espirituais que em certas circunstâncias substituem o ritual habitual foram dados pelo próprio Profeta e constituem as pedras angulares de todo o simbolismo islâmico.
A iniciação toma habitualmente a forma de um pacto (bay'a) entre o candidato e o mestre espiritual (al-murshid), representante do Profeta, que implica a submissão perfeita do discípulo em tudo o que concerne à vida espiritual e não pode ser anulado pela vontade unilateral do discípulo.
As diferentes ramificações da filiação espiritual do sufismo correspondem aos diversos caminhos (turuq), cada um adaptado por um grande mestre às aptidões de uma determinada categoria de homens dotados para a vida espiritual, sem que tais caminhos representem cisões ou seitas, embora desvios parciais possam ter ocorrido incidentalmente.
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Os diferentes caminhos correspondem a diferentes vocações e estão orientados para o mesmo fim.
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O sinal exterior de uma tendência sectária é sempre o caráter quantitativo e dinâmico da propagação.
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O sufismo autêntico nunca pode tornar-se um movimento, pois recorre ao que há de mais estático no homem: o intelecto contemplativo.
Se o islã pôde manter-se intacto ao longo dos séculos, a despeito da volatilidade do psiquismo humano e das divergências étnicas dos povos que abarca, isso se deve não ao seu caráter relativamente dinâmico como forma coletiva, mas ao fato de implicar, desde sua origem e por destino, a possibilidade de uma contemplação intelectual que transcende a corrente das afetividades humanas.